Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
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Roberto Pompeu de Toledo
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História
Olhar indiscreto

Livro com 400 manuscritos e autógrafos
mostra o lado humano, frágil, fútil mas
sempre curioso de personagens ilustres
de cinco séculos


Lucila Soares


Claudia Martins/Strana
Pedro Corrêa do Lago: paixão pelas revelações dos famosos e poderosos
EXCLUSIVO ON-LINE
Galeria de fotos


A história é narrada mais vivamente pelo encadeamento de uma série de acontecimentos relevantes vividos por personagens-chave. Mas ela é feita, também, dos pequenos fatos do cotidiano. Cada maneira de narrar tem seu sabor particular – e seu próprio encanto. Quando se tem ao mesmo tempo os eventos e a intimidade dos grandes personagens, a história ganha uma dimensão inigualável. Foi movido pelo fascínio de juntar essas duas pontas que o colecionador Pedro Corrêa do Lago dedicou 34 anos de seus 46 de vida a garimpar manuscritos e autógrafos. Estes últimos são documentos que valem não apenas por conter determinada assinatura, mas pelo seu conteúdo e pelo que revelam sobre o autor. Por isso são fascinantes. O resultado é uma coleção de 30.000 peças, das quais 400 foram selecionadas para compor o livro Cinco Séculos a Papel e Tinta, que está sendo lançado na Europa em inglês, francês e português.

O lançamento da obra (que, de início, estará disponível no Brasil apenas na versão portuguesa, importado, e ao custo de aproximadamente 180 reais) tem, para Corrêa do Lago, o sentido de tornar público – e, evidentemente, valorizar – um trabalho hercúleo. O autor, que atualmente dirige a Biblioteca Nacional, faz parte de um time de apaixonados por colecionar esses documentos que tem entre seus integrantes figuras tão díspares quanto o filósofo Michel de Montaigne (1533-1592), a rainha Vitória, da Inglaterra (1819-1901), o escritor austríaco Stefan Zweig, que se refugiou do nazismo e se suicidou no Brasil em 1942. A coleção de Corrêa do Lago possui uma característica que a torna especial. Diferentemente das demais grandes coleções do mundo, focadas em um tema, ou período histórico, e mesmo um autor específico, a sua é diversificada no tempo e no espaço. Aí reside sua riqueza. O conjunto tem preciosidades históricas como um manuscrito do rei Afonso IX (1171-1230), de Castela e Leão, que dominou os mouros. É o documento mais antigo da coleção e traz uma cruz à guisa de assinatura, devidamente autenticada por um notário, que atesta ser ela signum imperatoris propria manu (feita com a mão do próprio imperador). Mas, além dos exemplos selecionados para ilustrar a presente reportagem, há passagens simplesmente deliciosas. Uma delas: um bilhete da romancista francesa George Sand aos serviçais sobre a iminente chegada de seu amante, o compositor Frédéric Chopin. Outra peça notável é o bilhete do russo Leon Trotsky, exilado no México, à amante Frida Kahlo.

O valor desses papéis pode passar despercebido para um leigo, mas não escapa aos olhos treinados de um colecionador. Ele sabe identificar a riqueza de um autógrafo. O bilhete de George Sand não muda nada na biografia de Chopin, mas permite espionar de perto o cotidiano de uma famosa história de amor. O caso entre Trotsky e Frida Kahlo também é sobejamente conhecido, e o bilhete a ela dirigido não revela nada de especial sobre o romance. No entanto, ao lê-lo, percebe-se quanto era tosco o inglês do revolucionário russo, que, além do mais, se revela muito inseguro para um homem a quem os seguidores atribuíam enormes virtudes de liderança. Em um bilhete curto, Trotsky pede desculpa duas vezes – pelo inglês ruim e pelo uso de tintas diferentes. A lista de compras de Matisse não muda a história da arte. Mas revela um pintor detalhista a ponto de, para evitar erros, desenhar os pincéis que mandava comprar.

