Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Cinema
Pedro, és pedra

Com Má Educação, Almodóvar reforça
os alicerces da obra mais sólida do
moderno cinema europeu


Isabela Boscov

Twentieth Century Fox
Javier Cámara (à esq.) e Bernal: uma jornada pela biografia do diretor e da Espanha

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Se ainda era preciso mais um sinal de que Pedro Almodóvar está entre os maiores cineastas de qualquer tempo, ele se encontra em Má Educação (La Mala Educación, Espanha, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país. Quebrando uma regra na carreira do espanhol, esse é um filme nascido de um assunto do momento: padres que abusam sexualmente de menores. Nos anos 60, no colégio de um povoado interiorano, Ignacio é um menino molestado pelo diretor, o padre Manolo, contra cujos avanços ele é naturalmente indefeso. O tema cheira a denúncia e sensacionalismo, ainda mais em vista das recentes notícias de episódios semelhantes em todo o mundo. Sem desnaturá-lo, porém, Almodóvar o transforma numa jornada desorientadora por sua própria biografia e pela dos demais espanhóis, do tacão franquista aos dias de hoje. Desorientadora porque, logo de início, o diretor já inverte os sinais desse escândalo – por mais hediondos que sejam os atos do padre Manolo, o fato é que ele está apaixonado por Ignacio, e disposto a queimar no inferno por esse amor. E também porque aqui há um filme dentro de outro filme, e de outro ainda: como sempre no cinema de Almodóvar, os julgamentos têm de ficar em suspenso até o último momento, quando todas as peças finalmente se encaixam – e quando a idéia de julgar já perdeu o sentido. Esse talvez seja o principal motivo por que Almodóvar se definiu como o anti-Mel Gibson, e seu filme, como o anti-A Paixão de Cristo. E nem vale a pena entrar na questão da competência.

No filme que se acredita estar vendo, Ignacio (Gael García Bernal) é reencontrado no fim dos anos 70, como um transexual que, numa passagem por sua aldeia, decide chantagear o padre Manolo (Daniel Giménez Cacho), a fim de conseguir o dinheiro necessário para completar sua metamorfose. Esse, porém, é o filme que Enrique (Fele Martínez), a paixão de infância de Ignacio, está rodando com base num roteiro que o amigo lhe entregou, e que ele próprio estrela, rebatizado com o nome artístico de Ángel. E por aí adiante: cada vez que a história chega a um ponto nevrálgico, percebe-se que há outro estrato sob ela, e que ainda será preciso cavar mais e mais até atingir sua fundação. É um roteiro magnífico, do qual Almodóvar tira interpretações extraordinárias – com destaque absoluto para o mexicano Gael – e que ele dirige com toda a força de um cineasta na sua plenitude pessoal e profissional. Que Má Educação tenha sido recebido com frieza no Festival de Cannes, em maio, leva a crer que Almodóvar tem razão quando diz que seu sucesso passou a ser visto como uma falha imperdoável. Junto com seus três filmes anteriores – Carne Trêmula, Tudo sobre Minha Mãe e Fale com Ela –, Má Educação forma um dos conjuntos mais sólidos já construídos por um cineasta. E também dos mais corajosos: embora sejam falsos os rumores de que o diretor foi assediado pelos padres de sua escola, aqui há mais ainda de autobiográfico do que é costume em sua obra, especialmente no que diz respeito ao preço que acompanha o prazer e a libertação.

Não há muita dúvida, claro, de que Enrique é o alter ego de Almodóvar. Ou, mais especificamente, seu embrião, enquanto os outros personagens correspondem a versões hipotéticas de um Almodóvar que não tivesse seguido o caminho que se conhece: o homossexual enrustido, que na impossibilidade de se revelar destrói mulher, filho e amantes; o artista que se autodestrói, antes mesmo que sua criação possa florescer; e o artista tornado oportunista. Sua paixão pelo cinema, afirma e reitera Almodóvar, é sua salvação. Mas, sob esse viés pessoal de Má Educação, o diretor fala de um assunto bem mais abrangente. O padre, o travesti, o ator e o cineasta coexistem também como as Espanhas diversas: a Espanha oprimida e reprimida do franquismo, a do desbunde deflagrado no fim dos anos 70, o país conformista, pragmático e ambicioso da década passada e a Espanha que o próprio Almodóvar representa e ajudou a criar – a da efervescência e irreverência, capaz de dar a volta por cima à ditadura de Franco, aos abusos da Igreja, aos excessos da Movida e ao choque do ingresso na União Européia, para ressurgir sempre com uma identidade inconfundível e um vigor renovado.

 

"A câmera ama Gael"

Reuters
Almodóvar: atores fotogênicos e confusão nas eleições gerais

POR QUE O SENHOR ESCOLHEU O MEXICANO GAEL GARCIA BERNAL PARA INTERPRETAR UM PERSONAGEM TÃO ESPANHOL QUANTO O IGNACIO DE MA EDUCAÇÃO?
Além de ser muito talentoso, Gael é baixinho, e fica mais fácil transformá-lo. Um sujeito espadaúdo com roupas femininas sempre pode parecer grotesco. Fiz testes com dezenas de espanhóis, mas ele foi o único ator que se mostrou igualmente desejável como homem e como mulher. Ele é como Javier Bardem: não importa se está gordo ou magro, com ou sem olheiras, a câmera continua enamorada dele. Ambos são excepcionalmente fotogênicos. E tenho certeza de que Gael vai ser um astro ainda maior do que já se tornou. Tenho essa sorte: muitos dos atores com quem trabalhei estouraram. E, quem sabe, eu dê um pouco de sorte a eles também com meus filmes.

COMO FOI TRATAR DE SUAS LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA NUM FILME?
Todos os filmes que fiz, foi porque precisava fazê-los. Mas, no caso de Má Educação, essa necessidade parecia ainda maior. Se eu tivesse rodado o filme quinze ou vinte anos atrás, contudo, ele seria um ato de vingança. Nessa altura da minha vida, terminá-lo foi uma liberação.
 

O SENHOR SEMPRE SE MANTEVE DISTANTE DA POLÍTICA. MAS, DURANTE AS ELEIÇÕES DE MARÇO NA ESPANHA, O PARTIDO POPULAR DE JOSÉ MARÍA AZNAR, O CANDIDATO DERROTADO, CHEGOU A PEDIR SUA PRISÃO. O QUE ACONTECEU?
Os atentados de Madri ocorreram numa quinta-feira, e no domingo votaríamos num primeiro-ministro. Durante uma das muitas manifestações que aconteceram nos dias seguintes, indaguei se o Partido Popular não estaria propositalmente atribuindo a tragédia aos terroristas bascos e escondendo os indícios de que os autores das bombas eram muçulmanos – porque essas eram as notícias que nos chegavam do exterior. Fui acusado de calúnia, quando estava fazendo uma pergunta legítima.

Wladimir Weltman

 

 
 
 
 
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