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Brasil Militares
derrubam civilParece coisa da ditadura. Não
é. A idéia de que a força militar tem de estar sob poder civil ainda não
é bem-aceita pelos generais no Brasil  Otávio
Cabral
Joedson Alves/AE
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| Lula, o vice e o ex: com a indicação de José
Alencar, governo tem ministro que não pode ser demitido |
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O episódio da
demissão do diplomata José Viegas do Ministério da Defesa,
que será substituído pelo vice-presidente José Alencar, deixa
claro que os militares brasileiros ainda não se civilizaram totalmente
ou seja, ainda não conseguiram aceitar o fato incontestável
de que o poder emana dos civis e que eles, militares, são apenas o "povo
em armas", como alguns gostam de se autodefinir. A saída de José
Viegas aconteceu como conseqüência tardia da nota do Exército
que, divulgada à imprensa à revelia do ministro, justificava a morte
do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura militar em 1975, uma
afronta escancarada à democracia. Quando a tal nota saiu, Viegas ficou
irritado, quis demitir o comandante do Exército, general Francisco Albuquerque,
mas teve de se contentar com uma retratação pública, na qual
o general lamentava a morte de Herzog. Na época, o general disse que estava
em viagem ao exterior e, por isso, não tomou conhecimento da nota com antecedência.
Viegas sempre soube que isso era história da carochinha. O general estava
hospedado em um hotel em Nova York, recebeu o texto por fax e, depois de lê-lo
atentamente, telefonou para o comandante do Centro de Comunicação
Social do Exército, general Antônio Gabriel Esper, e autorizou a
publicação da nota.
Os militares
conseguiram demitir José Viegas, quando quem deveria ter a cabeça
cortada era o comandante do Exército, por uma de duas razões: ou
porque autorizou a publicação de uma nota estapafúrdia ou,
então, porque não o consultaram sobre um tema tão delicado,
sinal, nesse caso, de que não teria controle sobre seus comandados, aceitando
a subversão da hierarquia. Como o Brasil realizou uma transição
pacífica entre a ditadura e a democracia, ao contrário de países
como a Argentina, onde os militares foram colocados no banco dos réus,
os militares brasileiros não chegaram a ser alvo de aberta hostilidade
da sociedade civil, preservando um enorme grau de respeito. Ocorre que, volta
e meia, esse atributo é usado para questionar a autoridade civil, como
se o país ainda vivesse nas trevas da ditadura. Élcio Álvares,
o primeiro civil a ocupar o Ministério da Defesa, criado em 1999, chegou
a ser publicamente censurado pelo então comandante da Aeronáutica,
Walter Bräuer. Álvares estava envolvido em denúncias sobre
narcotráfico, o que obviamente não é recomendável
para nenhum ministro. Por outro lado, não cabia aos seus subordinados ficar
divulgando lições de moral sobre o chefe. Bräuer foi demitido,
mas só depois que o presidente Fernando Henrique deu seu sinal verde.
"O problema é que nenhum ministro da Defesa até
hoje teve autonomia no cargo. Nenhum deles teve poder para demitir os comandantes
militares. Ainda não temos tradição na caserna de subordinação
aos civis", analisa David Fleischer, cientista político da Universidade
de Brasília (UnB). Agora, ao colocar o vice-presidente no Ministério
da Defesa, o presidente Lula pode ter dado um xeque-mate nos militares. Por ocupar
um cargo eletivo, o vice-presidente não é demissível do governo.
Assim, sua liderança sobre os militares não pode ser contestada
sem que isso acarrete grave crise política, já que constitucionalmente
o vice é o substituto natural do presidente da República em suas
ausências temporárias ou definitivas. Como a Constituição
determina também que o presidente da República é o comandante
supremo das Forças Armadas, Alencar será sempre o chefe dos generais
seja como ministro, seja como substituto eventual do presidente Lula. Mas,
como toda jogada de xadrez, a escolha de Alencar abre certos flancos. O presidente
Lula criou para si o inconveniente do subordinado intocável. Se, por hipótese,
José Alencar se sair mal na Defesa e precisar ser afastado do cargo, com
que autoridade assumirá o Palácio do Planalto nas ausências
do titular? A sociedade, nesse caso, teria de ser convidada a compreender que
o vice-presidente não é bom para dirigir as Forças Armadas,
mas o é para administrar o Brasil... A situação
é tão complexa que nunca o vice-presidente da República assumiu
em definitivo o comando de um ministério. No governo tucano, o vice Marco
Maciel chegou a ser cogitado para o Ministério da Defesa, dadas suas boas
relações com os militares, mas o presidente Fernando Henrique, na
época, não quis se arriscar a nomear um ministro indemissível
mesmo levando em conta que Marco Maciel, com seu jeito cordato, jamais,
em oito anos como vice, levantou a voz para fazer qualquer crítica ou reparo
ao governo em público. José Alencar, ao contrário, é
um vice mais falante. É um empresário de sucesso, um político
novato e uma personalidade um tanto explosiva, pelo menos quanto à elevada
taxa de juros praticada pelo Banco Central, contra a qual já se manifestou
reiteradas vezes. A brincadeira em Brasília, na semana passada, dizia que,
na próxima reunião do Comitê de Política Monetária,
José Alencar vai mandar cercar o prédio do Banco Central com tropas
do Exército e, a bordo de um helicóptero da Aeronáutica,
com alto-falante à mão, vai berrar aos membros do Copom: "Vocês
escolhem: ou baixam os juros ou levam chumbo!". |