Ler esses documentos e decifrar caligrafias muitas vezes difíceis tem um indefectível sabor de voyeurismo. "Ter uma carta entre as mãos é sem dúvida o contato mais próximo que se pode estabelecer com uma pessoa há muito desaparecida", diz Corrêa do Lago. Cartas e bilhetes não são escritos normalmente visando à posteridade. Neles, o autor está completamente desarmado. Na feliz definição do historiador italiano Carlo Ginzburg, que assina o prefácio do livro, "o choque transmitido pelo autógrafo é que ele não nos deixa esquecer que, por detrás da imaterialidade do texto, há (ou houve) autênticos corpos de homens e mulheres". Corrêa do Lago descobriu cedo o prazer desse choque. Começou sua coleção aos 12 anos, com um pedido de autógrafo a Heron Domingues, o locutor do Repórter Esso. Em seguida, adotou outra tática: escrevia para celebridades pedindo uma foto autografada. Em tempos de menor exposição e assédio, conseguiu respostas a muitos desses pedidos. Entre os que responderam está o cineasta François Truffaut. Depois começou a se corresponder com outros colecionadores e com casas especializadas. O fato de ser filho de embaixador, e portanto viajar muito e morar em diversos países, facilitou sua passagem para a garimpagem in loco.

Mais de três décadas depois de iniciada, sua coleção é referência internacional, embora não seja a maior nem a mais valiosa do mundo. Não pode ser comparada à de Bill Gates. Um único manuscrito de Leonardo da Vinci, comprado pelo maior acionista da Microsoft, custou 30 milhões de dólares. Esse valor é mais de dez vezes o que pode valer no mercado a coleção inteira de Corrêa do Lago. Também fica longe de outros pesos pesados amantes de autógrafos. Alguns gastam rios de dinheiro. Foi o caso dos americanos Malcolm Forbes e Ross Perot. Eles alavancaram o mercado na década de 80 pagando fortunas por documentos ligados à história dos Estados Unidos. Um discurso de Abraham Lincoln sobre a abolição da escravatura foi adquirido, na ocasião, por 2 milhões de dólares. A peça mais cara do acervo de Corrêa do Lago é o conjunto de cartas de amor do poeta Fernando Pessoa (veja quadro), comprada há dois anos, e custou "o preço de um carro de luxo", segundo Corrêa do Lago. Mesmo que o tal carro seja um dos importados mais caros, o valor não chega a 50.000 dólares. Outro investimento pesado foi feito na aquisição de um manuscrito do pintor holandês Rubens (1577-1640), num episódio pouco conhecido de sua biografia. Além de ser um dos pintores mais prestigiados da corte holandesa, Rubens atuou como diplomata e era muito bem informado sobre as atividades de seu país. Em uma carta escrita em 1628, faz referência à invasão ao Brasil. "Os holandeses acabam de enviar uma frota muito poderosa para a Baía de Todos os Santos, para sitiar a cidade de São Salvador", relata o pintor na correspondência, que foi comprada em 1995 "pelo preço equivalente ao de um carro popular", ou seja, por cerca de 5.000 dólares.

