Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Eleições
A solidão do senador

Criticado por colegas de legenda, nos
bastidores e publicamente,
Suplicy
amarga o
isolamento no PT


Thaís Oyama


Ana Araujo
O senador Eduardo Suplicy, do PT: as bases o adoram, a cúpula o odeia

O senador Eduardo Suplicy é hoje, no PT, aquela figura que se convencionou chamar de "desmancha-rodinhas": é ele chegar que a turma se dispersa. Desde 2002, quando – desafiando Lula e os caciques do partido – insistiu (ignominioso pecado) na realização de prévias para a escolha do candidato da legenda à Presidência da República, o senador caiu em desgraça junto à cúpula petista e passou a ser alvo do seu desprezo velado. Na semana passada, as críticas de bastidores se transformaram em hostilidade explícita. O grupo da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, por meio de um obscuro secretário da administração municipal, atacou publicamente o senador e atribuiu a ele parte da culpa pela derrota da campanha paulistana. À parte um afago do presidente Lula, as críticas dirigidas a Suplicy foram recebidas com um estrondoso silêncio pelo comando do PT. Cercado por 6,7 milhões de votos, o senador é hoje uma ilha dentro do partido.


Sergio Lima/Folha Imagem
O ministro Dirceu, que quer a "caça aos infiéis": inimigo do senador "para o resto da vida"

Até o momento, as conseqüências desse isolamento limitam-se ao campo pessoal. Suplicy acostumou-se, por exemplo, a ouvir piadinhas de companheiros de sigla sempre que dá início a um de seus longos discursos no Senado – e a ser recebido com frieza por petistas poderosos em eventos aos quais comparece. Foi assim no último debate entre os candidatos à prefeitura de São Paulo, organizado pela Rede Globo às vésperas do segundo turno das eleições municipais. À chegada do senador, os três ministros do governo federal então presentes à platéia limitaram-se a cumprimentá-lo com um aceno de cabeça ou um rápido aperto de mão. O chefe da Casa Civil, José Dirceu, ao avistá-lo, chegou a dizer, em tom irônico, para todo mundo ouvir: "Vamos combater os infiéis!" Dirceu autonomeou-se "inimigo para sempre" do senador desde que ele tomou a defesa da colega Heloísa Helena, expulsa do PT por desobedecer a uma orientação da bancada do partido. Dirceu chegou a afirmar a mais de um interlocutor que faria "de tudo para Suplicy não sair mais para o Senado". A possibilidade de a ameaça do ministro se concretizar é a primeira conseqüência do isolamento do senador no plano político. O PT pretende realizar, pela primeira vez em sua história, eleições prévias para definir o nome que irá disputar uma vaga ao Senado em 2006. O procedimento, perfeitamente legítimo e democrático, tem, nesse caso, dois outros objetivos que não o de oferecer aos filiados a chance de escolher quem irá representar a sigla nas urnas. O primeiro é fazer com que Suplicy pague na mesma moeda o que a nomenklatura petista considera ter sido um "atrevimento" de sua parte: questionar a autoridade de Lula ao insistir em disputar com ele a vaga de candidato à Presidência da República. O segundo seria oferecer uma alternativa para o futuro político de Marta, derrotada nas eleições pelo tucano José Serra.

A prefeita já afirmou que não está interessada em assumir um ministério no governo – entende que o posto lhe oferece mais ônus do que bônus. A presidência do PT, outra alternativa cogitada, a fortaleceria internamente, mas não seria a melhor opção para o partido: Marta não tem perfil para o cargo, que exige alguém mais flexível e conciliador. A terceira opção, disputar o governo do Estado em 2006, esbarra em sua derrota para a prefeitura e na firme disposição do senador Aloizio Mercadante de ficar com a vaga. A candidatura ao Senado, portanto, surge para a prefeita como uma opção atraente. Para ter chances de conquistá-la, no entanto, Marta precisaria "desconstruir" Suplicy – que, se não é exatamente popular entre os manda-chuvas do PT, é amado pelas bases do partido, de cujo voto depende o resultado das prévias. Enfraquecer o senador foi exatamente o que tentou fazer o obscuro secretário da prefeita com as críticas veiculadas na semana passada pelo jornal Folha de S. Paulo. Tanto aliados como adversários de Marta afirmam que partiu dela a idéia de usar o seu secretário, um áulico típico, para desferir os ataques a Suplicy. Eles funcionaram também como uma vingança pessoal da prefeita, que ficou furiosa com a entrevista dada a VEJA pela jornalista Mônica Dallari, namorada do senador. Na entrevista, publicada no mês passado, Mônica dizia, entre outras coisas, que a campanha de Marta havia tomado um rumo equivocado ao se aliar ao ex-prefeito Paulo Maluf (PP) e adotar uma postura agressiva em relação a Serra. Diante da reação negativa do partido às declarações, Suplicy saiu em defesa da namorada e disse concordar com ela. Desde então a prefeita não fala mais com o ex-marido.

Suplicy é um dos fundadores do PT e teve atuações históricas no partido: foi co-autor do pedido de formação da CPI que levou ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor e autor do requerimento que originou a CPI do Orçamento – responsável pela primeira limpeza maciça do Legislativo. Por essas e outras, o partido deve-lhe gratidão – e, sobretudo, respeito. Marta também. Se a prefeita consolidou sua carreira política com base nos próprios méritos, alavancou-a à custa do marido senador. O fato de ter mantido seu sobrenome, mesmo depois de se casar com o fanco-argentino Luis Favre, é prova da força da figura pública de Suplicy. O casal se separou em 2001. As divergências expostas agora consolidam também o seu divórcio político. Além de uma eventual disputa pela candidatura ao Senado, outro enfrentamento se avista. Suplicy ainda acalenta o sonho de lançar-se à Presidência da República em 2010. "Se eu estiver com boa saúde, e espero estar, tenho consciência de que, ao lado de tantos outros excelentes valores do partido, posso ser um candidato à Presidência pelo PT", disse. É o mesmo sonho de Marta.

 

Por que ele irrita

Algumas das iniciativas do senador
que desagradaram a caciques do PT

Defendeu a CPI do Lixo
Em 2001, o PSDB pediu a abertura de uma CPI para investigar denúncias de irregularidades na contratação de empresas de lixo por parte da prefeitura petista em São Paulo. Suplicy se declarou favorável à iniciativa.

Disputou a candidatura à Presidência
O senador insistiu na idéia de que o PT deveria realizar prévias para definir quem seria seu candidato à Presidência da República em 2002: ele ou Lula. Obteve 16% dos votos, contra 84% de Lula.

Testemunhou a favor da senadora Heloísa Helena
Em 2003, a senadora foi expulsa do PT por ter votado contra a reforma da Previdência. No processo que antecedeu a expulsão, Suplicy depôs em seu favor. A iniciativa enfureceu, particularmente, o ministro José Dirceu.

Quis que Dirceu falasse sobre Waldomiro no Congresso
Dias depois do estouro do caso Waldomiro, no início do ano, Suplicy disse que, em nome da transparência, o ministro José Dirceu deveria ir ao Congresso "dar explicações sobre as denúncias de corrupção que envolvem seu ex-assessor".

Apoiou Luizianne quando o PT a rejeitava
Nas últimas eleições, quando o PT ainda apoiava o candidato à prefeitura de Fortaleza Inácio Arruda, do PC do B, Suplicy gravou mensagens de apoio à petista Luizianne.

 
 
 
 
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