|
|
Conjuntura
O que impede o crescimento
Em 2003 o governo conseguiu recuperar
a credibilidade internacional do Brasil,
mas
enormes obstáculos ao crescimento
ainda estão pelo caminho

Eduardo Salgado e Alexandre Oltramari
Feito
o custoso ajuste em 2003, o Brasil está pronto para viver
o espetáculo do crescimento em 2004. Correto? Como quase
tudo na economia globalizada, interdependente e complexa do mundo
atual, a resposta a essa pergunta não tem uma variante simples.
O mais tranqüilizador a dizer e o mais próximo da realidade
é que, ao examinar as estimativas de crescimento para o próximo
ano, a maioria dos analistas concorda que elas são melhores
que as de 2003, 2002 e 2001. O Brasil pagou um preço alto
pelo ajuste feito neste ano, na forma de estagnação
econômica e aumento do desemprego. O país chegará
a dezembro com um crescimento pífio de cerca de 0,3%. A dura
realidade para um país com enormes distorções,
desigualdade social, desemprego em alta e carências gritantes
de infra-estrutura é que não existem no Brasil as
condições que, no passado recente, permitiram a outras
nações crescer. Todo o esforço do ano que está
prestes a terminar foi suficiente apenas para que o Brasil não
quebrasse nem perdesse a credibilidade internacional. Preparar o
terreno para o crescimento sustentado e duradouro exige outra sorte
de medidas, de disposição do governo e de profundas
mudanças culturais.
A maioria das distorções que impedem o crescimento
no Brasil é provocada pelo gigantismo do Estado. Metade da
atual geração de governantes e parlamentares brasileiros
não reconhece esse problema. A outra metade reconhece, mas
não admite fazer nada contra ele. O Estado brasileiro, e
nisso ele não difere de nenhuma outra democracia ocidental,
tem como instinto básico aumentar ainda mais de tamanho e,
nas crises, arrancar ainda mais dinheiro da sociedade. Na semana
passada, apenas com a decisão do Congresso Nacional de congelar
a tabela do imposto de renda e manter a alíquota máxima
de 27,5%, mais 5 bilhões de reais serão entregues
ao governo anualmente pela já combalida classe média
brasileira. Outra alteração a ser feita na estrutura
fiscal do país, para entrar em vigor no ano que vem, mexeu
com a Cofins, sigla para Contribuição para Financiamento
da Seguridade Social. A Cofins teve um aumento de alíquota
de 3% para 7,6%. Segundo cálculos de Gilberto Amaral, presidente
do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, o aumento
de receita no próximo ano, com as mudanças na Cofins,
a manutenção da faixa de 27,5% para o imposto de renda
e outras alterações na legislação fiscal,
será da ordem de 25 bilhões de reais. O governo faz
uma conta mais modesta, mas não aponta para o que realmente
interessa à sociedade: a diminuição dos impostos
e o arejamento da atividade econômica privada, com o redesenho
da máquina estatal, que precisa custar menos.
Tome-se como certo o cálculo do governo. Com as mudanças
da semana passada, a sociedade brasileira ficou cerca de 10 bilhões
de reais mais pobre e o governo enriqueceu na mesma proporção.
Essa é apenas uma árvore. Quando se olha toda a floresta
de tributos, o que se mostra de maneira muito clara é que
a carga tributária brasileira é um tremendo obstáculo
ao crescimento. No ano que vem, a carga total de dinheiro transferida
do Brasil para Brasília deve passar dos 40%, na visão
mais otimista. Os pessimistas dizem que chegará a 43%. Essa
carga é incompatível com o crescimento sustentado.
A maior parte dos países emergentes que cresceram a taxas
anuais médias em torno de 5% nas décadas de 80 e 90
tinha carga de impostos de no máximo 25%. De acordo com as
pesquisas de Vito Tanzi, lendário economista e ex-diretor-geral
de política tributária do Fundo Monetário Internacional
(FMI), a carga tributária média para os países
em desenvolvimento não pode passar de 20%.
Joedson Alves/AE
 |
| Reunião
de líderes em Brasília para discutir a reforma tributária: a
carga só cresce |
"A
carga tributária não é um problema em si mesma.
Ela é problemática quando há uma distorção
entre impostos e renda per capita", diz o ex-ministro da Fazenda
Mailson da Nóbrega, sócio da consultoria Tendências.
