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História Olhar
indiscreto
Livro com 400
manuscritos e autógrafos mostra o lado humano, frágil, fútil
mas sempre curioso de personagens ilustres de cinco séculos
 Lucila
Soares
Claudia Martins/Strana
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| Pedro Corrêa do Lago: paixão pelas revelações
dos famosos e poderosos |
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A
história é narrada mais vivamente pelo encadeamento de uma série
de acontecimentos relevantes vividos por personagens-chave. Mas ela é feita,
também, dos pequenos fatos do cotidiano. Cada maneira de narrar tem seu
sabor particular e seu próprio encanto. Quando se tem ao mesmo tempo
os eventos e a intimidade dos grandes personagens, a história ganha uma
dimensão inigualável. Foi movido pelo fascínio de juntar
essas duas pontas que o colecionador Pedro Corrêa do Lago dedicou 34 anos
de seus 46 de vida a garimpar manuscritos e autógrafos. Estes últimos
são documentos que valem não apenas por conter determinada assinatura,
mas pelo seu conteúdo e pelo que revelam sobre o autor. Por isso são
fascinantes. O resultado é uma coleção de 30.000 peças,
das quais 400 foram selecionadas para compor o livro Cinco Séculos a
Papel e Tinta, que está sendo lançado na Europa em inglês,
francês e português.
O lançamento da obra (que, de início, estará disponível
no Brasil apenas na versão portuguesa, importado, e ao custo de aproximadamente
180 reais) tem, para Corrêa do Lago, o sentido de tornar público
e, evidentemente, valorizar um trabalho hercúleo. O autor,
que atualmente dirige a Biblioteca Nacional, faz parte de um time de apaixonados
por colecionar esses documentos que tem entre seus integrantes figuras tão
díspares quanto o filósofo Michel de Montaigne (1533-1592), a rainha
Vitória, da Inglaterra (1819-1901), o escritor austríaco Stefan
Zweig, que se refugiou do nazismo e se suicidou no Brasil em 1942. A coleção
de Corrêa do Lago possui uma característica que a torna especial.
Diferentemente das demais grandes coleções do mundo, focadas em
um tema, ou período histórico, e mesmo um autor específico,
a sua é diversificada no tempo e no espaço. Aí reside sua
riqueza. O conjunto tem preciosidades históricas como um manuscrito do
rei Afonso IX (1171-1230), de Castela e Leão, que dominou os mouros. É
o documento mais antigo da coleção e traz uma cruz à guisa
de assinatura, devidamente autenticada por um notário, que atesta ser ela
signum imperatoris propria manu (feita com a mão do próprio
imperador). Mas, além dos exemplos selecionados para ilustrar a presente
reportagem, há passagens simplesmente deliciosas. Uma delas: um bilhete
da romancista francesa George Sand aos serviçais sobre a iminente chegada
de seu amante, o compositor Frédéric Chopin. Outra peça notável
é o bilhete do russo Leon Trotsky, exilado no México, à amante
Frida Kahlo.
O valor desses papéis pode passar despercebido para um leigo, mas não
escapa aos olhos treinados de um colecionador. Ele sabe identificar a riqueza
de um autógrafo. O bilhete de George Sand não muda nada na biografia
de Chopin, mas permite espionar de perto o cotidiano de uma famosa história
de amor. O caso entre Trotsky e Frida Kahlo também é sobejamente
conhecido, e o bilhete a ela dirigido não revela nada de especial sobre
o romance. No entanto, ao lê-lo, percebe-se quanto era tosco o inglês
do revolucionário russo, que, além do mais, se revela muito inseguro
para um homem a quem os seguidores atribuíam enormes virtudes de liderança.
Em um bilhete curto, Trotsky pede desculpa duas vezes pelo inglês
ruim e pelo uso de tintas diferentes. A lista de compras de Matisse não
muda a história da arte. Mas revela um pintor detalhista a ponto de, para
evitar erros, desenhar os pincéis que mandava comprar.
