|
|
Entrevista: Robert
Rey
O doutor da alegria
Estrela de um seriado americano que
mostra plásticas ao vivo, cirurgião
brasileiro conta como propaga a beleza

Bel Moherdaui
|
Divulgação

|
"Passo horas suando, fazendo a pessoa
ficar perfeita, e um mês depois ela aparece dizendo
que é contra a cirurgia plástica" |
|
Bonitão e musculoso, o cirurgião
plástico Robert Rey, 43 anos, virou campeão de audiência
da TV a cabo americana operando, brincando com a filhinha de 3 anos
e fazendo musculação no reality show Dr. 90210,
que apresenta falando inglês com leve sotaque. Explica-se:
Rey nasceu Roberto Miguel Rey Junior, filho de pai americano relapso
e mãe gaúcha, no bairro da Lapa, em São Paulo
("o lado pobre, perto do mercado"). Aos 12 anos, foi para os Estados
Unidos, viver com a família de um missionário mórmon.
"Lá eu dormi numa cama pela primeira vez. Antes, dormia em
cima de uma mesa velha", conta. Decidido a provar que não
era apenas "um pé-rapado da América Latina", fez medicina
em Harvard e hoje é dono de uma clínica no bairro
das estrelas, Beverly Hills, onde fatura 4 milhões de dólares
por ano e tem na lista de pacientes atores e atrizes de Hollywood.
Por telefone, em português com muito sotaque, falou a VEJA.
Veja Como o senhor
foi morar nos Estados Unidos, com uma família de mórmons?
Rey Naquela época, havia muitos missionários
mórmons americanos no Brasil. Eles iam de casa em casa ensinando
o Evangelho. Um dia, bateram na nossa porta e meu pai começou
a conversar com eles. Não que fosse ligado em religião,
mas estava com saudade do país dele. Eles visitaram nossa
casa várias vezes e, um belo dia, um deles disse para o meu
pai: "Robert, por que você não deixa eu levar essas
crianças para a minha casa, nos Estados Unidos? Vai ser melhor
para você". Meu pai ficou muito contente. Minha mãe
não tinha voz ativa na família. Assim, por incrível
que pareça, ele mandou os quatro filhos para os Estados Unidos.
Eu não consigo entender. Tenho minha filha agora e não
consigo ficar um dia sequer sem vê-la. Imagine anos, como
foi o caso dele.
Veja Vocês foram adotados?
Rey Não. Eu e uma irmã fomos primeiro
porque era só o que meu pai podia pagar. Minha outra irmã
e meu outro irmão vieram mais tarde. Fui morar em Utah, nas
Montanhas Rochosas, um Estado muito belo, mas muito isolado. O Brasil
é também lindo, mas a minha situação
estava tão ruim que foi ótimo ter mudado para os Estados
Unidos.
Veja O começo foi
difícil?
Rey Não. Na minha casa, no Brasil, era tudo
muito ruim. Enquanto a maioria das crianças vai dormir com
músicas de criança, eu dormia com meus pais gritando
à noite. O meu último ato em terra brasileira foi
roubar uma loja, ali mesmo na Lapa. Aos 11 anos, eu fazia parte
de um grupinho de marginais, moleques. Se tivesse ficado no Brasil,
estaria na cadeia. Graças a Deus e a essa gente, acabei nos
Estados Unidos, onde não faltava comida, não tinha
sujeira nem gritaria. Não era minha família, era um
monte de gente estranha, mas era muito, muito melhor do que a situação
em que eu estava antes.
Veja Quanto tempo vocês
viveram com essa família?
Rey Uns quatro anos. Daí a minha mãe
conseguiu juntar dinheiro e vir para os Estados Unidos ficar conosco.
Nós alugamos um apartamento bem pequeno em outro Estado,
o Arizona, porque ela não se dava bem com o frio das montanhas,
e fomos morar todos juntos. Ainda vi meu pai uma vez, mas não
foi um bom encontro. Soube anos depois, por amigos, que ele morreu
no Brasil.
Veja Você ainda tem
notícias da família mórmon?
Rey O jovem missionário que me trouxe para
cá virou um grande escritor de ficção científica,
Orson Scott Card. A família era muito ativa, fazia teatro,
lia muito. Por causa disso acabei entrando em Harvard, que é
a melhor universidade dos Estados Unidos, onde fiz parte do meu
curso de medicina. Nos Estados Unidos são dez anos de estudo
só para virar médico, mais oito para virar cirurgião
plástico.
Veja Como o senhor conseguiu
pagar uma universidade tão cara?
