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Cinema
Pedro, és pedra
Com
Má Educação, Almodóvar reforça
os alicerces da obra mais sólida do
moderno cinema europeu

Isabela Boscov
Twentieth Century Fox
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| Javier Cámara (à esq.) e Bernal: uma
jornada pela biografia do diretor e da Espanha |
Se ainda
era preciso mais um sinal de que Pedro Almodóvar está
entre os maiores cineastas de qualquer tempo, ele se encontra em
Má Educação (La Mala Educación,
Espanha, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país.
Quebrando uma regra na carreira do espanhol, esse é um filme
nascido de um assunto do momento: padres que abusam sexualmente
de menores. Nos anos 60, no colégio de um povoado interiorano,
Ignacio é um menino molestado pelo diretor, o padre Manolo,
contra cujos avanços ele é naturalmente indefeso.
O tema cheira a denúncia e sensacionalismo, ainda mais em
vista das recentes notícias de episódios semelhantes
em todo o mundo. Sem desnaturá-lo, porém, Almodóvar
o transforma numa jornada desorientadora por sua própria
biografia e pela dos demais espanhóis, do tacão franquista
aos dias de hoje. Desorientadora porque, logo de início,
o diretor já inverte os sinais desse escândalo
por mais hediondos que sejam os atos do padre Manolo, o fato é
que ele está apaixonado por Ignacio, e disposto a queimar
no inferno por esse amor. E também porque aqui há
um filme dentro de outro filme, e de outro ainda: como sempre no
cinema de Almodóvar, os julgamentos têm de ficar em
suspenso até o último momento, quando todas as peças
finalmente se encaixam e quando a idéia de julgar
já perdeu o sentido. Esse talvez seja o principal motivo
por que Almodóvar se definiu como o anti-Mel Gibson, e seu
filme, como o anti-A Paixão de Cristo. E nem vale
a pena entrar na questão da competência.
No filme
que se acredita estar vendo, Ignacio (Gael García Bernal)
é reencontrado no fim dos anos 70, como um transexual que,
numa passagem por sua aldeia, decide chantagear o padre Manolo (Daniel
Giménez Cacho), a fim de conseguir o dinheiro necessário
para completar sua metamorfose. Esse, porém, é o filme
que Enrique (Fele Martínez), a paixão de infância
de Ignacio, está rodando com base num roteiro que o amigo
lhe entregou, e que ele próprio estrela, rebatizado com o
nome artístico de Ángel. E por aí adiante:
cada vez que a história chega a um ponto nevrálgico,
percebe-se que há outro estrato sob ela, e que ainda será
preciso cavar mais e mais até atingir sua fundação.
É um roteiro magnífico, do qual Almodóvar tira
interpretações extraordinárias com destaque
absoluto para o mexicano Gael e que ele dirige com toda a
força de um cineasta na sua plenitude pessoal e profissional.
Que Má Educação tenha sido recebido
com frieza no Festival de Cannes, em maio, leva a crer que Almodóvar
tem razão quando diz que seu sucesso passou a ser visto como
uma falha imperdoável. Junto com seus três filmes anteriores
Carne Trêmula, Tudo sobre Minha Mãe e
Fale com Ela , Má Educação
forma um dos conjuntos mais sólidos já construídos
por um cineasta. E também dos mais corajosos: embora sejam
falsos os rumores de que o diretor foi assediado pelos padres de
sua escola, aqui há mais ainda de autobiográfico do
que é costume em sua obra, especialmente no que diz respeito
ao preço que acompanha o prazer e a libertação.
Não
há muita dúvida, claro, de que Enrique é o
alter ego de Almodóvar. Ou, mais especificamente, seu embrião,
enquanto os outros personagens correspondem a versões hipotéticas
de um Almodóvar que não tivesse seguido o caminho
que se conhece: o homossexual enrustido, que na impossibilidade
de se revelar destrói mulher, filho e amantes; o artista
que se autodestrói, antes mesmo que sua criação
possa florescer; e o artista tornado oportunista. Sua paixão
pelo cinema, afirma e reitera Almodóvar, é sua salvação.
Mas, sob esse viés pessoal de Má Educação,
o diretor fala de um assunto bem mais abrangente. O padre, o travesti,
o ator e o cineasta coexistem também como as Espanhas diversas:
a Espanha oprimida e reprimida do franquismo, a do desbunde deflagrado
no fim dos anos 70, o país conformista, pragmático
e ambicioso da década passada e a Espanha que o próprio
Almodóvar representa e ajudou a criar a da efervescência
e irreverência, capaz de dar a volta por cima à ditadura
de Franco, aos abusos da Igreja, aos excessos da Movida e ao choque
do ingresso na União Européia, para ressurgir sempre
com uma identidade inconfundível e um vigor renovado.
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"A
câmera ama Gael"
Reuters
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| Almodóvar: atores fotogênicos
e confusão nas eleições gerais |
POR
QUE O SENHOR ESCOLHEU O MEXICANO GAEL GARCIA BERNAL
PARA INTERPRETAR UM PERSONAGEM TÃO ESPANHOL QUANTO
O IGNACIO DE MA EDUCAÇÃO?
Além de ser muito talentoso, Gael é
baixinho, e fica mais fácil transformá-lo.
Um sujeito espadaúdo com roupas femininas sempre
pode parecer grotesco. Fiz testes com dezenas de espanhóis,
mas ele foi o único ator que se mostrou igualmente
desejável como homem e como mulher. Ele é
como Javier Bardem: não importa se está
gordo ou magro, com ou sem olheiras, a câmera
continua enamorada dele. Ambos são excepcionalmente
fotogênicos. E tenho certeza de que Gael vai ser
um astro ainda maior do que já se tornou. Tenho
essa sorte: muitos dos atores com quem trabalhei estouraram.
E, quem sabe, eu dê um pouco de sorte a eles também
com meus filmes.
COMO FOI TRATAR DE SUAS LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA
NUM FILME?
Todos os filmes que fiz, foi porque precisava fazê-los.
Mas, no caso de Má Educação,
essa necessidade parecia ainda maior. Se eu tivesse
rodado o filme quinze ou vinte anos atrás, contudo,
ele seria um ato de vingança. Nessa altura da
minha vida, terminá-lo foi uma liberação.
O SENHOR SEMPRE SE MANTEVE DISTANTE DA POLÍTICA.
MAS, DURANTE AS ELEIÇÕES DE MARÇO
NA ESPANHA, O PARTIDO POPULAR DE JOSÉ MARÍA
AZNAR, O CANDIDATO DERROTADO, CHEGOU A PEDIR SUA PRISÃO.
O QUE ACONTECEU?
Os atentados de Madri ocorreram numa quinta-feira, e
no domingo votaríamos num primeiro-ministro.
Durante uma das muitas manifestações que
aconteceram nos dias seguintes, indaguei se o Partido
Popular não estaria propositalmente atribuindo
a tragédia aos terroristas bascos e escondendo
os indícios de que os autores das bombas eram
muçulmanos porque essas eram as notícias
que nos chegavam do exterior. Fui acusado de calúnia,
quando estava fazendo uma pergunta legítima.
Wladimir Weltman
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