|
|
Internacional O
segundo império Para se reeleger,
George W. Bush incensou os fundamentalistas cristãos. Eles vão
pressionar para que o presidente faça o país retroceder em questões
como a união civil de gays e o avanço científico
 Jaime
Klintowitz Reuters
 |
A
política americana gira em torno de dois grandes partidos, representantes
de lados opostos do centro ideológico. O Republicano põe ênfase
em menor interferência estatal na economia, impostos baixos e políticas
sociais conservadoras. O Democrata prefere presença forte do governo na
economia, defende reformas progressistas e tem o apoio dos sindicatos. O que dá
equilíbrio ao sistema não é a necessária tensão
que os separa, mas a qualidade e o significado daquilo que eles têm em comum.
Historicamente ambos se opõem a que o Estado se intrometa nos assuntos
privados das pessoas. Essa garantia de liberdade individual e tolerância
para com a diferença dá transcendência à experiência
americana e a torna um patrimônio da humanidade, invejado e em muitos casos
imitado pelas outras nações. O segundo mandato de George W. Bush
encaixa-se de maneira desastrosa nessa equação. A se confirmarem
as mais pessimistas análises sobre sua irrefutável vitória
nas urnas, na semana passada, o Bush II tenderá a ser um período
de obscurantismo de motivação religiosa, de trevas na pesquisa científica
e de retrocesso nas relações sociais.
O triunfo eleitoral de Bush está ancorado em um programa que reflete o
que os Estados Unidos têm de mais obscurantista, intolerante e provinciano
a extrema direita religiosa. Essa força política é
formada por um contingente tenaz, obstinado, cego ao progresso, características
que nada ficam a dever às crenças dos fundamentalistas islâmicos,
os patronos do terrorismo no mundo. Não há nada de errado em um
presidente demonstrar e incentivar a fé. O problema começa quando
a religião passa a mediar as ações do Estado, moldando à
sua ótica a educação, as pesquisas científicas, as
guerras e até o universo individual das pessoas. Os religiosos que votaram
em massa em Bush na terça-feira passada acreditam que a teoria da evolução
de Charles Darwin é sacrílega por negar a Deus o papel de criador.
 | A
EUROPA ESTARRECIDA "Como
59 054 087 pessoas podem ser tão burras?", pergunta o jornal inglês
Daily Mirror |
Esses
mesmos religiosos querem a proibição do aborto e da união
civil entre homossexuais. Principalmente, desejam ver banidas as fontes de financiamento
oficial às pesquisas com células embrionárias, uma das mais
se não a mais promissoras fronteiras abertas pela medicina.
Em sua primeira entrevista como presidente
reeleito, George W. Bush emitiu um sinal que soou como uma leve esperança
de que seu fundamentalismo religioso talvez tenha sido apenas uma esperteza eleitoreira.
"Os Estados Unidos são feitos por pessoas que acreditam em Deus e pessoas
que não acreditam. Não ter fé não torna ninguém
menos americano do que o vizinho que crê", disse Bush. A realidade da composição
do Senado e da Câmara dos Deputados talvez obrigue Bush a encolher logo
a abertura laica que demonstrou na primeira entrevista. A grande questão
do segundo mandato é saber com que ênfase o presidente vai cumprir
o programa de extravagâncias fundamentalistas que prometeu a seus eleitores
religiosos. Há duas teorias a respeito em se tratando de George
W. Bush é prudente apostar algumas fichas na mais radical delas. A mais
benigna é a de que Bush pretende agora uma versão amenizada do mandato
anterior, o que lhe daria tempo para consertar as encrencas armadas no primeiro.
Ele está às voltas com a guerra no Iraque, com um monumental déficit
público, com um país ideologicamente dividido até a raiz.
Em nome da união de todos os americanos, crentes ou não, ele abriria
mão de impor ao país aquilo que sua fé religiosa considera
mais correto. O presidente vive uma boa hora para se mostrar conciliador e tolerante.
Superou a maldição do pai, que não se reelegeu apesar de
ter vencido a Guerra do Golfo, em 1991. Deixou para trás também
o trauma de 2000, quando ganhou a Presidência no Colégio Eleitoral
apesar de ter recebido 500.000 votos populares a menos que seu adversário.
A hipótese oposta é que ele se sentirá autorizado pela inequívoca
vitória eleitoral que lhe deu quase 4 milhões de votos de
vantagem sobre seu oponente, John Kerry a aprofundar seu projeto interno
de transformar os Estados Unidos em uma república religiosa e a refazer
o mapa político global, a começar pelo Oriente Médio.
Se Bush levar adiante o projeto do batalhão da Bíblia, ele
dará uma volta completa no relógio. "A primeira democracia verdadeira
da história são os Estados Unidos. Ela é produto dos valores
do iluminismo, que são a inteligência crítica, a tolerância,
o respeito pela evidência e a valorização das ciências
seculares", escreveu Garry Wills, professor de história na Universidade
Northwestern. O que ele vê nos EUA, atualmente, é um aumento do fervor
fundamentalista, a fúria contra o pensamento secular, a intolerância
religiosa, o medo e o ódio da modernidade e tudo isso sendo acolhido
com entusiasmo na Casa Branca. São elementos oriundos de uma visão
restrita da fé e que só encontram correspondência no mundo
islâmico e na Al Qaeda. Num puxão de orelha em seus conterrâneos,
Wills comenta: "Os americanos se admiram, quando o restante do mundo os considera
perigosos, teimosos e não reativos aos apelos internacionais".
As coisas boas que ocorrem nos Estados Unidos tendem a se espalhar pelo mundo.
