|
|
Estados Unidos
O troféu supremo
Alta Corte será aliada de Bush na
cruzada conservadora dos costumes

Carlos Graieb
A conquista de um segundo mandato deu ao presidente
George W. Bush a chance de moldar à sua imagem a Suprema
Corte dos Estados Unidos. A previsão dos especialistas é
que Bush, nos próximos quatro anos, deverá nomear
três juízes para um tribunal de nove togas. Existe
uma margem de dúvida nessa previsão, e ela deve-se
ao fato de que os juízes têm cargos vitalícios
e podem decidir unilateralmente quando chegou a hora de se aposentar.
Atualmente, não há maioria clara na Suprema Corte.
Quase todas as decisões terminam em apertado 5 a 4. As facções
moderada e conservadora se opõem de maneira cristalina e
acérrima. O voto de Minerva costuma ficar nas mãos
de dois juízes pragmáticos que tendem para a direita,
mas, em muitas questões, aliam-se ao outro lado (veja
quadro). "Se Bush escolher com cuidado, e seus candidatos
sobreviverem à batalha da confirmação no Senado,
veremos consolidar-se, para os próximos anos e talvez décadas,
uma leitura da Constituição radicalmente diferente
da que temos hoje", diz Cass Sunstein, professor da Universidade
de Chicago. De todas as instâncias da democracia americana,
a Suprema Corte é aquela cujas decisões mais influem
no cotidiano das pessoas. Cabe aos juízes dar a palavra final
sobre dilemas como o direito ao aborto, a obrigatoriedade do serviço
militar, a união de homossexuais, as garantias de liberdade
de expressão e até certas questões ambientais.
Dos três juízes que se aposentariam
nos próximos anos, o que deve sair mais cedo é William
Rehnquist. Pouco antes da eleição americana, veio
à tona que ele sofre de câncer na tireóide,
aparentemente de uma modalidade agressiva. Rehnquist preside a Corte
desde 1986 e, nesse período, realizou o que muitos consideram
uma revolução. Sob sua influência, decisões
de tribunais anteriores, de configuração mais liberal,
tiveram seu escopo bastante restrito, se não chegaram a ser
derrubadas. A substituição de um conservador por outro,
contudo, não causaria um abalo sísmico. A coisa muda
de figura quando se fala na aposentadoria de John Paul Stevens e
Sandra O'Connor. O primeiro, com 84 anos, é um baluarte liberal.
A segunda já foi considerada "a mulher mais poderosa dos
Estados Unidos", tantas foram as vezes em que o desempate de uma
votação dependeu dela.
O impacto de uma corte solidamente conservadora
para a vida americana seria tremendo. A instituição
está no centro das chamadas "guerras culturais" as
discussões biliosas em torno de temas como discriminação
racial, aborto ou, recentemente, casamento homossexual. A Constituição
minimalista dos Estados Unidos silencia em grande parte sobre esses
assuntos e, em um sistema de ampla autonomia federativa, pode haver
um acúmulo de leis contraditórias sobre eles. Cabe
ao Supremo dizer o que vale ou não. Suas sentenças
se cristalizam em "precedentes" que todo litigante em potencial
hesita muito antes de confrontar. Além disso, ao contrário
do que ocorre no Brasil, a Corte americana tem o poder de escolher
os casos que vai apreciar, e ela escolhe cuidadosamente: sua média
foi de oitenta decisões por ano em anos recentes. Nesse contexto,
suas sentenças têm ressonância duradoura, que
fica clara num detalhe: elas são popularmente conhecidas
pelo nome. Se alguém menciona o caso Roe x Wade, ou apenas
Roe, todo americano sabe que está se falando do direito de
aborto, estabelecido em 1973.
A questão do aborto é a que
divide os americanos de maneira mais apaixonada. Por si só,
a aposentadoria de Sandra O'Connor pode tornar essa prática
ilegal nos Estados Unidos ela não quis entrar para
a história como a mulher que, com seu voto decisivo, revogou
a liberdade de interromper uma gravidez. Qualquer candidato ao Supremo
que se diga antiaborto sofrerá imediatamente um boicote cerrado
dos democratas. A lista de mudanças que os conservadores
desejam implementar, contudo, vai muito além desse tema.
Eles gostariam de declarar inconstitucional a ação
afirmativa, de relaxar o controle judicial sobre a pena de morte,
de reduzir a lista de direitos civis reconhecidos e de restringir
os poderes do governo federal (exceto no campo da segurança),
o que teria sério impacto em campos como o da proteção
ambiental. Os ideólogos dessa transformação
no mundo jurídico se unem sob um lema de tonalidades messiânicas:
o do retorno à "Constituição Exilada". A idéia
é que se deveria retornar aos moldes de pensamento legal
vigentes na década de 1920. Nos próximos quatro anos,
é essa "agenda vermelha" que George II tentará introduzir
na Suprema Corte americana. O vermelho símbolo dos republicanos,
e não dos comunistas, é claro.
|