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Eleições Da
cidade grande para o interior Pela
primeira vez em uma eleição, o PT encolhe nas metrópoles,
ao mesmo tempo que incha nos grotões  Otávio
Cabral
Onmarcos
Michael/JC Imagem
 | | Os
petistas comemoram uma vitória: cena cada vez mais rara nos maiores centros urbanos
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Encerrada a eleição
municipal, os dirigentes do PT têm a lamentar as derrotas em São
Paulo, a maior cidade do país, e em Porto Alegre, cuja prefeitura está
sob comando petista há dezesseis anos. Em compensação, o
PT pode comemorar a conquista da prefeitura de nove capitais, além do aumento
de 120% no número de prefeitos no país. Se o balanço da eleição
se limitasse a esse inventário de perdas e ganhos, os dirigentes petistas
não teriam muito problema em avaliar o resultado das urnas. Quando se analisa
com mais profundidade a anatomia das vitórias e derrotas, porém,
descobre-se que o PT está começando a tomar uma feição
inédita em sua história, a de ser um partido contestado nos grandes
centros e forte no interior. Dos mais de 400 prefeitos petistas eleitos agora,
quase 300 vão administrar cidades com menos de 20.000
eleitores. Isso quer dizer que 72% dos prefeitos do PT estão nos menores
municípios do Brasil. É uma mudança crítica em relação
ao quadro saído das urnas de 2000, quando o PT ainda não conquistara
o Palácio do Planalto. Naquele ano, todos os prefeitos petistas eleitos
para governar cidades do interior chegavam a 56% do total.
Essa migração de votos tem diversos significados. Um deles se refere
às circunstâncias que levaram o PT a se enfraquecer nas grandes concentrações
urbanas. Perder fôlego na capital e aumentar os músculos no interior
é típico do metabolismo de todo partido que detém o governo
federal. Foi assim com a antiga Arena, o partido de sustentação
do governo militar (1964-1985). Foi assim com o PSDB de Fernando Henrique Cardoso.
Está sendo assim com o PT de Lula. "Todo partido que detém o poder
federal e o utiliza para alavancar eleições tende a se transformar
em um Arenão", avalia Lúcia Hipólito, cientista política,
da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. As raízes
do fenômeno, segundo a pesquisadora, seriam bem conhecidas: o uso de programas
assistencialistas e as alianças que contrariam princípios éticos
consagrados garantem penetração no interior, mas implicam desgaste
certo entre os formadores de opinião e os eleitores das maiores cidades.
"Mais que simples troca geográfica, o que ocorre é o precoce envelhecimento
político do partido nascido para reformar o país; não se
expandiu a modernidade, o atraso a engoliu", escreveu no jornal Folha de S.
Paulo o sociólogo Francisco de Oliveira, fundador do PT e ex-petista.
 | | Lula:
seu caminho rumo à reeleição ficou um pouco mais espinhoso |
O termo "arenização", usado por Lúcia Hipólito, é
um pouco forte para explicar o atual momento do partido de Lula. O PT, apesar
da interiorização, ainda é uma sigla com marca registrada
urbana. Deixou de governar cidades como São Paulo, Porto Alegre e Belém,
mas conseguiu manter sob seu comando a prefeitura de Belo Horizonte e do Recife
e conquistou a administração de Fortaleza, ainda que com uma candidata,
Luizianne Lins, abertamente hostilizada pela cúpula petista. Portanto,
acendeu-se para o PT a luz amarela, um alerta de que o partido pode estar enveredando
por um caminho que nada tem a ver com sua trajetória histórica.
Também é exagero de análise imaginar que o resultado contrário
nas urnas das grandes cidades aponta para uma derrota de Lula na eleição
presidencial de 2006. Para tomar um exemplo recente que desmente a tese, Fernando
Henrique Cardoso elegeu-se duas vezes presidente da República sem que seu
partido tivesse chegado ao poder nas maiores capitais brasileiras. Outro argumento
de natureza diferente desacredita o exercício de oraculismo com base no
resultado das últimas eleições: o melhor juízo indica
que os eleitores votaram nos prefeitos pensando primordialmente em questões
locais e menos na sigla pela qual eles se apresentaram.
