Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Eleições
Da cidade grande
para o interior

Pela primeira vez em uma eleição, o PT
encolhe nas metrópoles, ao mesmo tempo
que incha nos grotões


Otávio Cabral

Onmarcos Michael/JC Imagem
Os petistas comemoram uma vitória: cena cada vez mais rara nos maiores centros urbanos

Encerrada a eleição municipal, os dirigentes do PT têm a lamentar as derrotas em São Paulo, a maior cidade do país, e em Porto Alegre, cuja prefeitura está sob comando petista há dezesseis anos. Em compensação, o PT pode comemorar a conquista da prefeitura de nove capitais, além do aumento de 120% no número de prefeitos no país. Se o balanço da eleição se limitasse a esse inventário de perdas e ganhos, os dirigentes petistas não teriam muito problema em avaliar o resultado das urnas. Quando se analisa com mais profundidade a anatomia das vitórias e derrotas, porém, descobre-se que o PT está começando a tomar uma feição inédita em sua história, a de ser um partido contestado nos grandes centros e forte no interior. Dos mais de 400 prefeitos petistas eleitos agora, quase 300 vão administrar cidades com menos de 20.000 eleitores. Isso quer dizer que 72% dos prefeitos do PT estão nos menores municípios do Brasil. É uma mudança crítica em relação ao quadro saído das urnas de 2000, quando o PT ainda não conquistara o Palácio do Planalto. Naquele ano, todos os prefeitos petistas eleitos para governar cidades do interior chegavam a 56% do total.

Essa migração de votos tem diversos significados. Um deles se refere às circunstâncias que levaram o PT a se enfraquecer nas grandes concentrações urbanas. Perder fôlego na capital e aumentar os músculos no interior é típico do metabolismo de todo partido que detém o governo federal. Foi assim com a antiga Arena, o partido de sustentação do governo militar (1964-1985). Foi assim com o PSDB de Fernando Henrique Cardoso. Está sendo assim com o PT de Lula. "Todo partido que detém o poder federal e o utiliza para alavancar eleições tende a se transformar em um Arenão", avalia Lúcia Hipólito, cientista política, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. As raízes do fenômeno, segundo a pesquisadora, seriam bem conhecidas: o uso de programas assistencialistas e as alianças que contrariam princípios éticos consagrados garantem penetração no interior, mas implicam desgaste certo entre os formadores de opinião e os eleitores das maiores cidades. "Mais que simples troca geográfica, o que ocorre é o precoce envelhecimento político do partido nascido para reformar o país; não se expandiu a modernidade, o atraso a engoliu", escreveu no jornal Folha de S. Paulo o sociólogo Francisco de Oliveira, fundador do PT e ex-petista.


Lula: seu caminho rumo à reeleição ficou um pouco mais espinhoso

O termo "arenização", usado por Lúcia Hipólito, é um pouco forte para explicar o atual momento do partido de Lula. O PT, apesar da interiorização, ainda é uma sigla com marca registrada urbana. Deixou de governar cidades como São Paulo, Porto Alegre e Belém, mas conseguiu manter sob seu comando a prefeitura de Belo Horizonte e do Recife e conquistou a administração de Fortaleza, ainda que com uma candidata, Luizianne Lins, abertamente hostilizada pela cúpula petista. Portanto, acendeu-se para o PT a luz amarela, um alerta de que o partido pode estar enveredando por um caminho que nada tem a ver com sua trajetória histórica. Também é exagero de análise imaginar que o resultado contrário nas urnas das grandes cidades aponta para uma derrota de Lula na eleição presidencial de 2006. Para tomar um exemplo recente que desmente a tese, Fernando Henrique Cardoso elegeu-se duas vezes presidente da República sem que seu partido tivesse chegado ao poder nas maiores capitais brasileiras. Outro argumento de natureza diferente desacredita o exercício de oraculismo com base no resultado das últimas eleições: o melhor juízo indica que os eleitores votaram nos prefeitos pensando primordialmente em questões locais e menos na sigla pela qual eles se apresentaram.