Ler esses documentos e decifrar caligrafias muitas vezes difíceis tem um
indefectível sabor de voyeurismo. "Ter uma carta entre as mãos é
sem dúvida o contato mais próximo que se pode estabelecer com uma
pessoa há muito desaparecida", diz Corrêa do Lago. Cartas e bilhetes
não são escritos normalmente visando à posteridade. Neles,
o autor está completamente desarmado. Na feliz definição
do historiador italiano Carlo Ginzburg, que assina o prefácio do livro,
"o choque transmitido pelo autógrafo é que ele não nos deixa
esquecer que, por detrás da imaterialidade do texto, há (ou houve)
autênticos corpos de homens e mulheres". Corrêa do Lago descobriu
cedo o prazer desse choque. Começou sua coleção aos 12 anos,
com um pedido de autógrafo a Heron Domingues, o locutor do Repórter
Esso. Em seguida, adotou outra tática: escrevia para celebridades pedindo
uma foto autografada. Em tempos de menor exposição e assédio,
conseguiu respostas a muitos desses pedidos. Entre os que responderam está
o cineasta François Truffaut. Depois começou a se corresponder com
outros colecionadores e com casas especializadas. O fato de ser filho de embaixador,
e portanto viajar muito e morar em diversos países, facilitou sua passagem
para a garimpagem in loco.
Mais de três décadas depois de iniciada, sua coleção
é referência internacional, embora não seja a maior nem a
mais valiosa do mundo. Não pode ser comparada à de Bill Gates. Um
único manuscrito de Leonardo da Vinci, comprado pelo maior acionista da
Microsoft, custou 30 milhões de dólares. Esse valor é mais
de dez vezes o que pode valer no mercado a coleção inteira de Corrêa
do Lago. Também fica longe de outros pesos pesados amantes de autógrafos.
Alguns gastam rios de dinheiro. Foi o caso dos americanos Malcolm Forbes e Ross
Perot. Eles alavancaram o mercado na década de 80 pagando fortunas por
documentos ligados à história dos Estados Unidos. Um discurso de
Abraham Lincoln sobre a abolição da escravatura foi adquirido, na
ocasião, por 2 milhões de dólares. A peça mais cara
do acervo de Corrêa do Lago é o conjunto de cartas de amor do poeta
Fernando Pessoa (veja quadro), comprada há
dois anos, e custou "o preço de um carro de luxo", segundo Corrêa
do Lago. Mesmo que o tal carro seja um dos importados mais caros, o valor não
chega a 50.000 dólares. Outro investimento pesado foi feito na aquisição
de um manuscrito do pintor holandês Rubens (1577-1640), num episódio
pouco conhecido de sua biografia. Além de ser um dos pintores mais prestigiados
da corte holandesa, Rubens atuou como diplomata e era muito bem informado sobre
as atividades de seu país. Em uma carta escrita em 1628, faz referência
à invasão ao Brasil. "Os holandeses acabam de enviar uma frota muito
poderosa para a Baía de Todos os Santos, para sitiar a cidade de São
Salvador", relata o pintor na correspondência, que foi comprada em 1995
"pelo preço equivalente ao de um carro popular", ou seja, por cerca de
5.000 dólares.
As histórias preferidas de Corrêa do Lago, no entanto, não
são as das peças caras, financiadas em boa parte com a venda de
sua coleção de documentos brasileiros à Souza Cruz e de seu
conjunto de fotografias do século XIX ao Instituto Moreira Salles. Ele
tem, sim, um indisfarçável prazer em lembrar as pechinchas que amealhou
e que formam a maior parte da coleção. É o caso da carta
de Mahatma Gandhi que está na página 144 e também de uma
foto autografada da cantora lírica Maria Callas, comprada por 1 dólar
e que hoje poderia ser vendida tranqüilamente por 1 000 vezes esse valor.
