Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Oriente Médio
Yasser Arafat,
uma era se acaba


Vilma Gryzinski

 
AP
DILEMAS MORAIS
Depois de Arafat: persiste um conflito dilacerante, em que as duas partes estão certas e as duas estão erradas

NESTA EDIÇÃO
O fim do dono da história

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: A Questão Palestina

Há mais de 2 000 anos o Oriente Médio assombra o mundo com suas convulsões, seus dramas, seus milagres, seus martírios, seus breves e estonteantes momentos de glória. Da emergência do maior mito do Ocidente, o de Cristo, à rebelião dos fundamentalistas judeus que levou o Império Romano a dissolver a colônia longínqua com conseqüências que reverberam através dos milênios, da eclosão do islamismo às cruzadas cristãs pela retomada de Jerusalém, do domínio otomano à criação do moderno Estado de Israel em seu antigo berço, tudo é tão carregado de história que exige um certo temor respeitoso – e muita humildade – de quem se dispõe a tentar entender seus intrincados, intermináveis problemas. A morte iminente de Yasser Arafat, simultaneamente estadista e terrorista, pai da pátria e obstáculo à realização das aspirações nacionais de seu povo, amado, odiado, temido, no fim da vida impiedosamente reduzido à impotência e ainda assim pranteado como um herói, é um capítulo contemporâneo dessa longa história.

O conflito entre israelenses e palestinos, cuja pungência volta a entrar em estado de crise aguda com a saída de Arafat do cenário, não é apenas uma questão internacional que interessa ao mundo resolver em nome da estabilidade geoestratégica. Ele também evoca dilemas morais dilacerantes para todos os envolvidos – de dentro ou de fora da região. A humanidade poderá dizer que avançou um passo significativo em sua lenta evolução quando uma solução decente for finalmente alcançada. A dificuldade em conseguir isso está na natureza binária do problema: esse é um conflito em que as duas partes estão certas e as duas partes estão erradas. Quem pode negar aos judeus, perseguidos, humilhados e finalmente massacrados na Europa, o direito de ter um país próprio e viver nele em segurança? E quem pode negar aos palestinos o direito de se rebelar contra o fato de que esse país, consagrado na esteira de uma guerra com a qual não tinham nada a ver, tenha sido erguido às expensas de sua própria pátria?

Na defesa desse direito natural, irrenunciável, as duas partes defrontam-se há mais de cinqüenta anos. De Estado incipiente e ameaçado, Israel tornou-se uma potência regional, um prodígio criado do nada na base da ardente dedicação de um povo. De tribo marginalizada, sem direito sequer a uma nacionalidade, os palestinos resistiram a adversidades massacrantes, demonstrando força na fraqueza, dignidade na humilhação, honra na conspurcação. Um dos efeitos mais terríveis do conflito é justamente a brutalização desses dois povos admiráveis. Pode-se entender, mas com o coração sangrando, que israelenses comemorem os mísseis que matam os chefes do terror – e eventuais circunstantes –, a demolição das casas dos parentes dos homens-bomba, a construção do mais alto dos muros para protegê-los de seus ataques. Pode-se entender, jamais endossar, que tantos palestinos aplaudam a violência e vejam os suicidas como os equalizadores, os equivalentes humanos aos tanques e aviões de que não dispõem. Desde que a fase atual do conflito estourou, em setembro de 2000, foram mais de 3 600 palestinos mortos – e dez vezes mais o número de feridos. Do lado de Israel, o número de vítimas, a maioria despedaçada nos atentados suicidas, aproxima-se de 900 mortos e quase 6 500 feridos.

Yasser Arafat fez seu mais elevado, e difícil, gesto quando aceitou a existência de Israel e renunciou ao terrorismo, em troca de um Estado para seu próprio povo – mutilado, mas o único possível. Olhando-se no curto prazo, parece que de nada adiantou. As negociações de paz estão há muito paralisadas, a violência predomina, os Estados Unidos de George W. Bush – única força capaz de arrancar uma solução – nada fazem, o próprio Arafat colecionou fracassos e torpezas. Mas foi o seu gesto de grandeza que lhe garantiu um lugar honroso numa história que tem tantos personagens mais importantes do que ele. E é por ele que o mundo lhe deve ser grato – e lembrar que todos serão julgados pelo que for feito, ou deixar de sê-lo, numa região onde tudo pode acontecer, exceto a indiferença.

 
 
 
 
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