Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Eleições
Cai um curinga

Empresário no Amapá fazia de tudo num
esquema que fraudou dezessete obras


Malu Gaspar

Fotos Dida Sampaio/AE
O empresário Pinheiro Corrêa, ao ser preso pela Polícia Federal: talento para jogar nas onze posições

A Polícia Federal fez duas operações de vulto na semana passada. Em São Paulo, numa batida no escritório da mulher de Law Kin Chong, o maior contrabandista do país já preso, os agentes federais acharam 2 milhões de reais em esmeraldas. O escritório fica no Shopping 25 de Março, em pleno centro de São Paulo. Em outra operação, a Polícia Federal desbaratou uma quadrilha que fraudou as licitações de dezessete obras públicas, todas no Estado do Amapá. Entre os suspeitos, 25 dos quais estavam presos na sexta-feira passada, há peixes graúdos. Por exemplo, o prefeito de Macapá, João Henrique Pimentel, do PT, e o prefeito de Santana, Rosemiro Freires, do PL. Macapá e Santana são as duas maiores cidades do Amapá e concentram 76% da população do Estado. Há, ainda, suspeita em torno da participação de quatro deputados federais amapaenses – o que equivale à metade da bancada do Amapá. Também aparecem no rol de suspeitos um ex-senador, o pedetista Sebastião Rocha, e um suplente de senador, o tucano Fernando de Souza Flexa Ribeiro, escalado para assumir o mandato em janeiro próximo, já que o titular, Duciomar Costa, acaba de ser eleito prefeito de Belém.

O ex-senador Sebastião Rocha, ao ser preso: um dos peixes graúdos

Enquanto a quadrilha de Law Kin Chong tem causado espanto pela sua dimensão, no caso do Amapá o que chama atenção é o notável papel desempenhado por uma pessoa – o empresário Luiz Eduardo Pinheiro Corrêa. Nas escutas telefônicas feitas pela PF com autorização judicial, às quais VEJA teve acesso, constata-se que Pinheiro Corrêa é como um jogador de futebol capaz de funcionar talentosamente nas onze posições. Dono da construtora Método Norte, que abocanhou dezesseis das dezessete obras sob suspeita, Pinheiro Corrêa fazia de tudo. Ele articulava com os deputados federais a apresentação de emendas ao Orçamento da União destinando dinheiro às obras que ele próprio planejava junto com os prefeitos. Em seguida, com empresários amigos e funcionários das prefeituras, concebia o edital de licitação. Em Brasília, tinha esquemas eficientes para liberar os recursos, como o pagamento de propinas, mesmo quando as prefeituras, endividadas com a União, estavam proibidas de receber verbas federais.

Por fim, Pinheiro Corrêa, junto com prefeitos e empresários, definia como o dinheiro seria usado, se nas obras ou fora delas. Numa conversa telefônica, Pinheiro Corrêa, que é sócio de uma revendedora de carros, deixa o prefeito João Henrique Pimentel levar um automóvel de 27.000 reais sem pagar nem entrada – dinheiro que o empresário diz que retiraria de uma obra pública qualquer sob seu comando. Somados os orçamentos das dezessete obras fraudadas, chega-se a 103 milhões de reais – volume correspondente a 10% de todo o orçamento do Estado do Amapá –, mas a Polícia Federal não sabe dizer quanto exatamente dessa quantia foi parar nas mãos dos fraudadores.

 
 
 
 
topovoltar