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Oriente Médio
Yasser Arafat,
uma era se acaba

Vilma Gryzinski
AP
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DILEMAS MORAIS
Depois de Arafat: persiste um conflito
dilacerante, em que as duas partes estão certas e as duas estão
erradas |
Há
mais de 2 000 anos o Oriente Médio assombra o mundo com suas
convulsões, seus dramas, seus milagres, seus martírios,
seus breves e estonteantes momentos de glória. Da emergência
do maior mito do Ocidente, o de Cristo, à rebelião
dos fundamentalistas judeus que levou o Império Romano a
dissolver a colônia longínqua com conseqüências
que reverberam através dos milênios, da eclosão
do islamismo às cruzadas cristãs pela retomada de
Jerusalém, do domínio otomano à criação
do moderno Estado de Israel em seu antigo berço, tudo é
tão carregado de história que exige um certo temor
respeitoso e muita humildade de quem se dispõe
a tentar entender seus intrincados, intermináveis problemas.
A morte iminente de Yasser Arafat, simultaneamente estadista e terrorista,
pai da pátria e obstáculo à realização
das aspirações nacionais de seu povo, amado, odiado,
temido, no fim da vida impiedosamente reduzido à impotência
e ainda assim pranteado como um herói, é um capítulo
contemporâneo dessa longa história.
O conflito
entre israelenses e palestinos, cuja pungência volta a entrar
em estado de crise aguda com a saída de Arafat do cenário,
não é apenas uma questão internacional que
interessa ao mundo resolver em nome da estabilidade geoestratégica.
Ele também evoca dilemas morais dilacerantes para todos os
envolvidos de dentro ou de fora da região. A humanidade
poderá dizer que avançou um passo significativo em
sua lenta evolução quando uma solução
decente for finalmente alcançada. A dificuldade em conseguir
isso está na natureza binária do problema: esse é
um conflito em que as duas partes estão certas e as duas
partes estão erradas. Quem pode negar aos judeus, perseguidos,
humilhados e finalmente massacrados na Europa, o direito de ter
um país próprio e viver nele em segurança?
E quem pode negar aos palestinos o direito de se rebelar contra
o fato de que esse país, consagrado na esteira de uma guerra
com a qual não tinham nada a ver, tenha sido erguido às
expensas de sua própria pátria?
Na defesa
desse direito natural, irrenunciável, as duas partes defrontam-se
há mais de cinqüenta anos. De Estado incipiente e ameaçado,
Israel tornou-se uma potência regional, um prodígio
criado do nada na base da ardente dedicação de um
povo. De tribo marginalizada, sem direito sequer a uma nacionalidade,
os palestinos resistiram a adversidades massacrantes, demonstrando
força na fraqueza, dignidade na humilhação,
honra na conspurcação. Um dos efeitos mais terríveis
do conflito é justamente a brutalização desses
dois povos admiráveis. Pode-se entender, mas com o coração
sangrando, que israelenses comemorem os mísseis que matam
os chefes do terror e eventuais circunstantes , a demolição
das casas dos parentes dos homens-bomba, a construção
do mais alto dos muros para protegê-los de seus ataques. Pode-se
entender, jamais endossar, que tantos palestinos aplaudam a violência
e vejam os suicidas como os equalizadores, os equivalentes humanos
aos tanques e aviões de que não dispõem. Desde
que a fase atual do conflito estourou, em setembro de 2000, foram
mais de 3 600 palestinos mortos e dez vezes mais o número
de feridos. Do lado de Israel, o número de vítimas,
a maioria despedaçada nos atentados suicidas, aproxima-se
de 900 mortos e quase 6 500 feridos.
Yasser
Arafat fez seu mais elevado, e difícil, gesto quando aceitou
a existência de Israel e renunciou ao terrorismo, em troca
de um Estado para seu próprio povo mutilado, mas o
único possível. Olhando-se no curto prazo, parece
que de nada adiantou. As negociações de paz estão
há muito paralisadas, a violência predomina, os Estados
Unidos de George W. Bush única força capaz
de arrancar uma solução nada fazem, o próprio
Arafat colecionou fracassos e torpezas. Mas foi o seu gesto de grandeza
que lhe garantiu um lugar honroso numa história que tem tantos
personagens mais importantes do que ele. E é por ele que
o mundo lhe deve ser grato e lembrar que todos serão
julgados pelo que for feito, ou deixar de sê-lo, numa região
onde tudo pode acontecer, exceto a indiferença.
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