Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O avanço da nau
dos insensatos

Bush triunfa num país envenenado
pela religião da intolerância
e pela
moral da incongruência

Na quarta-feira, dia seguinte à vitória de George W. Bush na eleição americana, a Bolsa de Nova York fechou em alta, com destaque para a valorização das ações das indústrias farmacêutica e armamentista. Compreende-se. A vitória de Bush é garantia de mais guerras. Se haverá mais guerras, mais armas serão comercializadas. Se mais armas serão comercializadas, haverá mais violência. Com mais violência, haverá mais ferimentos e mais doenças. E se haverá mais ferimentos e doenças, mais remédios serão necessários. Sinal verde, nos próximos quatro anos, para a indústria da destruição e da doença. E no entanto... No entanto, as análises são quase unânimes em concluir que o fator decisivo, para a vitória de Bush, foram as "questões morais"!

(Retrato da América em tempos sombrios. Em fevereiro último, o vôo 34 da American Airlines acabara de decolar de Los Angeles, rumo a Nova York, quando o comandante Roger Findiesen tomou a palavra. Quem esperava as habituais informações sobre a velocidade, altitude ou a rota a seguir se enganou. O piloto instou os passageiros a uma afirmação de fé, levantando os braços em honra a Jesus Cristo. Também pediu aos cristãos presentes que conversassem sobre as maravilhas da fé com o eventual descrente sentado ao lado.)

As "questões morais" que estavam em jogo na eleição, alardeadas à exaustão durante a campanha, traduzem-se pela tríade aborto/casamento gay/pesquisa de células-tronco. Bush opõe-se aos três. Por isso, é considerado um baluarte dos "valores tradicionais", e mereceu a confiança da população. Alguns eleitores elevam à condição de "moral" também o combate ao terrorismo e a guerra ao Iraque. Os 36% que, segundo pesquisa da rede ABC de televisão, disseram ter votado em Bush motivados por "questões morais" incluem tais itens na cesta da moralidade. E no entanto... Mentir a respeito de armas de destruição em massa para justificar a guerra contra o Iraque, isso não é imoral. Produzir 100.000 mortos no Iraque, na maioria mulheres e crianças, segundo recente levantamento de instituições acadêmicas americanas, não é imoral.

(Retrato da América em tempos sombrios. Um DVD lançado na convenção republicana, com o título Faith in the White House, "Fé na Casa Branca", anunciado como resposta ao Fahrenheit 11 de Setembro de Michael Moore, mostra a transformação de Bush, da vida dissipada da juventude à ardente religiosidade da maturidade. Numa das cenas a tela se divide para mostrar, triunfalmente, de um lado Bush e do outro Jesus. Noutra cena Bush, interpretado por um ator, reage com indignação aos avanços de uma colega de trabalho, ao tempo em que trabalhava para o pai. "Sou um homem casado", diz.)

Nunca antes a piedosa América que votou em Bush tinha obtido vitória tão nítida. À confirmação do mandato do presidente e ao endosso de suas políticas soma-se a maioria nas duas casas do Congresso, onde despontam tipos tão religiosos e "morais" quanto o titular da Casa Branca. A vitória ocorreu desta vez sem fraudes ou o recurso a benevolentes instâncias judiciais. E no entanto... Sobrou do outro lado a sensação de que foi perpetrada fraude maior que todas – o seqüestro da própria identidade do país. O colunista Thomas Friedman, do New York Times, lamentou que a eleição tenha sido vencida, não por gente a favor de projetos diferentes dos dele – mas de um tipo de América diferente: "Nós não discordamos em torno do que a América deveria fazer; discordamos em torno do que a América é".

(Retrato da América etc... O general William Boykin, um dos vice-secretários da Defesa, fez campanha nas igrejas, pregando que Bush tinha sido escolhido por Jesus para presidir os EUA e identificando o inimigo com Satanás. Uma vez, contou a história de um rebelde da Somália que alardeava na TV ter Alá a seu lado. O rebelde acabou capturado. Boykin concluía: "Eu sabia que meu Deus era maior que o dele. Sabia que o meu era o Deus verdadeiro, e o dele um ídolo".)

Oitenta e três por cento dos americanos, segundo sondagem do ano passado, acreditam que Jesus nasceu de uma virgem, e 28% crêem na teoria da evolução. Cinqüenta e oito por cento acham que só acreditando em Deus se pode ter senso moral. No entanto... A maioria é também a favor da pena de morte e do direito a portar uma arma. Esmagadoras maiorias derrotaram, em plebiscitos realizados em onze Estados, em paralelo à eleição presidencial, o casamento entre homossexuais. E no entanto... Na festa da vitória, o reeleito vice-presidente Dick Chenney apresentou-se ao palco com toda a família, o que inclui a filha lésbica e a companheira dela, que se veste como um hominho e com a qual só acredita que ela não está casada quem dá imerecido valor à mera formalidade do papel. Ó América da incongruência, América da moral desatinada e da religiosidade perversa, que ceva a intolerância e a mesquinhez de espírito! A nau dos insensatos ganhou mais quatro anos para avançar. Salve-se quem puder.

 
 
 
 
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