São casos que dificilmente podem se repetir no momento atual do mercado
de autógrafos, que está em franca expansão mostra
disso é que as tradicionais Sotheby's e Christie's têm realizado
pelo menos dez leilões de autógrafos e manuscritos por ano. São
milhares os colecionadores, e eles disputam uma matéria-prima cada vez
mais escassa. Mas ainda é possível comprar peças interessantes
por preços razoáveis (entenda-se por razoável hoje algo na
casa dos 500 dólares). A tendência desses preços é,
evidentemente, subir. A disputa está ficando cada vez mais acirrada porque
o manuscrito é uma espécie em extinção. Na era da
informática, escritores e compositores não produzem mais as inúmeras
versões corrigidas a mão que levam os colecionadores ao delírio.
A correspondência entre as pessoas, famosas ou não, reduziu-se a
uma volátil troca de e-mails. E ninguém imagina que, no futuro,
poderá haver um mercado para cópias impressas de mensagens eletrônicas.
Pó-de-arroz e guilhotina
O
rei da França Luís XVI (1754-1793) e a rainha Maria Antonieta
(1755-1793) ficaram conhecidos por perder a cabeça e a vida na guilhotina
e por dois extremos: o poder absoluto e o luxo. Os grandes bailes no Palácio
de Versailles e a frase famosa da rainha ("Se não há pão,
comam brioches") dariam a dimensão da alienação da corte
em relação às dificuldades dos pobres. Pouco se fala do período
em que ambos ficaram encerrados na Prisão do Templo à espera da
execução. E é esse o grande valor do documento acima. Trata-se
de uma lista de compras feita em dezembro de 1792 por um certo Cléry, criado
do rei encarcerado. A lista mostra, em primeiro lugar, que, mesmo preso, Luís
XVI continuava a dispor dos serviços de um criado. Mostra também
detalhes interessantes do gosto real. Entre os produtos constam "doze cadernos
de papel de carta de grande formato, dois frascos de creme, meia libra de sabão,
uma pasta de marroquim vermelha e 6 libras de pó-de-arroz fino". Sem
dúvida, uma lista curiosa para alguém prestes a ter a cabeça
separada do corpo. | |
Champanhe contra diarréia
O
cientista francês Louis Pasteur (1822-1895), descobridor da vacina
contra a raiva, manteve intensa correspondência com a comunidade científica
de seu tempo. Seus manuscritos são muito procurados e, em geral, versam
sobre resultados de experiências e relatos de avanços ou dificuldades
técnicas. São proporcionalmente poucas as cartas em que Pasteur
faz comentários pessoais. Exatamente aí está a originalidade
do documento mostrado aqui. Em carta a um amigo, o cientista conta que teve um
desarranjo intestinal e melhorou tomando um remédio um tanto heterodoxo.
Diz Pasteur: "Meu caro amigo, obrigado pela sua amável lembrança.
Já estou melhor. Ontem consegui sair para ir à Academia de Medicina.
No final de setembro, fui tomado em Arbois por um desarranjo intestinal de tal
forma violento que se diria ser cólera. Durante alguns dias, meu estômago
não podia receber uma gota de água. O champanhe esfriado com pequenos
cubos de gelo foi o verdadeiro remédio". |
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Feliz aniversário,
mamãe Sigmund
Freud (1856-1939) foi um missivista compulsivo.
Suas cartas, apesar de abundantes, estão entre as mais disputadas pelos
colecionadores interessados em esquadrinhar os primórdios e o desenvolvimento
da teoria psicanalítica. A correspondência pessoal e afetiva é
mais rara, e o bilhete abaixo é uma pequena preciosidade. Foi escrito em
1929, por ocasião do aniversário de sua "liebe Mutter" (querida
mãe). "Junto aqui 6 dólares para o próximo ano que deves
passar conosco numa alegria sem inquietação. Saúdo-te do
fundo do coração pelo (...) mensageiro. Teu Sigm." Uma curiosidade
sobre a relação de Freud com seus bilhetes e notas é que
ele não lhes dava maior importância. "Não perco tempo absolutamente
nenhum com os meus (manuscritos) e só os guardo por ter me convencido de
que eles poderão no futuro render alguns trocos a meus netos." O pai da
psicanálise não era tão sovina quanto fazem crer os 6 dólares
enviados à mãe. Mas tampouco era tão generoso. Em valores
de hoje, a quantia somaria cerca de 70 dólares. |
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Trágica premonição
Mahatma
Gandhi (1869-1948) correspondeu-se com gente do
mundo inteiro jornalistas, governantes, escritores na defesa da
causa da não-violência. Na carta acima, a questão política
é apenas lateral, mas adquire grande relevo pela data em que foi escrita,
março de 1947. Dez meses depois, Gandhi foi assassinado. Ao responder gentilmente
a uma correspondência enviada pelo irmão de um amigo de juventude,
ele se desculpa por não poder desviar sua atenção naquele
momento. "É claro que me lembro muito bem de seu irmão. (...)
