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Cinema
Horário eleitoral
Sob
o Domínio do Mal usa as
armas
do inimigo
para pregar contra
o governo de George W. Bush

Isabela Boscov
Divulgação
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| Washington: é tudo um complô. E qual a novidade?
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Em Sob
o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate,
Estados Unidos, 2004), o governo americano manipula o medo do terrorismo
para manter a opinião pública sob custódia,
vice-presidentes são comprados e operados por corporações
privadas, filhos sobem ao poder teleguiados por pais poderosos e
as vozes que se levantam contra esses atentados à democracia
e aos direitos individuais são desacreditadas. Qualquer semelhança
entre o filme do diretor Jonathan Demme (em cartaz no país
a partir de sexta-feira) e a imagem corrente da administração
George W. Bush não é mera coincidência, claro
e esta refilmagem do cult homônimo de 1962 range sob
o peso de sua agenda política ao mesmo tempo histérica
e ingênua. Como no original de John Frankenheimer, aqui o
major Marco (Denzel Washington) é atormentado por estranhas
lembranças de uma operação de guerra de que
participou. De dia, ele acredita que o sargento Raymond Shaw (Liev
Schreiber) foi o herói que salvou, sozinho, todo o seu destacamento.
De noite, Marco sonha com coisas terríveis a respeito de
Shaw. A trama que ele desvenda é sinistra: Shaw foi vítima
de lavagem cerebral e com a bênção de
sua mãe (Meryl Streep), que deseja levá-lo à
Vice-Presidência e depois ao posto de chefe de Estado. Mas,
dos bastidores, ela é quem estará puxando os fios
dessa marionete. Ela e a megacorporação Manchurian
aqui, em substituição aos russos e chineses
do original.
O filme
de Frankenheimer era uma invectiva contra "ismos" diversos, e em
especial contra o maoísmo, o stalinismo e o macarthismo.
Já o filme de Demme não passa de uma peça de
campanha, tanto quanto o Fahrenheit 11 de Setembro de Michael
Moore: foi lançado no dia seguinte ao final da Convenção
do Partido Democrata que elegeu John Kerry seu candidato, com a
ambição (como já se sabe, falida) de trabalhar
contra a reeleição de Bush. O preço que Demme
paga ao trocar uma visão autoral por um programa político
é alto. De um lado, a direção e as atuações
resultam genéricas e impessoais. De outro, Demme não
só usa o recurso ao medo e às ameaças apocalípticas,
que são as armas do inimigo, como falha no seu diagnóstico.
O assustador não é tanto que haja forças empenhadas
em reprogramar os cidadãos é que tantos deles
se submetam ao procedimento voluntariamente.
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