As histórias preferidas de Corrêa do Lago, no entanto, não são as das peças caras, financiadas em boa parte com a venda de sua coleção de documentos brasileiros à Souza Cruz e de seu conjunto de fotografias do século XIX ao Instituto Moreira Salles. Ele tem, sim, um indisfarçável prazer em lembrar as pechinchas que amealhou e que formam a maior parte da coleção. É o caso da carta de Mahatma Gandhi que está na página 144 e também de uma foto autografada da cantora lírica Maria Callas, comprada por 1 dólar e que hoje poderia ser vendida tranqüilamente por 1 000 vezes esse valor. São casos que dificilmente podem se repetir no momento atual do mercado de autógrafos, que está em franca expansão – mostra disso é que as tradicionais Sotheby's e Christie's têm realizado pelo menos dez leilões de autógrafos e manuscritos por ano. São milhares os colecionadores, e eles disputam uma matéria-prima cada vez mais escassa. Mas ainda é possível comprar peças interessantes por preços razoáveis (entenda-se por razoável hoje algo na casa dos 500 dólares). A tendência desses preços é, evidentemente, subir. A disputa está ficando cada vez mais acirrada porque o manuscrito é uma espécie em extinção. Na era da informática, escritores e compositores não produzem mais as inúmeras versões corrigidas a mão que levam os colecionadores ao delírio. A correspondência entre as pessoas, famosas ou não, reduziu-se a uma volátil troca de e-mails. E ninguém imagina que, no futuro, poderá haver um mercado para cópias impressas de mensagens eletrônicas.

 

Pó-de-arroz e guilhotina

O rei da França Luís XVI (1754-1793) e a rainha Maria Antonieta (1755-1793) ficaram conhecidos por perder a cabeça e a vida na guilhotina e por dois extremos: o poder absoluto e o luxo. Os grandes bailes no Palácio de Versailles e a frase famosa da rainha ("Se não há pão, comam brioches") dariam a dimensão da alienação da corte em relação às dificuldades dos pobres. Pouco se fala do período em que ambos ficaram encerrados na Prisão do Templo à espera da execução. E é esse o grande valor do documento acima. Trata-se de uma lista de compras feita em dezembro de 1792 por um certo Cléry, criado do rei encarcerado. A lista mostra, em primeiro lugar, que, mesmo preso, Luís XVI continuava a dispor dos serviços de um criado. Mostra também detalhes interessantes do gosto real. Entre os produtos constam "doze cadernos de papel de carta de grande formato, dois frascos de creme, meia libra de sabão, uma pasta de marroquim vermelha e 6 libras de pó-de-arroz fino". Sem dúvida, uma lista curiosa para alguém prestes a ter a cabeça separada do corpo.

 

Champanhe contra diarréia

O cientista francês Louis Pasteur (1822-1895), descobridor da vacina contra a raiva, manteve intensa correspondência com a comunidade científica de seu tempo. Seus manuscritos são muito procurados e, em geral, versam sobre resultados de experiências e relatos de avanços ou dificuldades técnicas. São proporcionalmente poucas as cartas em que Pasteur faz comentários pessoais. Exatamente aí está a originalidade do documento mostrado aqui. Em carta a um amigo, o cientista conta que teve um desarranjo intestinal e melhorou tomando um remédio um tanto heterodoxo. Diz Pasteur: "Meu caro amigo, obrigado pela sua amável lembrança. Já estou melhor. Ontem consegui sair para ir à Academia de Medicina. No final de setembro, fui tomado em Arbois por um desarranjo intestinal de tal forma violento que se diria ser cólera. Durante alguns dias, meu estômago não podia receber uma gota de água. O champanhe esfriado com pequenos cubos de gelo foi o verdadeiro remédio".

 

Feliz aniversário, mamãe

Sigmund Freud (1856-1939) foi um missivista compulsivo. Suas cartas, apesar de abundantes, estão entre as mais disputadas pelos colecionadores interessados em esquadrinhar os primórdios e o desenvolvimento da teoria psicanalítica. A correspondência pessoal e afetiva é mais rara, e o bilhete abaixo é uma pequena preciosidade. Foi escrito em 1929, por ocasião do aniversário de sua "liebe Mutter" (querida mãe). "Junto aqui 6 dólares para o próximo ano que deves passar conosco numa alegria sem inquietação. Saúdo-te do fundo do coração pelo (...) mensageiro. Teu Sigm." Uma curiosidade sobre a relação de Freud com seus bilhetes e notas é que ele não lhes dava maior importância. "Não perco tempo absolutamente nenhum com os meus (manuscritos) e só os guardo por ter me convencido de que eles poderão no futuro render alguns trocos a meus netos." O pai da psicanálise não era tão sovina quanto fazem crer os 6 dólares enviados à mãe. Mas tampouco era tão generoso. Em valores de hoje, a quantia somaria cerca de 70 dólares.