Países ricos e de economia madura, como regra geral, têm
carga tributária mais alta. É do jogo. O problema
é que, com uma renda per capita de 2 900 dólares,
o Brasil cobra de sua população uma carga total de
impostos que só encontra paralelo em países com renda
per capita seis vezes maior. O volume de impostos no Brasil é
um escândalo mesmo quando comparado a países do mesmo
nível. Os brasileiros pagam cinco vezes mais impostos que
os chineses, duas vezes mais que os chilenos e o triplo dos mexicanos.
O furor fiscal do Estado brasileiro provoca como efeito imediato
a fibrilação cardíaca da economia. Falta dinheiro
para que as empresas paguem salários melhores e para que
os assalariados gastem mais nas lojas. O efeito da devassa sobre
os empresários produz talvez a mais devastadora armadilha
ao crescimento: a inapetência para investir. No jargão
dos economistas, a capacidade de investimento das empresas é
chamada de poupança interna privada. Como está o Brasil
nesse quesito? No Brasil ela está em 18% do PIB. É
uma das menores taxas de poupança interna do mundo, mesmo
entre os países emergentes. A Rússia tem 34%, a China,
40%. Não existe na história do capitalismo país
que tenha crescido sustentadamente com poupança interna menor
que 25% do PIB. Um trabalho recente feito pelo economista Fernando
Montero, da consultoria Tendências, mostra que para crescer
saudavelmente a 3,5% ao ano o Brasil teria de atingir uma poupança
interna de no mínimo 22%.
Quem não tem poupança interna caça com crédito.
Mas no Brasil isso não é possível. O juro básico
real está em 10,9%. Ele é calculado subtraindo-se
do juro nominal definido pelo Banco Central, a chamada taxa Selic,
a inflação anualizada. Feita essa conta, tem-se que
no Brasil as empresas operam com o juro real mais alto do mundo
e uma das mais elevadas cargas de impostos. "Essa situação
inibe o setor privado, desestimula a economia, gera menos emprego,
evita o crescimento e desenvolvimento do cidadão e da sociedade",
diz o advogado tributarista Rogério Gandra da Silva Martins.
O economista espanhol Guillermo de La Dehensa, que integrou a equipe
ministerial do socialista Felipe González, lembra que a Espanha
enfrentou desafio semelhante ao brasileiro nos anos 70 e 80. "Não
existe solução fácil nesse campo. O mínimo
que se pode fazer quando é impossível cortar gastos
é gastar com eficiência em educação e
saúde. Mas o impulso correto é mesmo cortar", afirma
La Dehensa. O economista também alerta para a impossibilidade
de obter resultados a curto prazo. Diz La Dehensa: "Feliz do país
que não tem solução de continuidade entre um
governo e o seguinte e consegue manter suas políticas estabilizadoras
por pelo menos duas gerações. Essa é a única
saída para diminuir o apetite do Estado por mais e mais impostos".
O governo começa a admitir que a carga tributária
é alta demais. "Estamos no limite", diz Jorge Rachid, secretário
da Receita Federal. Quando tomou posse, o ministro da Fazenda, Antonio
Palocci, assumiu o compromisso de não aumentar a carga acima
do nível que o PT herdou do governo anterior ou seja,
36,5% do PIB. "Eu mesmo já ouvi isso dele várias vezes",
conta Rachid. De acordo com esse compromisso, o limite do governo
seria manter a mesma carga. Já empossado, Lula fez a mesma
promessa. Talvez por isso o governo se recuse a admitir que a carga
ultrapassará esse patamar neste ano e jura que ela
se manterá estável em 2004. "Minha vida ficaria muito
mais fácil se a carga tributária fosse mesmo de 40%
do PIB ou mais. Mas acho que ela continuará difícil",
garante Bernard Appy, secretário executivo do Ministério
da Fazenda. A vida da sociedade brasileira, certamente, continuará
ainda mais difícil do que a do secretário Appy. Ela
só vai melhorar quando o governo não precisar a cada
ano de mais dinheiro. Quando isso irá ocorrer, ninguém
sabe dizer. Sucessivos governos brasileiros agem como náufragos
quando se toca nesse ponto. Eles pensam apenas na sobrevivência
imediata. "Diminuir a carga agora não é factível.
É um objetivo de longo prazo", diz Bernard Appy. "As coisas
vão melhorar com a reforma da Previdência que
vai desonerar o Estado e com uma reforma administrativa,
mas a redução da carga tributária para níveis
considerados razoáveis, entre 20% e 25% do PIB, vai demorar
mais de quinze anos", concorda o ex-ministro Mailson da Nóbrega.
Em um ambiente econômico assim, crescer é um desafio
complicado.
|