Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Internacional
O segundo império

Para se reeleger, George W. Bush
incensou os fundamentalistas cristãos.
Eles vão pressionar para que o presidente
faça o país retroceder em questões como
a união civil de gays e o avanço científico


Jaime Klintowitz

 
Reuters


NESTA REPORTAGEM
Quadro: As apostas para o segundo mandato
Quadro: Semelhanças e diferenças entre impérios globais

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Eleições nos EUA

A política americana gira em torno de dois grandes partidos, representantes de lados opostos do centro ideológico. O Republicano põe ênfase em menor interferência estatal na economia, impostos baixos e políticas sociais conservadoras. O Democrata prefere presença forte do governo na economia, defende reformas progressistas e tem o apoio dos sindicatos. O que dá equilíbrio ao sistema não é a necessária tensão que os separa, mas a qualidade e o significado daquilo que eles têm em comum. Historicamente ambos se opõem a que o Estado se intrometa nos assuntos privados das pessoas. Essa garantia de liberdade individual e tolerância para com a diferença dá transcendência à experiência americana e a torna um patrimônio da humanidade, invejado e em muitos casos imitado pelas outras nações. O segundo mandato de George W. Bush encaixa-se de maneira desastrosa nessa equação. A se confirmarem as mais pessimistas análises sobre sua irrefutável vitória nas urnas, na semana passada, o Bush II tenderá a ser um período de obscurantismo de motivação religiosa, de trevas na pesquisa científica e de retrocesso nas relações sociais.

O triunfo eleitoral de Bush está ancorado em um programa que reflete o que os Estados Unidos têm de mais obscurantista, intolerante e provinciano – a extrema direita religiosa. Essa força política é formada por um contingente tenaz, obstinado, cego ao progresso, características que nada ficam a dever às crenças dos fundamentalistas islâmicos, os patronos do terrorismo no mundo. Não há nada de errado em um presidente demonstrar e incentivar a fé. O problema começa quando a religião passa a mediar as ações do Estado, moldando à sua ótica a educação, as pesquisas científicas, as guerras e até o universo individual das pessoas. Os religiosos que votaram em massa em Bush na terça-feira passada acreditam que a teoria da evolução de Charles Darwin é sacrílega por negar a Deus o papel de criador.

A EUROPA ESTARRECIDA
"Como 59 054 087 pessoas podem ser tão burras?", pergunta o jornal inglês Daily Mirror

Esses mesmos religiosos querem a proibição do aborto e da união civil entre homossexuais. Principalmente, desejam ver banidas as fontes de financiamento oficial às pesquisas com células embrionárias, uma das mais – se não a mais – promissoras fronteiras abertas pela medicina.

Em sua primeira entrevista como presidente reeleito, George W. Bush emitiu um sinal que soou como uma leve esperança de que seu fundamentalismo religioso talvez tenha sido apenas uma esperteza eleitoreira. "Os Estados Unidos são feitos por pessoas que acreditam em Deus e pessoas que não acreditam. Não ter fé não torna ninguém menos americano do que o vizinho que crê", disse Bush. A realidade da composição do Senado e da Câmara dos Deputados talvez obrigue Bush a encolher logo a abertura laica que demonstrou na primeira entrevista. A grande questão do segundo mandato é saber com que ênfase o presidente vai cumprir o programa de extravagâncias fundamentalistas que prometeu a seus eleitores religiosos. Há duas teorias a respeito – em se tratando de George W. Bush é prudente apostar algumas fichas na mais radical delas. A mais benigna é a de que Bush pretende agora uma versão amenizada do mandato anterior, o que lhe daria tempo para consertar as encrencas armadas no primeiro. Ele está às voltas com a guerra no Iraque, com um monumental déficit público, com um país ideologicamente dividido até a raiz. Em nome da união de todos os americanos, crentes ou não, ele abriria mão de impor ao país aquilo que sua fé religiosa considera mais correto. O presidente vive uma boa hora para se mostrar conciliador e tolerante. Superou a maldição do pai, que não se reelegeu apesar de ter vencido a Guerra do Golfo, em 1991. Deixou para trás também o trauma de 2000, quando ganhou a Presidência no Colégio Eleitoral apesar de ter recebido 500.000 votos populares a menos que seu adversário. A hipótese oposta é que ele se sentirá autorizado pela inequívoca vitória eleitoral – que lhe deu quase 4 milhões de votos de vantagem sobre seu oponente, John Kerry – a aprofundar seu projeto interno de transformar os Estados Unidos em uma república religiosa e a refazer o mapa político global, a começar pelo Oriente Médio.

Se Bush levar adiante o projeto do batalhão da Bíblia, ele dará uma volta completa no relógio. "A primeira democracia verdadeira da história são os Estados Unidos. Ela é produto dos valores do iluminismo, que são a inteligência crítica, a tolerância, o respeito pela evidência e a valorização das ciências seculares", escreveu Garry Wills, professor de história na Universidade Northwestern. O que ele vê nos EUA, atualmente, é um aumento do fervor fundamentalista, a fúria contra o pensamento secular, a intolerância religiosa, o medo e o ódio da modernidade – e tudo isso sendo acolhido com entusiasmo na Casa Branca. São elementos oriundos de uma visão restrita da fé e que só encontram correspondência no mundo islâmico e na Al Qaeda. Num puxão de orelha em seus conterrâneos, Wills comenta: "Os americanos se admiram, quando o restante do mundo os considera perigosos, teimosos e não reativos aos apelos internacionais".

