Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Comércio exterior
Seguro contra crises externas

Salto do comércio externo protege a
economia, mas há muito que avançar


Chrystiane Silva

 
Egberto Nogueira
Leo Caldas/Titular

Loja de importados em São Paulo (à esq.) e delicatessen em Fortaleza (à dir.): vendas em alta

O Brasil ainda está muito atrás dos Tigres Asiáticos quando o assunto é abertura comercial, mas caminha para ampliar sua ligação econômica com o mundo. Em outubro, as compras brasileiras no exterior registraram um recorde histórico para um único mês e chegaram a quase 6 bilhões de dólares. Até o fim do ano somarão 62 bilhões. As exportações também continuam crescendo e devem encerrar o ano em 95 bilhões de dólares, um patamar nunca atingido pelo país. Para o cálculo do coeficiente de abertura comercial de uma nação, os economistas somam as exportações com as importações e dividem pelo valor do produto interno bruto (PIB). No caso brasileiro, esse coeficiente era de 15% na década passada e deve chegar a 29% neste ano. O que chama a atenção dos economistas é o fato positivo de as exportações e as importações crescerem simultaneamente. Ou seja, o aumento do fluxo de comércio está ocorrendo de forma equilibrada. O país tem obtido saldos comerciais mesmo com o aumento das importações, o que exige da indústria nacional um esforço permanente de modernização para enfrentar a competição externa.

Para a economia brasileira sobram outros estímulos para expandir o fluxo de comércio. As exportações levam à criação de novos empregos, promovem o aumento da renda dos trabalhadores e impulsionam o crescimento. Além disso, o país fica menos vulnerável a crises externas e ataques especulativos. Isso porque as exportações geram dólares, o que diminui a dependência de investimentos estrangeiros e permite maior estabilidade cambial. Dólares em caixa também afastam o risco de um calote na dívida externa e acalmam os investidores internacionais. Um indicador da solvência de um país é medido pelo total de exportações necessário para honrar os compromissos externos. Neste ano, o Brasil precisaria de uma vez e meia o valor de suas exportações para pagar os juros e parcela do principal da dívida. Há seis anos, era preciso ter o equivalente a 3,6 vezes.

A dúvida que paira entre os analistas econômicos é saber se essa abertura e a intensificação do comércio com outros países são consistentes. A resposta parece ser sim. "É a primeira vez que a economia brasileira assume uma nova estratégia de crescimento baseada na abertura comercial", diz Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-presidente do Banco Central. Desde a década de 50, a marca da política econômica foi priorizar a substituição das importações por produtos nacionais. Foi só no início da década de 90, durante o governo do ex-presidente Fernando Collor de Melo, que a situação começou a mudar. Collor foi o responsável pela liberalização das importações por meio da redução das barreiras tarifárias. As alíquotas médias de importação recuaram de 60% para 12%. Já o salto das exportações ocorreu após a desvalorização cambial, em 1999. Desde então as vendas ao exterior não pararam de crescer. O fraco desempenho da economia nacional e o aumento do comércio mundial garantiram às companhias a venda de seus produtos no exterior. "O protecionismo à indústria acabou. A reversão da abertura da economia só ocorrerá com uma crise internacional", afirma Fernando Cardim de Carvalho, professor de macroeconomia do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os resultados são bons, mas ainda é cedo para comemorar. Há muito que fazer para garantir a consolidação da abertura comercial. A estabilidade da política macroeconômica e da cotação do dólar em relação ao real é essencial para favorecer tanto exportações quanto importações. Sem previsibilidade não existem negócios. É preciso conquistar novos parceiros e reduzir as alíquotas de importação. O ritmo lento das negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) representa um entrave. "Apenas o aumento do comércio não reflete uma verdadeira abertura", diz o economista Paulo Nogueira Batista Jr. O México é um típico caso de sucesso após o ingresso em um bloco comercial. Desde que o país passou a fazer parte do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), nos anos 90, as exportações triplicaram. O aumento do fluxo comercial levou os mexicanos a sair rapidamente da crise de 1994 e o crescimento médio anual voltou à casa dos 3%. A China é outro exemplo de país que vem tirando proveito do processo sistemático de liberalização comercial. Os chineses exportaram 465 bilhões de dólares no ano passado e compraram 451 bilhões em mercadorias de outros países. Em dez anos, as exportações chinesas cresceram mais de 500%. A China é um país de dimensões continentais, assim como o Brasil, e que consegue crescer 9% ao ano, com uma relação entre comércio internacional e PIB da ordem de 65%. "Curiosamente, desde o pós-guerra as economias que mais cresceram foram aquelas com maior abertura comercial", diz Roberto Gianetti da Fonseca, ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior da Presidência da República. O Brasil está no caminho certo, mas para obter níveis de abertura comercial nos padrões asiáticos ainda vai demorar alguns anos.

 

 

 
 
 
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