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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
O avanço da nau
dos insensatos
Bush triunfa num país envenenado
pela religião da intolerância e
pela
moral da incongruência
Na quarta-feira, dia seguinte à vitória
de George W. Bush na eleição americana, a Bolsa de
Nova York fechou em alta, com destaque para a valorização
das ações das indústrias farmacêutica
e armamentista. Compreende-se. A vitória de Bush é
garantia de mais guerras. Se haverá mais guerras, mais armas
serão comercializadas. Se mais armas serão comercializadas,
haverá mais violência. Com mais violência, haverá
mais ferimentos e mais doenças. E se haverá mais ferimentos
e doenças, mais remédios serão necessários.
Sinal verde, nos próximos quatro anos, para a indústria
da destruição e da doença. E no entanto...
No entanto, as análises são quase unânimes em
concluir que o fator decisivo, para a vitória de Bush, foram
as "questões morais"!
(Retrato da América em tempos sombrios.
Em fevereiro último, o vôo 34 da American Airlines
acabara de decolar de Los Angeles, rumo a Nova York, quando o comandante
Roger Findiesen tomou a palavra. Quem esperava as habituais informações
sobre a velocidade, altitude ou a rota a seguir se enganou. O piloto
instou os passageiros a uma afirmação de fé,
levantando os braços em honra a Jesus Cristo. Também
pediu aos cristãos presentes que conversassem sobre as maravilhas
da fé com o eventual descrente sentado ao lado.)
As "questões morais" que estavam em
jogo na eleição, alardeadas à exaustão
durante a campanha, traduzem-se pela tríade aborto/casamento
gay/pesquisa de células-tronco. Bush opõe-se aos três.
Por isso, é considerado um baluarte dos "valores tradicionais",
e mereceu a confiança da população. Alguns
eleitores elevam à condição de "moral" também
o combate ao terrorismo e a guerra ao Iraque. Os 36% que, segundo
pesquisa da rede ABC de televisão, disseram ter votado em
Bush motivados por "questões morais" incluem tais itens na
cesta da moralidade. E no entanto... Mentir a respeito de armas
de destruição em massa para justificar a guerra contra
o Iraque, isso não é imoral. Produzir 100.000
mortos no Iraque, na maioria mulheres e crianças, segundo
recente levantamento de instituições acadêmicas
americanas, não é imoral.
(Retrato da América em tempos sombrios.
Um DVD lançado na convenção republicana, com
o título Faith in the White House, "Fé na Casa
Branca", anunciado como resposta ao Fahrenheit 11 de Setembro
de Michael Moore, mostra a transformação de Bush,
da vida dissipada da juventude à ardente religiosidade da
maturidade. Numa das cenas a tela se divide para mostrar, triunfalmente,
de um lado Bush e do outro Jesus. Noutra cena Bush, interpretado
por um ator, reage com indignação aos avanços
de uma colega de trabalho, ao tempo em que trabalhava para o pai.
"Sou um homem casado", diz.)
Nunca antes a piedosa América que votou
em Bush tinha obtido vitória tão nítida. À
confirmação do mandato do presidente e ao endosso
de suas políticas soma-se a maioria nas duas casas do Congresso,
onde despontam tipos tão religiosos e "morais" quanto o titular
da Casa Branca. A vitória ocorreu desta vez sem fraudes ou
o recurso a benevolentes instâncias judiciais. E no entanto...
Sobrou do outro lado a sensação de que foi perpetrada
fraude maior que todas o seqüestro da própria identidade
do país. O colunista Thomas Friedman, do New York Times,
lamentou que a eleição tenha sido vencida, não
por gente a favor de projetos diferentes dos dele mas de um tipo
de América diferente: "Nós não discordamos
em torno do que a América deveria fazer; discordamos em torno
do que a América é".
(Retrato da América etc... O general
William Boykin, um dos vice-secretários da Defesa, fez campanha
nas igrejas, pregando que Bush tinha sido escolhido por Jesus para
presidir os EUA e identificando o inimigo com Satanás. Uma
vez, contou a história de um rebelde da Somália que
alardeava na TV ter Alá a seu lado. O rebelde acabou capturado.
Boykin concluía: "Eu sabia que meu Deus era maior que o dele.
Sabia que o meu era o Deus verdadeiro, e o dele um ídolo".)
Oitenta e três por cento dos americanos,
segundo sondagem do ano passado, acreditam que Jesus nasceu de uma
virgem, e 28% crêem na teoria da evolução. Cinqüenta
e oito por cento acham que só acreditando em Deus se pode
ter senso moral. No entanto... A maioria é também
a favor da pena de morte e do direito a portar uma arma. Esmagadoras
maiorias derrotaram, em plebiscitos realizados em onze Estados,
em paralelo à eleição presidencial, o casamento
entre homossexuais. E no entanto... Na festa da vitória,
o reeleito vice-presidente Dick Chenney apresentou-se ao palco com
toda a família, o que inclui a filha lésbica e a companheira
dela, que se veste como um hominho e com a qual só acredita
que ela não está casada quem dá imerecido valor
à mera formalidade do papel. Ó América da incongruência,
América da moral desatinada e da religiosidade perversa,
que ceva a intolerância e a mesquinhez de espírito!
A nau dos insensatos ganhou mais quatro anos para avançar.
Salve-se quem puder.
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