Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Livros
O antropófago anêmico

Convertido em teórico da "brasilidade",
Oswald de Andrade não tem essa
consistência toda


Jerônimo Teixeira


MIS
Oswald de Andrade: quem ainda agüenta mais uma releitura?
NESTA REPORTAGEM
Quadro: Flechadas fora do alvo

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Trechos do livro


A cultura brasileira às vezes parece estacionada em 1922, ano da Semana de Arte Moderna de São Paulo. Seus dois nomes fundamentais – Mário e Oswald de Andrade – têm sido encampados por grupos distintos como teóricos da nacionalidade literária. Com uma personalidade mais comedida, Mário é o preferido da academia. Da poesia concreta à tropicália, Oswald tornou-se o patrono dos vanguardistas. Os dois Andrade têm passado por ciclos de releitura, revisão, redescoberta – nos quais dificilmente vem à tona algo de novo. A prova é o lançamento de Feira das Sextas (Globo; 200 páginas; 32 reais), crônicas de Oswald publicadas em jornais nos anos 1940. São textos de ocasião anteriormente inéditos em livro porque o próprio Oswald não os julgou dignos de figurar na coletânea Ponta de Lança, que reúne seus artigos mais expressivos.

Mesmo a tribo dos defensores de Oswald ficará desapontada ao constatar que a palavra mágica de seu xamã modernista – antropofagia – aparece pouco em Feira das Sextas. O paulistano Oswald de Andrade (1890-1954) lançou a idéia no provocativo Manifesto Antropófago, de 1928. O índio que devora o colonizador tornou-se o emblema do artista brasileiro que deglute as influências européias. Oswald acreditava que o alcance da idéia extrapolava o campo artístico. Transformou-a em uma espécie de ideário político na tese "A crise da filosofia messiânica", com a qual tentou conquistar uma cadeira de filosofia na Universidade de São Paulo, em 1950. Como uma espécie de Marx de cocar, Oswald anunciou uma futura sociedade matriarcal libertada pela tecnologia (veja quadro). Os ensaios de Oswald, aliás, são citados pelo crítico Luiz Costa Lima como exemplo da precariedade do sistema intelectual brasileiro. O poeta antropófago seria o fruto típico de uma cultura que privilegia mais a frase sedutora do que o argumento bem amarrado.

Em meio à condescendente troca de tapinhas nas costas que caracteriza boa parte da vida literária brasileira, Oswald se destaca como uma exceção furiosa. Estava sempre pronto a sacrificar uma amizade pelo bem da polêmica – rompeu inclusive com Mário de Andrade. Sua obra, porém, nem de longe foi tão inovadora quanto faz crer sua fama de incendiário. Basta aproximar os romances Memórias Sentimentais de João Miramar (que também está sendo relançado) e Serafim Ponte Grande do contemporâneo Ulisses, do irlandês James Joyce, para perceber o contrário daquilo que o concretista Haroldo de Campos afirmou ao fazer essa comparação maluca: Oswald, na verdade, suporta muito mal a confrontação com o modernismo europeu que pretendia deglutir. O escritor antropófago é sobretudo um tampão para o orgulho literário nacional: faz as vezes de um poeta de vanguarda que não chegou a existir por aqui.

 
 
 
 
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