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Consumo A
reinvenção da Melissa A Grendene comemora
o sucesso da metamorfose da sandália de plástico popular
e barata em acessório da moda  Bel
Moherdaui, de Farroupilha Reuters
 | | Xuxa,
com um modelo dos Campana: desfile na abertura do pregão da bolsa de valores |
Na fábrica, o cheiro de cola e solvente se mistura ao aroma de tutti-frutti
proveniente dos tonéis de PVC granulado. Plástico com cheiro de
doce? O recurso é utilizado justamente para atenuar o insuportável
odor natural do plástico. Aquecido a 160 graus Celsius, centrifugado a
130 rotações por minuto e injetado na fôrma de uma máquina
italiana especialmente adaptada, esse plástico perfumado dará origem
ao objeto que toda adolescente tem hoje no armário: um par de Melissa.
Ou vários. Neste momento enfeitam as prateleiras das lojas (todas elas
butiques muito bem selecionadas) 24 modelos da sandália de plástico
coloridíssimo criada em 1979. Como sua prima e rival, as Havaianas, a Melissa
virou um caso clássico de produto de origem modesta que consegue subir
de posição na escala evolutiva, tanto por artifícios de marketing
quanto pelo processo de constante aprimoramento. A Melissa é fabricada
pela empresa gaúcha Grendene, dirigida pelos gêmeos Pedro e Alexandre,
que começou produzindo telas de plástico para garrafão de
vinho barato, aventurou-se pelo mundo perigoso dos sapatinhos de plástico
e, no fim de outubro, lançou ações na bolsa de valores. Com
Xuxa, sua primeira marca licenciada, como garota-propaganda, a empresa tem no
portfólio outras quatro divisões de sandálias de plástico
e uma penca de associações com nomes famosos, incluindo a Ipanema
Gisele Bündchen e as que levam a assinatura de Adriane Galisteu e Ivete Sangalo.
Divulgação
 | | Chantily,
da coleção de verão 2005: a cada seis meses, um novo tema e novos desenhos |
Mas
é a Melissa, a primogênita com 5% do faturamento total de
1 bilhão de reais da empresa , que mantém a aura de marca
com vida própria. Do esforço concentrado para vender Melissa com
nome, sobrenome e prestígio saíram parcerias com estilistas badalados
como Alexandre Herchcovitch e Marcelo Sommer, o artista plástico Romero
Britto, a designer inglesa J. Maskrey e, mais recentemente, com os irmãos
Campana. Expoentes do design nacional, com forte vocação experimental,
os Campana criaram a complicada trama de plástico usada em um modelo de
bolsa e dois de sandália (como o calçado por Xuxa na foto acima),
que exigiu muito jogo de cintura dos técnicos da empresa e conseguiu surpreendente
aprovação do público. "Alguns modelos demoram mais de dois
anos para ser elaborados", conta o gerente de pesquisa e desenvolvimento Edson
Matsuo. Nada é descartado, nem os protótipos não aprovados
fica tudo catalogado em um banco de dados que já conta com mais
de 7.000 sandálias. "O produto tem de ser bom
para a época, não antes, nem depois. Pode não dar certo agora
e ser usado mais para a frente", diz Matsuo, que já está debruçado
sobre a coleção de verão 2006. Com ela será apresentado
o mais novo colaborador da marca: Karim Rashid, designer egípcio radicado
em Nova York, considerado o príncipe do plástico. Logo antes, na
coleção de inverno, serão lançadas a primeira bota
da marca e mais uma peça dos Campana um tênis.
Liane
Neves
 | | Saindo
do forno: em 2003, recorde de 3 milhões de pares |
Cópia
de uma sandália tradicional usada por pescadores da Riviera Francesa, a
Melissa fez carreira nos pés das crianças na década de 80
(estão gravados na memória coletiva os enjoativos comerciais da
"melissinha"). Os anos passaram, a consumidora cresceu e, em 1999, a marca deu
a guinada para cima. "No começo, foi de fora para dentro: percebemos que
a sandália agradava à turma bem informada sobre moda e vendia mais
em lojas de shopping do que nas populares", diz o gerente de marketing, Paulo
Pedó Filho. A Grendene aproveitou a chance para reinventar a sandália
como grife de moda. Cada coleção tem um tema utilizado das
embalagens aos cartões de visita (também de plástico, claro)
da equipe , escolhido por um comitê que inclui um grupo da Grendene,
publicitários, pesquisadores de tendência, um arquiteto e uma jornalista
de moda. Hoje, as sandalinhas que custavam 25 reais no supermercado mais próximo
podem chegar a 110 reais na Contemporâneo, uma loja chique do Rio de Janeiro.
"Não queremos ser o sapato que mais vende, mas um acessório de moda",
explica Pedó. Essa é também a estratégia para comercialização
nos quarenta países onde a Melissa é encontrada apenas em lojas
conceituais. Em 2004, a previsão de crescimento das vendas é de
gente grande para a velha melissinha: 30% a mais que o recorde de 2003, de 3 milhões
de pares, metade aqui, metade no exterior. |