Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
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Ainda preconceito
e pré-conceito

Toda vez que a direita (seja lá o que isso for)
se manifesta amenizando violências passadas,
a esquerda (seja lá o que isso é) fica eriçada.
A explicação é simples ­ mataram o gorila mas
deixaram o rabo de fora.

Graças a Deus – no(s) qual(ais) não creio (sempre exigi, na nossa Constituição, pioneiramente, o direito à descrença, pois ninguém é mais temido e perseguido no mundo do que os que não acreditam) –, não sou e não quero ser politicamente correto. Morrerei, azar o meu, raciocinando.

Não gosto de dizer fiz isso, fiz aquilo, mas, algumas vezes, até como autodefesa, é preciso.

Entre muitas atitudes "corretas" – amizades pessoais, declarações e escritos como "participação especial de herói" na causa negra etc. –, escrevi, em 1966, uma adaptação, para o Teatro de Ação (negro), do chamado primeiro romance brasileiro, "Memórias de um Sargento de Milícias". Não, não estou falando de um espetáculo oculto. Foi um espetáculo que resultou esplêndido, em local inesperado, o Largo do Boticário. Dirigiu-o Geraldo Queiroz, e representaram nele alguns ótimos jovens atores negros, dos quais vários viraram estrelas: Antônio Pitanga, Milton Gonçalves, Mariano Procópio, Jorge Coutinho e a linda Esmeralda Barros. "Agradeço a oportunidade que me deram", como se diz na babaquice costumeira, mas nem por isso vou chamar o companheiro-de-estrada Antônio Pitanga, ex-primeiro-damo do Rio, de afro-ipanemense.

Como, ao contrário, não deixei, no passado, de fazer, no Correio da Manhã, uma "entrevista" com Mosche Dayan, nem, atualmente, de "defender" o sionismo sem fronteiras de Ariel Sharon, por medo de cartas (e-meus) de leitores, na manhã seguinte, denunciarem fulminantemente que sou anti-semita desde criancinha.

Mas, olha, em momentos fundamentais como há não muito tempo, não vi ninguém mais dando destaque à sentença contra dois canalhas que em São Paulo mataram um homossexual apenas por ser homossexual. Nenhuma bicha ou homossexual escreveu me apoiando ou elogiando.

Mas recebi várias admoestações – uma até de Berlim – apenas porque acho engraçadas essas passeatas (em todo o mundo) de orgulho gay. Orgulho por quê, ô pá? Que os negros reivindiquem o orgulho de sua raça – e da cor de sua pele – com o mais belo e mais sucinto slogan de nosso tempo, Black is Beautiful, palmas pra eles, que eles merecem.

Mas estou disposto a dar – calma! calma! – a mão!, à palmatória, a quem me explicar, sem baba de raiva, de onde vem o tal orgulho. Se é pelas reivindicações – que já chegaram, já venceram (ou querem passeata maior do que a de 300 000 participantes em Berlim, e a de 600 000 em São Paulo?) –, tudo bem. Mas se é pra reivindicações agressivas, cada vez mais contra vocês, os héteros, que, aliás, não existem, "estão só com medo de sair do armário", não vem que não tem.

Em tempo: Se persistirem os sintomas, consulte um negão.

Ainda em tempo: Está sendo organizada, pelos últimos remanescentes do Clube dos Cafajestes, uma gigantesca passeata do Vexame heterossexual. (Compareça, cara, saia do armário de cima.)


Enquanto o isso, o Lula...

 
 
 
 
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