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Comércio
exterior Seguro contra crises externas
Salto do comércio externo
protege a economia,
mas há muito que avançar  Chrystiane
Silva
Egberto
Nogueira
 | Leo
Caldas/Titular
 | Loja
de importados em São Paulo (à
esq.) e delicatessen em Fortaleza (à dir.): vendas em alta |
O Brasil ainda está muito atrás dos Tigres Asiáticos quando
o assunto é abertura comercial, mas caminha para ampliar sua ligação
econômica com o mundo. Em outubro, as compras brasileiras no exterior registraram
um recorde histórico para um único mês e chegaram a quase
6 bilhões de dólares. Até o fim do ano somarão 62
bilhões. As exportações também continuam crescendo
e devem encerrar o ano em 95 bilhões de dólares, um patamar nunca
atingido pelo país. Para o cálculo do coeficiente de abertura comercial
de uma nação, os economistas somam as exportações
com as importações e dividem pelo valor do produto interno bruto
(PIB). No caso brasileiro, esse coeficiente era de 15% na década passada
e deve chegar a 29% neste ano. O que chama a atenção dos economistas
é o fato positivo de as exportações e as importações
crescerem simultaneamente. Ou seja, o aumento do fluxo de comércio está
ocorrendo de forma equilibrada. O país tem obtido saldos comerciais mesmo
com o aumento das importações, o que exige da indústria nacional
um esforço permanente de modernização para enfrentar a competição
externa. Para a economia
brasileira sobram outros estímulos para expandir o fluxo de comércio.
As exportações levam à criação de novos empregos,
promovem o aumento da renda dos trabalhadores e impulsionam o crescimento. Além
disso, o país fica menos vulnerável a crises externas e ataques
especulativos. Isso porque as exportações geram dólares,
o que diminui a dependência de investimentos estrangeiros e permite maior
estabilidade cambial. Dólares em caixa também afastam o risco de
um calote na dívida externa e acalmam os investidores internacionais. Um
indicador da solvência de um país é medido pelo total de exportações
necessário para honrar os compromissos externos. Neste ano, o Brasil precisaria
de uma vez e meia o valor de suas exportações para pagar os juros
e parcela do principal da dívida. Há seis anos, era preciso ter
o equivalente a 3,6 vezes.
A dúvida que paira entre os analistas econômicos é saber se
essa abertura e a intensificação do comércio com outros países
são consistentes. A resposta parece ser sim. "É a primeira vez que
a economia brasileira assume uma nova estratégia de crescimento baseada
na abertura comercial", diz Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial
da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-presidente do Banco
Central. Desde a década de 50, a marca da política econômica
foi priorizar a substituição das importações por produtos
nacionais. Foi só no início da década de 90, durante o governo
do ex-presidente Fernando Collor de Melo, que a situação começou
a mudar. Collor foi o responsável pela liberalização das
importações por meio da redução das barreiras tarifárias.
As alíquotas médias de importação recuaram de 60%
para 12%. Já o salto das exportações ocorreu após
a desvalorização cambial, em 1999. Desde então as vendas
ao exterior não pararam de crescer. O fraco desempenho da economia nacional
e o aumento do comércio mundial garantiram às companhias a venda
de seus produtos no exterior. "O protecionismo à indústria acabou.
A reversão da abertura da economia só ocorrerá com uma crise
internacional", afirma Fernando Cardim de Carvalho, professor de macroeconomia
do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Os resultados são bons, mas ainda é cedo para comemorar. Há
muito que fazer para garantir a consolidação da abertura comercial.
A estabilidade da política macroeconômica e da cotação
do dólar em relação ao real é essencial para favorecer
tanto exportações quanto importações. Sem previsibilidade
não existem negócios. É preciso conquistar novos parceiros
e reduzir as alíquotas de importação. O ritmo lento das negociações
para a formação da Área de Livre Comércio das Américas
(Alca) representa um entrave. "Apenas o aumento do comércio não
reflete uma verdadeira abertura", diz o economista Paulo Nogueira Batista Jr.
O México é um típico caso de sucesso após o ingresso
em um bloco comercial. Desde que o país passou a fazer parte do Acordo
de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), nos anos 90, as exportações
triplicaram. O aumento do fluxo comercial levou os mexicanos a sair rapidamente
da crise de 1994 e o crescimento médio anual voltou à casa dos 3%.
A China é outro exemplo de país que vem tirando proveito do processo
sistemático de liberalização comercial. Os chineses exportaram
465 bilhões de dólares no ano passado e compraram 451 bilhões
em mercadorias de outros países. Em dez anos, as exportações
chinesas cresceram mais de 500%. A China é um país de dimensões
continentais, assim como o Brasil, e que consegue crescer 9% ao ano, com uma relação
entre comércio internacional e PIB da ordem de 65%. "Curiosamente, desde
o pós-guerra as economias que mais cresceram foram aquelas com maior abertura
comercial", diz Roberto Gianetti da Fonseca, ex-secretário executivo da
Câmara de Comércio Exterior da Presidência da República.
O Brasil está no caminho certo, mas para obter níveis de abertura
comercial nos padrões asiáticos ainda vai demorar alguns anos. |