Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Horário eleitoral

Sob o Domínio do Mal usa as armas
do inimigo
para pregar contra
o governo de George W. Bush


Isabela Boscov

Divulgação
Washington: é tudo um complô. E qual a novidade?

DA INTERNET
Trailer

Em Sob o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate, Estados Unidos, 2004), o governo americano manipula o medo do terrorismo para manter a opinião pública sob custódia, vice-presidentes são comprados e operados por corporações privadas, filhos sobem ao poder teleguiados por pais poderosos e as vozes que se levantam contra esses atentados à democracia e aos direitos individuais são desacreditadas. Qualquer semelhança entre o filme do diretor Jonathan Demme (em cartaz no país a partir de sexta-feira) e a imagem corrente da administração George W. Bush não é mera coincidência, claro – e esta refilmagem do cult homônimo de 1962 range sob o peso de sua agenda política ao mesmo tempo histérica e ingênua. Como no original de John Frankenheimer, aqui o major Marco (Denzel Washington) é atormentado por estranhas lembranças de uma operação de guerra de que participou. De dia, ele acredita que o sargento Raymond Shaw (Liev Schreiber) foi o herói que salvou, sozinho, todo o seu destacamento. De noite, Marco sonha com coisas terríveis a respeito de Shaw. A trama que ele desvenda é sinistra: Shaw foi vítima de lavagem cerebral – e com a bênção de sua mãe (Meryl Streep), que deseja levá-lo à Vice-Presidência e depois ao posto de chefe de Estado. Mas, dos bastidores, ela é quem estará puxando os fios dessa marionete. Ela e a megacorporação Manchurian – aqui, em substituição aos russos e chineses do original.

O filme de Frankenheimer era uma invectiva contra "ismos" diversos, e em especial contra o maoísmo, o stalinismo e o macarthismo. Já o filme de Demme não passa de uma peça de campanha, tanto quanto o Fahrenheit 11 de Setembro de Michael Moore: foi lançado no dia seguinte ao final da Convenção do Partido Democrata que elegeu John Kerry seu candidato, com a ambição (como já se sabe, falida) de trabalhar contra a reeleição de Bush. O preço que Demme paga ao trocar uma visão autoral por um programa político é alto. De um lado, a direção e as atuações resultam genéricas e impessoais. De outro, Demme não só usa o recurso ao medo e às ameaças apocalípticas, que são as armas do inimigo, como falha no seu diagnóstico. O assustador não é tanto que haja forças empenhadas em reprogramar os cidadãos – é que tantos deles se submetam ao procedimento voluntariamente.

 
 
 
 
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