Terei tempo de pensar nos outros se sair ileso do fogo que tento apagar. Mas os
obstáculos são tais que é o fogo que pode apagar-me se eu
não o apagar." Os manuscritos de Gandhi alcançam valores altos
no mercado, mas essa carta custou uma pechincha. Saiu por 15 dólares. Ela
fazia parte de um lote de papéis que haviam pertencido ao líder
pacifista indiano. O vendedor (e o comprador) ignorava que havia entre a papelada
uma carta assinada. | |
Psicanálise, não
Albert
Einstein (1879-1955) é, juntamente com Freud,
o personagem do século XX cujos manuscritos são mais valorizados
e disputados. Felizmente para os colecionadores, ele teve uma produção
intelectual das mais intensas e foi um missivista de mão-cheia por quatro
décadas. Na carta abaixo, o assunto não tem nada de científico.
Nela, é um pai atento que se manifesta, em uma troca de idéias com
Mileva Maric, sua primeira mulher. Eduardo, o segundo filho do casal, sofria de
depressão, e a grande preocupação de Einstein era impedir
que o tratamento adotado fosse o psicanalítico. "Tenho uma péssima
opinião da psicanálise, pois entre os nossos conhecidos só
tenho visto maus resultados. Considero-a uma moda extremamente perigosa e oponho-me
a isso formalmente. Com meu consentimento ninguém se submeterá a
esse gênero de tratamento e não o encorajarei sob nenhuma condição",
escreveu o cientista nesta carta de 1932. | |
Os gastos da outra corte
O
casal Jacqueline (1929-1994) e John Kennedy (1917-1963) ainda não
tinha chegado ao poder em 1955, quando o contador do patriarca e milionário
Joseph Kennedy redigiu a prestação de contas acima. No documento,
enviado ao então jovem senador Kennedy, registra-se o alto padrão
de vida dos futuros moradores da Casa Branca. Em nove meses, o casal torrou 11
704 dólares em lojas de departamentos. A mesma lista de compras custaria
hoje cerca de 150 000 dólares. Um detalhe interessante é a observação
de Kennedy, feita de próprio punho: "Tom, isto não está
correto. Acho que papai já pagou isto (o carro) com cheque". |
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O amor do
poeta
A correspondência de Fernando Pessoa (1888-1935) é escassa.
No total, não chegam a 250 as cartas que se conhecem do maior poeta da
língua portuguesa do século XX, que morreu aos 47 anos, quase completamente
desconhecido. A mais importante destinou-se a dona Ofélia Queiroz, a única
mulher que parece ter-lhe despertado algum interesse. São 49 cartas de
amor, que Pedro Corrêa do Lago arrematou em leilão no fim de 2002
"pelo equivalente a um carro de luxo", no maior investimento individual feito
pelo colecionador. A carta ao lado tem uma particularidade que a torna ainda mais
rara. É assinada por Álvaro de Campos, um dos heterônimos
do poeta, que se refere ao próprio Fernando Pessoa como "um indivíduo
abjeto e miserável". Na carta, Campos/Pessoa impõe à
amada cinco curiosas proibições: "1) pesar menos gramas, (2)
comer pouco, (3) não dormir nada, (4) ter febre, (5) pensar no indivíduo
em questão". | | |