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Livros
O antropófago anêmico
Convertido em teórico da "brasilidade",
Oswald de Andrade não tem essa
consistência toda

Jerônimo Teixeira
MIS
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| Oswald de Andrade: quem ainda agüenta
mais uma releitura? |
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A cultura brasileira às vezes parece estacionada em 1922,
ano da Semana de Arte Moderna de São Paulo. Seus dois nomes
fundamentais Mário e Oswald de Andrade têm
sido encampados por grupos distintos como teóricos da nacionalidade
literária. Com uma personalidade mais comedida, Mário
é o preferido da academia. Da poesia concreta à tropicália,
Oswald tornou-se o patrono dos vanguardistas. Os dois Andrade têm
passado por ciclos de releitura, revisão, redescoberta
nos quais dificilmente vem à tona algo de novo. A prova é
o lançamento de Feira das Sextas (Globo; 200
páginas; 32 reais), crônicas de Oswald publicadas em
jornais nos anos 1940. São textos de ocasião anteriormente
inéditos em livro porque o próprio Oswald não
os julgou dignos de figurar na coletânea Ponta de Lança,
que reúne seus artigos mais expressivos.
Mesmo a tribo dos defensores de Oswald ficará
desapontada ao constatar que a palavra mágica de seu xamã
modernista antropofagia aparece pouco em Feira
das Sextas. O paulistano Oswald de Andrade (1890-1954) lançou
a idéia no provocativo Manifesto Antropófago, de
1928. O índio que devora o colonizador tornou-se o emblema
do artista brasileiro que deglute as influências européias.
Oswald acreditava que o alcance da idéia extrapolava o campo
artístico. Transformou-a em uma espécie de ideário
político na tese "A crise da filosofia messiânica",
com a qual tentou conquistar uma cadeira de filosofia na Universidade
de São Paulo, em 1950. Como uma espécie de Marx de
cocar, Oswald anunciou uma futura sociedade matriarcal libertada
pela tecnologia (veja quadro). Os ensaios de Oswald, aliás,
são citados pelo crítico Luiz Costa Lima como exemplo
da precariedade do sistema intelectual brasileiro. O poeta antropófago
seria o fruto típico de uma cultura que privilegia mais a
frase sedutora do que o argumento bem amarrado.
Em meio à condescendente troca de tapinhas
nas costas que caracteriza boa parte da vida literária brasileira,
Oswald se destaca como uma exceção furiosa. Estava
sempre pronto a sacrificar uma amizade pelo bem da polêmica
rompeu inclusive com Mário de Andrade. Sua obra, porém,
nem de longe foi tão inovadora quanto faz crer sua fama de
incendiário. Basta aproximar os romances Memórias
Sentimentais de João Miramar (que também está
sendo relançado) e Serafim Ponte Grande do contemporâneo
Ulisses, do irlandês James Joyce, para perceber o contrário
daquilo que o concretista Haroldo de Campos afirmou ao fazer essa
comparação maluca: Oswald, na verdade, suporta muito
mal a confrontação com o modernismo europeu que pretendia
deglutir. O escritor antropófago é sobretudo um tampão
para o orgulho literário nacional: faz as vezes de um poeta
de vanguarda que não chegou a existir por aqui.
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