Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Estados Unidos
Lavados e escovados

Esmagados por Bush, democratas querem
redescobrir como atrair os eleitores

 
AP
FINAL INFELIZ
Kerry ao lado da mulher, Teresa, após admitir a derrota: falava demais

O Partido Democrata tem um currículo impressionante. Perdeu cinco das últimas sete eleições para presidente dos Estados Unidos e, na semana passada, consolidou sua posição como minoria no Congresso americano. Nem o líder democrata no Senado conseguiu se reeleger, o que não ocorria havia meio século. Como é de praxe após um massacre eleitoral, o partido entrou num período de reflexão profunda, atormentado por uma questão vital para sua sobrevivência: por que os americanos não votam em seus candidatos? Foram 3,5 milhões de votos de vantagem para George W. Bush, a maior diferença de votos numa eleição presidencial. Uma explicação, que está na mesa dos caciques democratas, é a constatação do óbvio: o partido não consegue produzir um candidato à altura do populismo imperturbável de George W. Bush. O último democrata a encantar as multidões foi Bill Clinton, presidente por dois mandatos.

Dentro de quatro anos pode ser a vez da senadora Hillary Clinton, mulher de Bill. Mas é cedo para dizer. O senador John Edwards, vice na chapa de Kerry, é outro bom nome para 2008. É jovem, sulista e dono de um discurso populista. John Kerry, o candidato derrotado na semana passada, é carta descartada.

Reuters
MUITO BARULHO PARA NADA
Democratas acompanham apuração em Boston: derrota incontestável


Há uma onda conservadora e religiosa nos Estados Unidos, e isso prejudica os democratas, liberais em assuntos sociais. Os democratas são identificados com a elite intelectual de Nova York e Boston. Os moradores dos Estados que votaram em massa nos republicanos acham esses lugares cosmopolitas demais para ser considerados verdadeiramente americanos. A sofisticação intelectual não ajuda muito eleitoralmente neste momento. Uma característica do presidente Bush que o põe à frente dos adversários é a simplicidade. Ele é um homem simples em tudo o que diz e faz. Faz o mesmo discurso em todas as oportunidades. Suas frases são curtas e claras. "O governo precisa fazer coisas, e fazê-las bem-feito", diz com convicção, como se isso significasse alguma coisa. Seu capital político pode ser resumido em três grandes idéias: corte de impostos, terrorismo e Iraque. Os americanos gostam dessa abordagem, que lhes dá a impressão de que o presidente sabe como lidar com o terrorismo.

Onde Bush tem uma idéia, Kerry tinha dúzias. Não havia como empolgar o eleitorado do interior, que votou em massa na reeleição. Até os desempregados de Ohio, que deveriam responsabilizar o governo por seu infortúnio, apoiaram Bush. "Em vez de um referendo sobre seu governo, Bush levou os eleitores a julgar a capacidade de Kerry de liderar o país em tempo de guerra e se deu bem", disse a cientista política Kathryn Dunn Tenpas, do Instituto Brookings, de Washington. Pesou na derrota o esforço republicano para arregimentar novos eleitores, usando como isca referendos locais envolvendo temas morais ou religiosos. O plebiscito sobre casamento gay atraiu às urnas de onze Estados um público conservador que normalmente não se interessa por eleições. Em pelo menos três Estados – Ohio, Michigan e Oregon –, eles decidiram a disputa em favor dos republicanos. Os democratas não conseguiram mobilizar na mesma proporção seu público cativo, como os jovens. "O elevado índice de comparecimento às urnas do eleitorado conservador e religioso foi decisivo para a reeleição de Bush e a vitória republicana no Congresso", disse a VEJA o cientista político Barry Burden, da Universidade Harvard. O eleitorado continua dividido em partes praticamente iguais – mas os democratas ainda precisam descobrir como converter essa paridade em deputados, senadores e governadores e, em 2008, num presidente.

 
 
 
 
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