|
|
Livros
Vovô best-seller
Com seus dramas rasgados, Sidney
Sheldon já vendeu 300 milhões de livros

Jerônimo Teixeira
O escritor americano Sidney Sheldon é
um avô coruja. Derrete-se especialmente pela neta mais jovem,
Rebecca, de 9 anos. A menina está na escola primária,
mas, segundo Sheldon, apresentou recentemente à professora
uma redação com nada menos do que oitenta páginas.
"Os professores ficaram muito impressionados. As outras crianças
escreveram histórias de quatro, cinco páginas. Eu
li o texto de Rebecca e era maravilhoso", garantiu o romancista
em entrevista a VEJA. A prolixa Rebecca tem a quem puxar. Aos 87
anos, traduzido para 51 línguas e publicado em 180 países,
Sidney Sheldon representa a velha-guarda no mercado de best-sellers.
Vendeu mais de 300 milhões de exemplares no mundo todo
e nesse número ainda não está computado seu
mais recente romance, Quem Tem Medo de Escuro?, que no Brasil
já atingiu a marca de 94.000 exemplares
e está há oito semanas na lista de mais vendidos de
VEJA. Qualquer livro que traga o nome de Sheldon na capa está
fadado a vender como pão quente. Seus romances, aliás,
são um produto tão conservador quanto o proverbial
pãozinho. A receita nunca muda (veja
quadro). Quem Tem Medo de Escuro? é
um falso thriller no qual o autor faz de conta que está discutindo
o atualíssimo problema do superaquecimento global. Na verdade,
é o mesmo folhetim de sempre, protagonizado pelas mulheres
lindas e sofredoras que são sua marca registrada. O próximo
livro, porém, deverá representar uma mudança
de gênero: Sheldon está escrevendo sua primeira obra
de não-ficção, um livro de memórias
intitulado O Outro Lado de Mim. "Minha autobiografia vai
surpreender muita gente", promete ele.
Sheldon foi um roteirista de sucesso no cinema
ganhou até um Oscar, em 1948, pelo filme Solteirão
Cobiçado, estrelado por Cary Grant. Também se
destacou como criador de séries conhecidas da televisão,
como Jeannie É um Gênio e Casal 20. A
autobiografia de um personagem como esse tem realmente o potencial
de trazer surpresas. Sheldon, porém, não mostra disposição
de colocar ninguém na fogueira. "Muita gente acha que os
astros de cinema são difíceis e temperamentais. Mas
eu nunca tive problemas com nenhum dos astros com quem convivi",
diz. Hollywood sempre foi terra de estrelas achacadas e chefões
irados, mas, na versão de Sheldon, ela era muito gentil.
O ator e dançarino Fred Astaire pediu ao roteirista que modificasse
suas falas no filme Desfile de Páscoa porque achava
que estava soando muito áspero em um diálogo com a
mocinha. Sheldon tentou argumentar que era o personagem, e não
o próprio Astaire, quem se mostrava rude. O ator concordou
mas mesmo assim exigiu que Sheldon modificasse o diálogo.
Com muita gentileza, é claro.
Nos anos 70, Sheldon pulou dos bastidores
do cinema para a capa dos livros. O sucesso veio com o segundo romance,
O Outro Lado da Meia-Noite, de 1974. O escritor já
não estava sob as suaves imposições dos astros
de Hollywood. Pelo contrário, ganhou direitos de controle
sobre qualquer adaptação que fosse feita de seus livros.
E conquistou uma notoriedade que roteiristas de cinema dificilmente
alcançam. "Recebo cartas comoventes de leitores de todo o
mundo. E isso é mais importante do que o dinheiro", diz.
As cartas que se fixaram na memória de Sheldon têm
um toque dramático que não é estranho a seus
romances. Uma leitora contou que sua filha, vítima de uma
doença terminal, pediu que trouxessem todos os livros de
Sheldon para a cabeceira de seu leito de morte e foi desta
para melhor cercada por essa doce literatura.
O apelo da literatura de Sheldon é
maior entre as mulheres. "Meu editor fez uma pesquisa e descobriu
que elas representam 60% de meus leitores", conta o autor. Sheldon
especula que os homens, os outros 40% de seu público, buscam
seus livros "pela aventura". As mulheres se identificariam com as
heroínas criadas pelo americano. "Gosto de mulheres fortes.
Mas é importante que elas retenham a feminilidade. Algumas
mulheres se tornam tão fortes que quase podiam ser homens",
diz. A descendência do escritor é, por acaso, toda
feminina. Sua filha única, Mary Sheldon, tem livros publicados
no Brasil pela mesma editora do pai, a Record. A neta mais velha,
Lizy Dastin, estreou na literatura com apenas 16 anos. E ainda temos
Rebecca, a menina prodígio, para garantir a continuidade
do clã. Sidney Sheldon, porém, não se mostra
tão seguro quando o tema é a perenidade de sua própria
obra: "Enquanto estiver vivo, vou divertindo as pessoas. Acho que
meu trabalho vai durar com certeza até o próximo sábado.
Depois disso, não sei".
|
A fórmula
dos milhões
Dicas para escrever um romance à
la Sidney Sheldon
1. Use uma mulher forte
como personagem principal. Faça com que ela sofra
toda sorte de injustiças e humilhações
afinal, de que outra forma ela pode mostrar que
é forte?
2. O enredo é secundário:
resume-se à luta da tal mulher forte por justiça
(ou vingança: o vilão deve ser castigado).
Tenha em mente que justiça não é
justiça sem compensação financeira.
A heroína deve chegar às últimas
páginas montada no dinheiro
3. Os heróis são
modelos de virtude, os vilões não prestam.
Qualquer meio-tom atrapalha
4. Use cenários conhecidos
em cidades conhecidas. Se um personagem estiver em Paris,
faça com que ele visite a Torre Eiffel
5. Risque a palavra verossimilhança
do vocabulário. Em seu romance mais recente,
Quem Tem Medo de Escuro?, Sheldon criou um cientista
perverso que usa uma máquina de alterar o clima
para chantagear o presidente de Portugal
|
|
|