Rey Realmente, Harvard é para ricos. Meu melhor
amigo lá era o filho do (Zbigniew) Brzezinski, assessor
do governo Jimmy Carter nos EUA. O filho do (ex-chanceler alemão)
Helmut Kohl era outro amigo. O filho do Bob Kennedy fazia halterofilismo
comigo. Mas, como Harvard tem mais dinheiro que muitos países,
fiz um pedido de ajuda financeira e ganhei uma bolsa para ser reembolsada
depois de formado. Saí de lá devendo 200 000 dólares.
Sabe quantos dias eu levaria para pagar essa dívida hoje?
Uns dois. Minha clínica rende 4 milhões de dólares
por ano.
Veja Por que o senhor resolveu
se instalar em Beverly Hills?
Rey Em parte, por complexo de inferioridade. Tem muito
racismo aqui. Meu nome, Roberto Miguel Rey, é claramente
latino. Na escola, já sentia a presença de um certo
racismo. Imigrante, aqui, é segunda classe. Eu sempre quis
provar para mim mesmo e para todos que eu não era um pé-rapado
da América do Sul. Qualquer pessoa pode sobressair em uma
cidade pequena, que só tenha um cirurgião plástico.
Eu queria conquistar o pico da montanha.
Veja Como o senhor
virou estrela de reality show?
Rey Um dia, no meu primeiro ano em Beverly Hills,
atendi uma jovem que queria que eu fizesse os seios dela com uma
técnica nova, que eu tinha aprendido em Harvard, utilizando
microcâmeras. Eu não sabia, mas ela trabalhava no canal
E! Entertainment, aqui em Los Angeles. Ela gostou da cirurgia e
elogiou para todo mundo. Passados três meses, foi ao consultório
um produtor interessado em fazer um pequeno especial sobre a técnica.
Depois, participei de outros 28 programas de televisão aqui
nos Estados Unidos. Quando foi lançado o seriado Nip/Tuck,
fiquei um pouco irritado com o retrato de cirurgiões
plásticos como playboys irresponsáveis, escrevi uma
proposta de dez páginas, mandei para um produtor que eu conhecia
e propusemos a algumas redes fazer o Nip/Tuck da vida real.
O E! pagou os 2 milhões de dólares que pedíamos
e fizemos a série. É o reality show de maior audiência
do canal nos Estados Unidos.
Veja Foi difícil
se acostumar com a presença constante das câmeras?
Rey No começo é um horror. Quando vou
para a cama de noite, as pessoas estão lá. Durante
a noite, entram no quarto umas três ou quatro vezes, com a
luz apagada, só para nos filmar dormindo. Nos primeiros dois
meses, tive uma úlcera. Mas é como a síndrome
de Estocolmo: depois de um tempo, você acaba gostando das
pessoas que te perseguem. Nas poucas semanas de intervalo entre
uma e outra temporada, quando a equipe não estava em casa,
até ficamos com saudade.
Veja Não há
nada combinado, mesmo?
Rey Ninguém nos Estados Unidos percebeu que
o programa não é 100% real, tem algumas coisas que
são inventadas, sim. Por exemplo, no segundo episódio,
em plena festa de aniversário da minha filha eu saio para
falar ao telefone com pacientes. Aquelas conversas não são
de verdade. Eu não estava falando com ninguém. Quando
o programa está ficando chato, meu produtor cria uma cena
de conflito no caso, com minha mulher, que ficou muito irritada
porque era aniversário da nossa filha e eu, primeiro, fui
à aula de tae kwon do e, depois, em vez de ajudar, fiquei
ao telefone com pacientes. Também só fui ao tae kwon
do porque o produtor pediu.
Veja E no consultório?
É difícil arranjar voluntárias para o programa?
Rey Olha o que é a loucura americana: elas
é que ficam zangadas quando não as escolho. No meu
consultório tem uma parede enorme dedicada a moças
que apareceram em meus programas e acabaram virando modelos. Entendo
por que todas querem tanto ser personagens também.
Veja O senhor opera
muitos artistas de Hollywood?
Rey Bastante. Anteontem, as primeiras oito pacientes
que atendi já apareceram na Playboy. Médicos
não podem divulgar nomes de pacientes sem autorização,
mas vou contar uma coisa: como meu programa se chama Dr. 90210
(o CEP de Beverly Hills), convidamos para tratamento algumas
atrizes do seriado Beverly Hills, 90210 (Barrados no Baile,
no Brasil). Uma faz um tratamento contra celulite, outras foram
operadas todas do núcleo principal, da lista A.
Veja Como é possível
atender artistas conhecidos em segredo?
Rey Meu consultório tem duas portas, uma para
o público geral, outra, escondida, para celebridades, prática
comum aqui em Beverly Hills. Se a paciente for muito famosa, eu
fecho o consultório naquele dia. Recentemente operei a filha
de um presidente da América do Sul aliás, eu
mesmo fui revistado da cabeça aos pés pelo serviço
secreto do tal país.
Veja O senhor tem muitos
pacientes dessa lista A de celebridades?
