Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Livros
Vovô best-seller

Com seus dramas rasgados, Sidney
Sheldon já vendeu 300 milhões de livros


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Primeiro capítulo do livro

O escritor americano Sidney Sheldon é um avô coruja. Derrete-se especialmente pela neta mais jovem, Rebecca, de 9 anos. A menina está na escola primária, mas, segundo Sheldon, apresentou recentemente à professora uma redação com nada menos do que oitenta páginas. "Os professores ficaram muito impressionados. As outras crianças escreveram histórias de quatro, cinco páginas. Eu li o texto de Rebecca – e era maravilhoso", garantiu o romancista em entrevista a VEJA. A prolixa Rebecca tem a quem puxar. Aos 87 anos, traduzido para 51 línguas e publicado em 180 países, Sidney Sheldon representa a velha-guarda no mercado de best-sellers. Vendeu mais de 300 milhões de exemplares no mundo todo – e nesse número ainda não está computado seu mais recente romance, Quem Tem Medo de Escuro?, que no Brasil já atingiu a marca de 94.000 exemplares e está há oito semanas na lista de mais vendidos de VEJA. Qualquer livro que traga o nome de Sheldon na capa está fadado a vender como pão quente. Seus romances, aliás, são um produto tão conservador quanto o proverbial pãozinho. A receita nunca muda (veja quadro). Quem Tem Medo de Escuro? é um falso thriller no qual o autor faz de conta que está discutindo o atualíssimo problema do superaquecimento global. Na verdade, é o mesmo folhetim de sempre, protagonizado pelas mulheres lindas e sofredoras que são sua marca registrada. O próximo livro, porém, deverá representar uma mudança de gênero: Sheldon está escrevendo sua primeira obra de não-ficção, um livro de memórias intitulado O Outro Lado de Mim. "Minha autobiografia vai surpreender muita gente", promete ele.

Sheldon foi um roteirista de sucesso no cinema – ganhou até um Oscar, em 1948, pelo filme Solteirão Cobiçado, estrelado por Cary Grant. Também se destacou como criador de séries conhecidas da televisão, como Jeannie É um Gênio e Casal 20. A autobiografia de um personagem como esse tem realmente o potencial de trazer surpresas. Sheldon, porém, não mostra disposição de colocar ninguém na fogueira. "Muita gente acha que os astros de cinema são difíceis e temperamentais. Mas eu nunca tive problemas com nenhum dos astros com quem convivi", diz. Hollywood sempre foi terra de estrelas achacadas e chefões irados, mas, na versão de Sheldon, ela era muito gentil. O ator e dançarino Fred Astaire pediu ao roteirista que modificasse suas falas no filme Desfile de Páscoa porque achava que estava soando muito áspero em um diálogo com a mocinha. Sheldon tentou argumentar que era o personagem, e não o próprio Astaire, quem se mostrava rude. O ator concordou – mas mesmo assim exigiu que Sheldon modificasse o diálogo. Com muita gentileza, é claro.

Nos anos 70, Sheldon pulou dos bastidores do cinema para a capa dos livros. O sucesso veio com o segundo romance, O Outro Lado da Meia-Noite, de 1974. O escritor já não estava sob as suaves imposições dos astros de Hollywood. Pelo contrário, ganhou direitos de controle sobre qualquer adaptação que fosse feita de seus livros. E conquistou uma notoriedade que roteiristas de cinema dificilmente alcançam. "Recebo cartas comoventes de leitores de todo o mundo. E isso é mais importante do que o dinheiro", diz. As cartas que se fixaram na memória de Sheldon têm um toque dramático que não é estranho a seus romances. Uma leitora contou que sua filha, vítima de uma doença terminal, pediu que trouxessem todos os livros de Sheldon para a cabeceira de seu leito de morte – e foi desta para melhor cercada por essa doce literatura.

O apelo da literatura de Sheldon é maior entre as mulheres. "Meu editor fez uma pesquisa e descobriu que elas representam 60% de meus leitores", conta o autor. Sheldon especula que os homens, os outros 40% de seu público, buscam seus livros "pela aventura". As mulheres se identificariam com as heroínas criadas pelo americano. "Gosto de mulheres fortes. Mas é importante que elas retenham a feminilidade. Algumas mulheres se tornam tão fortes que quase podiam ser homens", diz. A descendência do escritor é, por acaso, toda feminina. Sua filha única, Mary Sheldon, tem livros publicados no Brasil pela mesma editora do pai, a Record. A neta mais velha, Lizy Dastin, estreou na literatura com apenas 16 anos. E ainda temos Rebecca, a menina prodígio, para garantir a continuidade do clã. Sidney Sheldon, porém, não se mostra tão seguro quando o tema é a perenidade de sua própria obra: "Enquanto estiver vivo, vou divertindo as pessoas. Acho que meu trabalho vai durar com certeza até o próximo sábado. Depois disso, não sei".

 

A fórmula dos milhões

Dicas para escrever um romance à la Sidney Sheldon

1. Use uma mulher forte como personagem principal. Faça com que ela sofra toda sorte de injustiças e humilhações – afinal, de que outra forma ela pode mostrar que é forte?

2. O enredo é secundário: resume-se à luta da tal mulher forte por justiça (ou vingança: o vilão deve ser castigado). Tenha em mente que justiça não é justiça sem compensação financeira. A heroína deve chegar às últimas páginas montada no dinheiro

3. Os heróis são modelos de virtude, os vilões não prestam. Qualquer meio-tom atrapalha

4. Use cenários conhecidos em cidades conhecidas. Se um personagem estiver em Paris, faça com que ele visite a Torre Eiffel

5. Risque a palavra verossimilhança do vocabulário. Em seu romance mais recente, Quem Tem Medo de Escuro?, Sheldon criou um cientista perverso que usa uma máquina de alterar o clima para chantagear o presidente de Portugal

 

 
 
 
 
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