No Estado de São Paulo, além da própria capital, o PT perdeu a prefeitura de Campinas, Piracicaba e Ribeirão Preto, e não conseguiu ganhar em São José dos Campos, Sorocaba, Jundiaí e Santos – todas cidades importantes nas quais a cúpula do partido dava a vitória como certa. "O partido se burocratizou demais, trocou a tradicional militância aguerrida por boca-de-urna paga e se igualou aos outros partidos. Se não tomarmos providências, perderemos o governo paulista em 2006 para qualquer nome que o governador Geraldo Alckmin lançar", alarma-se uma das principais estrelas do PT paulista, que pede para não ser identificada. No Rio Grande do Sul, onde o partido apostava ter o melhor desempenho, as derrotas também se acumularam. Além de Porto Alegre, os petistas perderam nas principais cidades do Estado: Canoas, Caxias do Sul, Novo Hamburgo e Pelotas. É uma sucessão de fracassos apenas dois anos depois de ter perdido o governo gaúcho para o PMDB, com o lançamento de um candidato azarão – o hoje governador Germano Rigotto. "Precisamos restabelecer o diálogo com a classe média", afirma Tarso Genro, ministro da Educação e ex-prefeito de Porto Alegre.

"O PT tem uma trajetória diferente do antigo MDB ou da Arena porque, apesar de crescer nos pequenos municípios, continua forte nos grandes centros", analisa o cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). "Nesse sentido, o PT está passando por um processo semelhante ao que ocorreu com o PSDB." Quando Fernando Henrique Cardoso era presidente da República, o PSDB também sofreu um emagrecimento nas maiores cidades, acompanhado de uma certa interiorização – tanto que seu número de prefeitos saltou de 300 para 900, com o grosso dos tucanos elegendo-se para administrar pequenas prefeituras. Agora, deslocado para a oposição, o PSDB está fazendo o percurso inverso. Na eleição municipal de 2000, o PSDB comandava apenas três capitais – Teresina, Vitória e João Pessoa. Agora, estará no comando de cinco prefeituras, incluindo a de São Paulo e a de Curitiba, que a partir do ano que vem será administrada pelo tucano Beto Richa. Em 2000, menos de 30% dos eleitores tucanos viviam em cidades de porte, com mais de 150.000 eleitores. Na última eleição, esse porcentual já passou de 50%.

 
Filipe Araujo/AE
Serra festeja a vitória em São Paulo: na oposição, tucanos crescem nas cidades e viram rival número 1 dos petistas

"O eleitorado dos grandes centros é mudancista, oposicionista, enquanto o das cidades do interior é conservador, pois depende mais do poder público. Isso explica, em parte, o sucesso que tivemos nesta eleição em cidades como São Paulo e Curitiba", diz o deputado Walter Feldman, do PSDB paulista, um dos coordenadores da campanha vitoriosa de Serra. O resultado adverso da eleição levou o presidente Lula a reunir-se, no almoço de quarta-feira passada, com dois ministros petistas (José Dirceu, da Casa Civil, e Antonio Palocci, da Fazenda) e três lideranças do partido (José Genoíno, o senador Aloizio Mercadante e o deputado João Paulo Cunha). José Genoíno, presidente do PT, pintou um quadro razoavelmente otimista da situação, relativizou as derrotas nas principais cidades e valorizou o crescimento de prefeitos petistas, de 187 para 411. A conclusão geral, no entanto, foi de que o resultado das eleições tornou o caminho de Lula à reeleição um pouco mais espinhoso. Da reunião, decidiu-se tentar reagrupar a base governista no Congresso e acelerar o crescimento econômico, afagando a classe média com mais emprego e mais renda.

PT e PSDB, reforçando o quadro que já se esboçara no primeiro turno, consolidaram-se como as principais legendas do país. Juntos, vão governar a vida de 35% dos brasileiros e comandar a prefeitura de catorze capitais. Mas, naturalmente, não são os únicos que tiveram sucesso. Existem outras duas siglas crescendo, sobretudo nas cidades grandes – o PPS e o PDT, que andam namorando há meses com o objetivo de contrair matrimônio criando uma nova e única sigla. Os candidatos do PPS elegeram-se em duas capitais: Porto Alegre, com o ex-senador José Fogaça, e Boa Vista, com a atual prefeita Teresa Jucá. O PDT emplacou três prefeitos de capital. Em Salvador, João Henrique teve a maior votação de todas as capitais, vencendo seu adversário com mais de 70% dos votos. Em São Luís, Tadeu Palácio reelegeu-se para um segundo mandato. Em Maceió, deu Cícero Almeida. O PPS e o PDT, em princípio, pretendem unir-se num só partido e lançar candidato próprio à Presidência da República em 2006. O pesadelo atual do PT, no entanto, é que os dois partidos, uma vez fundidos num só, acabem se unindo a tucanos e pefelistas na corrida presidencial, o que, em tese, dificultaria a reeleição de Lula.

 

 
 
 
 
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