Rey Eles não são tantos assim
não mais que 300 pessoas, e metade é tão linda
que não precisa fazer nada. Um cirurgião famoso aqui
em Beverly Hills tem no máximo cinco ou sete pacientes da
lista A. Interessante: quando um deles faz cirurgia, não
só não revela como mente. Eu fico até meio
chateado. Passo horas suando, fazendo a pessoa ficar perfeita, e,
um mês depois, ela aparece em uma revista dizendo que é
contra cirurgia plástica.
Veja Pela natureza da profissão,
o cirurgião plástico deve ter cuidados especiais com
a própria aparência?
Rey Ouço muitas críticas de gente que
diz que faço exercício demais, que uso ternos Versace.
O que eu sempre digo é que, quando estão pagando 15
000 dólares, as moças não gostam de ser tocadas
por sujeitos mal aprumados. O consultório tem de ser lindo,
as secretárias têm de ser lindas e o seu cirurgião
tem de estar muito bem. Eu tenho de ensinar pelo exemplo.
Veja É verdade que
o senhor usa um jaleco sem mangas só para mostrar os músculos?
Rey Um dos problemas da medicina moderna é
ter criado um grupo de robôs que trabalham de forma muito
fria. Sou contra isso. Em Harvard, alguns professores me falavam
para parar de fazer escova no cabelo, de usar roupas diferentes,
de ser tão amigo dos pacientes. Eu aprendi a técnica
e rejeitei os conselhos. Minha roupa de operar é feita sob
medida, em alfaiate. Por que não? Estou na área mais
artística da cirurgia e gosto de trazer para ela um pouco
da minha personalidade. Por isso uso preto e tirei as mangas do
jaleco.
Veja O senhor se acha bonito?
Rey Acho que todos os que buscam o sucesso sofrem
de um certo complexo de inferioridade. Mas tudo bem, porque as grandes
descobertas e realizações do mundo foram feitas por
pessoas complexadas.
Veja O que o senhor acha
de mulheres que fazem muita plástica?
Rey Um pouco é bom, traz autoconfiança,
mas o exagero faz a pessoa se viciar em cirurgia plástica.
Passado um determinado limite, o paciente adquire um look plastificado.
Veja O senhor recusa
cirurgias quando a paciente vai longe demais?
Rey Tem um episódio desta temporada em que
eu recuso uma paciente. Ela chega linda de morrer, perfeita, queixando-se
disso e daquilo. Só que é tudo perfeito. Ela tem um
problema psicológico, a dismorfia corporal, que afeta cerca
de 15% das pessoas que procuram cirurgiões plásticos.
Acho que recuso 30% das pessoas que vão ao meu consultório.
Veja Sua formação
foi toda nos Estados Unidos. Como avalia a cirurgia plástica
no Brasil?
Rey Admiro muito os cirurgiões daí.
Sempre digo que italiano faz carro, suíço faz relógio
e brasileiro faz corpo. Entre os vinte melhores cirurgiões
plásticos do mundo, acho que dez são brasileiros.
Veja Só é feio
quem quer?
Rey Ninguém é feio. O que fazemos na
cirurgia plástica é melhorar áreas de que a
pessoa não gosta. Temos tecnologia para tornar quase qualquer
pessoa muito bonita, mas não sei se isso é sempre
bom. Já tive uma paciente que chegou toda acanhada, se sentindo
feia. Eu fiz um narizinho bonito, uma boca bonita, lipoaspiração,
coloquei seios bonitos. De repente, a menina acanhada, que estudava
e trabalhava, virou stripper, começou a tomar drogas. Eu
fui treinado para fazer a pessoa bonita, não fui treinado
para julgá-la. Mas, tarde da noite, me preocupo. Talvez,
se a tivesse deixado um pouco mais feinha, teria ajudado mais. É
um dilema.
Veja Sua mulher já
fez alguma cirurgia plástica?
Rey Nós dois fizemos. Quando nos casamos,
ela tinha seios lindos. Mas, depois de ter nossa filha, eles murcharam.
Não falei nada, mas um dia ela perguntou: "Se todas as suas
pacientes ficam tão bonitas, por que não consertar
meus seios?". Então eu consertei. Quanto a mim, levei tanta
pancada no rosto na prática de lutas marciais que acabei
com o nariz bem feio. Então fiz o nariz, há uns dez
anos.
Veja Como vê o seu
o futuro?
Rey Um dia quero voltar a morar no Brasil. Vou mandar
meus filhos para a universidade aqui e depois volto. Mesmo estando
no mundo de Hollywood, ainda sou mórmon, e essa religião
ensina a devolver o que você recebeu. Eu vou voltar para o
Brasil e fazer cirurgia em uma área sem recursos no
Acre, na Amazônia, onde eles precisem de um cirurgião
plástico.
|