 

Trágica premonição

Mahatma Gandhi (1869-1948) correspondeu-se com gente do mundo inteiro – jornalistas, governantes, escritores – na defesa da causa da não-violência. Na carta acima, a questão política é apenas lateral, mas adquire grande relevo pela data em que foi escrita, março de 1947. Dez meses depois, Gandhi foi assassinado. Ao responder gentilmente a uma correspondência enviada pelo irmão de um amigo de juventude, ele se desculpa por não poder desviar sua atenção naquele momento. "É claro que me lembro muito bem de seu irmão. (...) Terei tempo de pensar nos outros se sair ileso do fogo que tento apagar. Mas os obstáculos são tais que é o fogo que pode apagar-me se eu não o apagar." Os manuscritos de Gandhi alcançam valores altos no mercado, mas essa carta custou uma pechincha. Saiu por 15 dólares. Ela fazia parte de um lote de papéis que haviam pertencido ao líder pacifista indiano. O vendedor (e o comprador) ignorava que havia entre a papelada uma carta assinada.

 

Psicanálise, não

Albert Einstein (1879-1955) é, juntamente com Freud, o personagem do século XX cujos manuscritos são mais valorizados e disputados. Felizmente para os colecionadores, ele teve uma produção intelectual das mais intensas e foi um missivista de mão-cheia por quatro décadas. Na carta abaixo, o assunto não tem nada de científico. Nela, é um pai atento que se manifesta, em uma troca de idéias com Mileva Maric, sua primeira mulher. Eduardo, o segundo filho do casal, sofria de depressão, e a grande preocupação de Einstein era impedir que o tratamento adotado fosse o psicanalítico. "Tenho uma péssima opinião da psicanálise, pois entre os nossos conhecidos só tenho visto maus resultados. Considero-a uma moda extremamente perigosa e oponho-me a isso formalmente. Com meu consentimento ninguém se submeterá a esse gênero de tratamento e não o encorajarei sob nenhuma condição", escreveu o cientista nesta carta de 1932.

 

Os gastos da outra corte

O casal Jacqueline (1929-1994) e John Kennedy (1917-1963) ainda não tinha chegado ao poder em 1955, quando o contador do patriarca e milionário Joseph Kennedy redigiu a prestação de contas acima. No documento, enviado ao então jovem senador Kennedy, registra-se o alto padrão de vida dos futuros moradores da Casa Branca. Em nove meses, o casal torrou 11 704 dólares em lojas de departamentos. A mesma lista de compras custaria hoje cerca de 150 000 dólares. Um detalhe interessante é a observação de Kennedy, feita de próprio punho: "Tom, isto não está correto. Acho que papai já pagou isto (o carro) com cheque".

 

O amor do poeta

A correspondência de Fernando Pessoa (1888-1935) é escassa. No total, não chegam a 250 as cartas que se conhecem do maior poeta da língua portuguesa do século XX, que morreu aos 47 anos, quase completamente desconhecido. A mais importante destinou-se a dona Ofélia Queiroz, a única mulher que parece ter-lhe despertado algum interesse. São 49 cartas de amor, que Pedro Corrêa do Lago arrematou em leilão no fim de 2002 "pelo equivalente a um carro de luxo", no maior investimento individual feito pelo colecionador. A carta ao lado tem uma particularidade que a torna ainda mais rara. É assinada por Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta, que se refere ao próprio Fernando Pessoa como "um indivíduo abjeto e miserável". Na carta, Campos/Pessoa impõe à amada cinco curiosas proibições: "1) pesar menos gramas, (2) comer pouco, (3) não dormir nada, (4) ter febre, (5) pensar no indivíduo em questão".

 
 
 
 
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