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Sociedade Uma
loira no Xingu Os índios até aceitam
que a mineira Andreia more na aldeia. Mas mulher mandar no cacique é
demais  Sandra
Brasil e Leonardo Coutinho
Fotos
Orlando Brito
 | Kotoki:
mulher branca na oca inspira crise de autoridade e boatos por todo o parque |
Há quase quatro anos, a universitária mineira Andreia Duarte,
uma loira de olhos azuis, curvas pronunciadas e espírito curioso, chegou
à aldeia dos índios camaiurás, no Parque Indígena
do Xingu, em Mato Grosso, para uma visita de dois meses. Começava ali uma
aventura rara. Apaixonada pelo ambiente antípoda ao seu, integrou-se à
vida da aldeia e fincou raízes. Nos filmes antigos de Hollywood, a história
evoluiria com a forasteira branca se apaixonando por um cavalheiro que apareceria
para resgatá-la, cenas de rituais bizarros com os nativos, algum drama
e um final feliz. No Xingu, deu um tremendo sururu, envolvendo fofocas e disputas
pelo poder. Na tribo, todos dizem que ela se casou com o cacique, inclusive o
próprio. Andreia, hoje com 24 anos, nega, usando termos antropologicamente
corretos sobre o equívoco desse tipo de relacionamento. Casada ou não,
ela mora na oca do cacique Kotoki. Ao contrário de suas outras três
mulheres, exerce grande influência sobre as decisões dele, gerando
um ambiente de tensão para os índios, é impensável
ter uma mulher "mandando" no chefe. "Os índios dizem que o Kotoki está
na mão da mulher branca", relata Paiê Kayabi, administrador regional
do Parque Indígena do Xingu, onde vivem 4.500
índios de catorze etnias em quarenta aldeias. "Só se fala nisso
no Xingu." Afinal, Andreia se casou com Kotoki?
"De jeito nenhum. Ele é como um irmão para mim", disse ela a VEJA
em entrevista em Belo Horizonte, onde esteve recentemente visitando os pais. Já
o cacique, perguntado em conversa pelo rádio se ela é mulher dele,
foi sucinto: "Sim". E as histórias sobre sua influência? "Os homens
se reúnem todos os dias para discutir os assuntos da comunidade. Quando
tratam de questões externas, de relacionamento com os brancos, eles me
chamam", afirma Andreia. "Dizem que ela se intromete em tudo", rebate o falante
Paiê. "Kotoki dá poderes para que ela mande nos outros homens da
aldeia", confirma Carlos Tavares, chefe da assessoria de imprensa da Funai. A
antropóloga paulista Carmen Junqueira, que pesquisa os camaiurás,
diz que já ouviu rumores do suposto romance, mas relativiza a situação.
"Aldeia indígena é igual a cidade pequena. Para começar uma
história dessas não custa muito", avalia. Andreia afirma que passa
os dias dedicada à escola que fundou e que nem pensa em manter um relacionamento
amoroso na aldeia. "Não que eu seja contra, mas estou no Xingu a trabalho.
Não quero entrar na família deles através de um compromisso
perigoso, como uma relação amorosa, que expõe e afeta diretamente
a estrutura da comunidade", explica. Oportunidades de conhecer os nativos a fundo
já apareceram, na forma de propostas sedutoras feitas por ao menos dois
índios. "Eles me convidavam para passear na floresta e me ofereciam presentes.
Mas recusei tudo", diz.
 | Andreia:
trabalho e dedicação aos índios, sim; romance com o cacique,
"de jeito nenhum" |
Andreia morava em Belo
Horizonte, num apartamento de três quartos, com o pai, que toca uma empresa
de exportação, e a mãe, dona de uma loja de roupas masculinas.
Tinha acabado de entrar na faculdade de artes cênicas da Universidade Federal
de Minas Gerais, quando conheceu Kotoki num daqueles eventos que encantam jovens
universitárias: um encontro sobre musicologia étnica. Interessada
na cultura indígena, conseguiu autorização para passar dois
meses na aldeia. A visita fortuita virou atividade permanente, Andreia acabou
o namoro de dois anos com um músico e se dedicou integralmente a pôr
a escola da aldeia em funcionamento. Como professora contratada pelo município
de Gaúcha do Norte, em Mato Grosso, ganha salário de 240 reais.
Fora de todo o folclore que inevitavelmente cerca sua situação,
enfrentou dificuldades inimagináveis. Em 2002, relata, "a colheita foi
ruim, uma enchente afastou os peixes e passei fome com eles. Cheguei a perder
10 quilos em um mês e meio. A gente vivia à base de mingau de água
com polvilho". Vegetariana, reaprendeu a comer peixe e frango sem talheres.
Só continua a rejeitar uma iguaria local: macaco-prego. Sente falta de
frutas e salada "Os índios dizem que somos tartarugas, porque comemos
folhas". O banho comunal no rio faz parte da rotina diária "Eles
são muito respeitosos, uns aristocratas" , mas no dia-a-dia Andreia
usa vestidos leves. "A nudez deles é natural. Eu seria uma nua tímida",
justifica. Só há um ano Andreia dominou
a língua dos camaiurás, a ponto de lhes servir de intérprete
na celebração do último Quarup, em agosto, que teve
a presença do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos,
circulou desenvolta entre índios e brancos. Não pretende ficar para
sempre na aldeia. "Planejo morar lá mais três anos e depois estudar
antropologia em São Paulo", diz. Entre seus projetos estão dois
livros, um em conjunto com os índios, sobre histórias e mitos dos
camaiurás, e outro sobre sua experiência. De casa, sente falta principalmente
"de conversar com os amigos, de beber cerveja, de dançar, de ter um quarto
para eu poder ler. Mesmo com 300 pessoas à minha volta, sinto uma solidão
cultural", afirma. Andreia não participa dos trabalhos domésticos,
que são divididos entre as índias, e até suas roupas são
lavadas pelas mulheres de Kotoki. "Cada um ajuda como pode", explica. Garante
que se dá muito bem com as outras mulheres da oca de 60 metros quadrados,
onde também vivem vinte filhos do cacique. "Elas são minhas amigas.
Tentam me convencer a depilar as sobrancelhas, porque acham que pêlo é
feio, e também implicam quando meu cabelo fica mais crespo. Mas me consideram
uma irmã", diz. Ciúme não existe, insiste, até porque,
a seu ver, não há motivo algum: "Não sou uma Pocahontas ao
contrário". |