As coisas boas que ocorrem nos Estados Unidos tendem a se espalhar pelo mundo. É o caso da economia de mercado e do apego à democracia. As ruins também. São contingências derivadas do fato de os EUA serem um império. O país tem força econômica e militar hegemônica no planeta. Por essa razão, tudo que ocorre nos Estados Unidos interessa de perto ao mundo. Talvez por isso as reações à reeleição de Bush tenham sido tão negativas na Europa. Sobre uma foto de Bush, o tablóide londrino Daily Mirror perguntou: "Como 59.054.087 pessoas podem ser tão burras?". Essa é a quantidade de votos recebida pelo presidente. O jornal francês Libération deu manchete enorme com os dizeres "L'empire empire", um trocadilho que significa: o império piorou. A exceção foi L'Express, que defendeu os pontos positivos da administração americana e acusou a Europa de não se envolver mais nas lutas mundiais dos americanos "por ser um continente pusilânime, sem exército, sem diplomacia e sem saber quais são seus reais interesses globais". Mas nem L'Express poupou o fundamentalismo doutrinário da Casa Branca de Bush: "A invasão do Iraque se justifica por motivos políticos e econômicos. Se foi motivada por religião, ela é criminosa".

Por influência da direita cristã, que tomou de assalto o partido nas últimas duas décadas, reina entre os republicanos um sentimento de que suas posições não são apenas escolhas políticas, mas questão de princípios e de moralidade pessoais. Uma pesquisa mostrou que os eleitores do presidente vão duas vezes mais à igreja que os de seu adversário democrata e que a maioria deles faz questão de um presidente que acredite em Deus. Dois em cada dez eleitores colocam os valores morais acima de qualquer outro na hora de escolher um candidato. Esse figurino serve com perfeição em Bush. Ele considera a abstinência sexual um programa de saúde pública, promove guerras em tom messiânico (contra o "eixo do mal") e adota princípios religiosos fundamentalistas para definir as políticas do Estado. "Bush não é um conservador. Ele é um radical, o líder de uma coalizão com profunda aversão aos Estados Unidos como eles são", definiu Paul Krugman, economista e colunista do New York Times, um dos mais obstinados críticos de Bush desde seu primeiro dia na Casa Branca.

AP
MAIS QUATRO ANOS
O discurso da vitória, ao lado do vice Dick Cheney e da família: "Tenho o dever de servir a todos os americanos"


A reeleição de Bush impõe ao resto do planeta mais quatro anos de agonia. Ninguém pode ficar indiferente ao Império Americano. A queda do Muro de Berlim, em 1989, simbolizou a derrota da ideologia comunista e provocou um vácuo de poder no mundo. De uma hora para outra, os Estados Unidos se viram como única superpotência global, sem um oponente à altura e com uma capacidade militar historicamente incomparável. Nenhuma outra nação teve igual domínio econômico, cultural, científico e militar em escala mundial. Qualquer abalo nesse gigante tem o potencial de provocar tremores nos outros países. Eleito em 2000, Bush parecia destinado a uma Presidência sem brilho. Tudo mudou com os atentados de 11 de Setembro de 2001. O presidente cresceu na adversidade e se mostrou incansável na tarefa de punir os terroristas e proteger os Estados Unidos – ainda que de forma pouco competente, o que acabou por alimentar o terrorismo antiamericano pelo mundo afora. No plano doméstico, recebeu um orçamento com superávit e o transformou num déficit de 500 bilhões de dólares. Bem, nem todos os americanos vêem assim. De nada adiantaram a visão poderosa das cenas de morte de soldados americanos no Iraque e as notícias de que o país não tinha as armas de destruição em massa que serviram de desculpa para Bush fazer a guerra. O que importa para o eleitor americano, escreveu o colunista Simon Schama no jornal inglês Guardian, é que "o presidente 'agiu', ou seja, pelo menos matou alguns maus elementos no Oriente Médio em resposta ao 11 de Setembro".

Bush foi o presidente que, nos últimos sessenta anos, mais perto chegou de assumir o papel imperial dos Estados Unidos. Os americanos não se sentem confortáveis com a pecha de imperialistas. Preferem que seu país seja apelidado de "única superpotência" ou "hegemonia". A supremacia americana exercita seus músculos desde o fim da II Guerra. Só nos últimos três anos, com os atentados terroristas, o país assumiu seu papel hegemônico com menos pudor. A Doutrina Bush, elaborada cinco meses antes da invasão do Iraque, sustenta-se em três premissas básicas: o direito de fazer guerras preventivas contra países que representem uma ameaça potencial aos Estados Unidos; a liberdade para agir sem precisar do endosso da ONU ou de leis internacionais; e o dever de não permitir que nenhuma outra nação alcance o poder militar americano. Isso não é necessariamente um perigo para os demais países. Autor de um fenomenal estudo sobre o poder americano, o historiador britânico Niall Ferguson sustenta que nunca o mundo precisou tanto da existência de um império mundial. "As ameaças que enfrentamos hoje não são novas. Mas os avanços tecnológicos as tornaram mais perigosas que em qualquer outra época", escreveu. Em sua opinião, só uma superpotência pode evitar que países párias, que não respeitam a comunidade internacional, sejam uma fonte de perturbações globais. O poder imperial não é necessário apenas para punir ditadores, mas também para conter epidemias, combater a fome e erradicar organizações terroristas. A questão que não quer calar é como Bush vai usar daqui para a frente esse poder que foi amplificado na semana passada por sua tonitruante vitória nas urnas.


Com reportagem de
Diogo Schelp

 
 
 
 
topovoltar