É o caso da economia de mercado e do apego à democracia. As ruins
também. São contingências derivadas do fato de os EUA serem
um império. O país tem força econômica e militar hegemônica
no planeta. Por essa razão, tudo que ocorre nos Estados Unidos interessa
de perto ao mundo. Talvez por isso as reações à reeleição
de Bush tenham sido tão negativas na Europa. Sobre uma foto de Bush, o
tablóide londrino Daily Mirror perguntou: "Como 59.054.087 pessoas
podem ser tão burras?". Essa é a quantidade de votos recebida pelo
presidente. O jornal francês Libération deu manchete enorme
com os dizeres "L'empire empire", um trocadilho que significa: o império
piorou. A exceção foi L'Express, que defendeu os pontos positivos
da administração americana e acusou a Europa de não se envolver
mais nas lutas mundiais dos americanos "por ser um continente pusilânime,
sem exército, sem diplomacia e sem saber quais são seus reais interesses
globais". Mas nem L'Express poupou o fundamentalismo doutrinário
da Casa Branca de Bush: "A invasão do Iraque se justifica por motivos políticos
e econômicos. Se foi motivada por religião, ela é criminosa".
Por influência da direita cristã,
que tomou de assalto o partido nas últimas duas décadas, reina entre
os republicanos um sentimento de que suas posições não são
apenas escolhas políticas, mas questão de princípios e de
moralidade pessoais. Uma pesquisa mostrou que os eleitores do presidente vão
duas vezes mais à igreja que os de seu adversário democrata e que
a maioria deles faz questão de um presidente que acredite em Deus. Dois
em cada dez eleitores colocam os valores morais acima de qualquer outro na hora
de escolher um candidato. Esse figurino serve com perfeição em Bush.
Ele considera a abstinência sexual um programa de saúde pública,
promove guerras em tom messiânico (contra o "eixo do mal") e adota princípios
religiosos fundamentalistas para definir as políticas do Estado. "Bush
não é um conservador. Ele é um radical, o líder de
uma coalizão com profunda aversão aos Estados Unidos como eles são",
definiu Paul Krugman, economista e colunista do New York Times, um dos
mais obstinados críticos de Bush desde seu primeiro dia na Casa Branca.
AP
 | MAIS
QUATRO ANOS O discurso da vitória, ao lado do
vice Dick Cheney e da família: "Tenho o dever de servir a todos os americanos"
|
A reeleição
de Bush impõe ao resto do planeta mais quatro anos de agonia. Ninguém
pode ficar indiferente ao Império Americano. A queda do Muro de Berlim,
em 1989, simbolizou a derrota da ideologia comunista e provocou um vácuo
de poder no mundo. De uma hora para outra, os Estados Unidos se viram como única
superpotência global, sem um oponente à altura e com uma capacidade
militar historicamente incomparável. Nenhuma outra nação
teve igual domínio econômico, cultural, científico e militar
em escala mundial. Qualquer abalo nesse gigante tem o potencial de provocar tremores
nos outros países. Eleito em 2000, Bush parecia destinado a uma Presidência
sem brilho. Tudo mudou com os atentados de 11 de Setembro de 2001. O presidente
cresceu na adversidade e se mostrou incansável na tarefa de punir os terroristas
e proteger os Estados Unidos ainda que de forma pouco competente, o que
acabou por alimentar o terrorismo antiamericano pelo mundo afora. No plano doméstico,
recebeu um orçamento com superávit e o transformou num déficit
de 500 bilhões de dólares. Bem, nem todos os americanos vêem
assim. De nada adiantaram a visão poderosa das cenas de morte de soldados
americanos no Iraque e as notícias de que o país não tinha
as armas de destruição em massa que serviram de desculpa para Bush
fazer a guerra. O que importa para o eleitor americano, escreveu o colunista Simon
Schama no jornal inglês Guardian, é que "o presidente 'agiu',
ou seja, pelo menos matou alguns maus elementos no Oriente Médio em resposta
ao 11 de Setembro".
Bush foi o presidente
que, nos últimos sessenta anos, mais perto chegou de assumir o papel imperial
dos Estados Unidos. Os americanos não se sentem confortáveis com
a pecha de imperialistas. Preferem que seu país seja apelidado de "única
superpotência" ou "hegemonia". A supremacia americana exercita seus músculos
desde o fim da II Guerra. Só nos últimos três anos, com os
atentados terroristas, o país assumiu seu papel hegemônico com menos
pudor. A Doutrina Bush, elaborada cinco meses antes da invasão do Iraque,
sustenta-se em três premissas básicas: o direito de fazer guerras
preventivas contra países que representem uma ameaça potencial aos
Estados Unidos; a liberdade para agir sem precisar do endosso da ONU ou de leis
internacionais; e o dever de não permitir que nenhuma outra nação
alcance o poder militar americano. Isso não é necessariamente um
perigo para os demais países. Autor de um fenomenal estudo sobre o poder
americano, o historiador britânico Niall Ferguson sustenta que nunca o mundo
precisou tanto da existência de um império mundial. "As ameaças
que enfrentamos hoje não são novas. Mas os avanços tecnológicos
as tornaram mais perigosas que em qualquer outra época", escreveu. Em sua
opinião, só uma superpotência pode evitar que países
párias, que não respeitam a comunidade internacional, sejam uma
fonte de perturbações globais. O poder imperial não é
necessário apenas para punir ditadores, mas também para conter epidemias,
combater a fome e erradicar organizações terroristas. A questão
que não quer calar é como Bush vai usar daqui para a frente esse
poder que foi amplificado na semana passada por sua tonitruante vitória
nas urnas. Com
reportagem de Diogo Schelp
|