No Estado de São Paulo, além da própria capital, o PT perdeu
a prefeitura de Campinas, Piracicaba e Ribeirão Preto, e não conseguiu
ganhar em São José dos Campos, Sorocaba, Jundiaí e Santos
todas cidades importantes nas quais a cúpula do partido dava a vitória
como certa. "O partido se burocratizou demais, trocou a tradicional militância
aguerrida por boca-de-urna paga e se igualou aos outros partidos. Se não
tomarmos providências, perderemos o governo paulista em 2006 para qualquer
nome que o governador Geraldo Alckmin lançar", alarma-se uma das principais
estrelas do PT paulista, que pede para não ser identificada. No Rio Grande
do Sul, onde o partido apostava ter o melhor desempenho, as derrotas também
se acumularam. Além de Porto Alegre, os petistas perderam nas principais
cidades do Estado: Canoas, Caxias do Sul, Novo Hamburgo e Pelotas. É uma
sucessão de fracassos apenas dois anos depois de ter perdido o governo
gaúcho para o PMDB, com o lançamento de um candidato azarão
o hoje governador Germano Rigotto. "Precisamos restabelecer o diálogo
com a classe média", afirma Tarso Genro, ministro da Educação
e ex-prefeito de Porto Alegre. "O
PT tem uma trajetória diferente do antigo MDB ou da Arena porque, apesar
de crescer nos pequenos municípios, continua forte nos grandes centros",
analisa o cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário
de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). "Nesse sentido, o PT está passando
por um processo semelhante ao que ocorreu com o PSDB." Quando Fernando Henrique
Cardoso era presidente da República, o PSDB também sofreu um emagrecimento
nas maiores cidades, acompanhado de uma certa interiorização
tanto que seu número de prefeitos saltou de 300 para 900, com o grosso
dos tucanos elegendo-se para administrar pequenas prefeituras. Agora, deslocado
para a oposição, o PSDB está fazendo o percurso inverso.
Na eleição municipal de 2000, o PSDB comandava apenas três
capitais Teresina, Vitória e João Pessoa. Agora, estará
no comando de cinco prefeituras, incluindo a de São Paulo e a de Curitiba,
que a partir do ano que vem será administrada pelo tucano Beto Richa. Em
2000, menos de 30% dos eleitores tucanos viviam em cidades de porte, com mais
de 150.000 eleitores. Na última eleição,
esse porcentual já passou de 50%. Filipe
Araujo/AE
 | | Serra
festeja a vitória em São Paulo: na oposição, tucanos crescem nas cidades e viram
rival número 1 dos petistas |
"O
eleitorado dos grandes centros é mudancista, oposicionista, enquanto o
das cidades do interior é conservador, pois depende mais do poder público.
Isso explica, em parte, o sucesso que tivemos nesta eleição em cidades
como São Paulo e Curitiba", diz o deputado Walter Feldman, do PSDB paulista,
um dos coordenadores da campanha vitoriosa de Serra. O resultado adverso da eleição
levou o presidente Lula a reunir-se, no almoço de quarta-feira passada,
com dois ministros petistas (José Dirceu, da Casa Civil, e Antonio Palocci,
da Fazenda) e três lideranças do partido (José Genoíno,
o senador Aloizio Mercadante e o deputado João Paulo Cunha). José
Genoíno, presidente do PT, pintou um quadro razoavelmente otimista da situação,
relativizou as derrotas nas principais cidades e valorizou o crescimento de prefeitos
petistas, de 187 para 411. A conclusão geral, no entanto, foi de que o
resultado das eleições tornou o caminho de Lula à reeleição
um pouco mais espinhoso. Da reunião, decidiu-se tentar reagrupar a base
governista no Congresso e acelerar o crescimento econômico, afagando a classe
média com mais emprego e mais renda.
PT e PSDB, reforçando o quadro que já se esboçara no primeiro
turno, consolidaram-se como as principais legendas do país. Juntos, vão
governar a vida de 35% dos brasileiros e comandar a prefeitura de catorze capitais.
Mas, naturalmente, não são os únicos que tiveram sucesso.
Existem outras duas siglas crescendo, sobretudo nas cidades grandes o PPS
e o PDT, que andam namorando há meses com o objetivo de contrair matrimônio
criando uma nova e única sigla. Os candidatos do PPS elegeram-se em duas
capitais: Porto Alegre, com o ex-senador José Fogaça, e Boa Vista,
com a atual prefeita Teresa Jucá. O PDT emplacou três prefeitos de
capital. Em Salvador, João Henrique teve a maior votação
de todas as capitais, vencendo seu adversário com mais de 70% dos votos.
Em São Luís, Tadeu Palácio reelegeu-se para um segundo mandato.
Em Maceió, deu Cícero Almeida. O PPS e o PDT, em princípio,
pretendem unir-se num só partido e lançar candidato próprio
à Presidência da República em 2006. O pesadelo atual do PT,
no entanto, é que os dois partidos, uma vez fundidos num só, acabem
se unindo a tucanos e pefelistas na corrida presidencial, o que, em tese, dificultaria
a reeleição de Lula. 
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