Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Entrevista: Robert Rey
O doutor da alegria

Estrela de um seriado americano que
mostra plásticas ao vivo, cirurgião
brasileiro conta como propaga a beleza


Bel Moherdaui

Divulgação

"Passo horas suando, fazendo a pessoa ficar perfeita, e um mês depois ela aparece dizendo que é contra a cirurgia plástica"

Bonitão e musculoso, o cirurgião plástico Robert Rey, 43 anos, virou campeão de audiência da TV a cabo americana operando, brincando com a filhinha de 3 anos e fazendo musculação no reality show Dr. 90210, que apresenta falando inglês com leve sotaque. Explica-se: Rey nasceu Roberto Miguel Rey Junior, filho de pai americano relapso e mãe gaúcha, no bairro da Lapa, em São Paulo ("o lado pobre, perto do mercado"). Aos 12 anos, foi para os Estados Unidos, viver com a família de um missionário mórmon. "Lá eu dormi numa cama pela primeira vez. Antes, dormia em cima de uma mesa velha", conta. Decidido a provar que não era apenas "um pé-rapado da América Latina", fez medicina em Harvard e hoje é dono de uma clínica no bairro das estrelas, Beverly Hills, onde fatura 4 milhões de dólares por ano e tem na lista de pacientes atores e atrizes de Hollywood. Por telefone, em português com muito sotaque, falou a VEJA.

Veja – Como o senhor foi morar nos Estados Unidos, com uma família de mórmons?
Rey – Naquela época, havia muitos missionários mórmons americanos no Brasil. Eles iam de casa em casa ensinando o Evangelho. Um dia, bateram na nossa porta e meu pai começou a conversar com eles. Não que fosse ligado em religião, mas estava com saudade do país dele. Eles visitaram nossa casa várias vezes e, um belo dia, um deles disse para o meu pai: "Robert, por que você não deixa eu levar essas crianças para a minha casa, nos Estados Unidos? Vai ser melhor para você". Meu pai ficou muito contente. Minha mãe não tinha voz ativa na família. Assim, por incrível que pareça, ele mandou os quatro filhos para os Estados Unidos. Eu não consigo entender. Tenho minha filha agora e não consigo ficar um dia sequer sem vê-la. Imagine anos, como foi o caso dele.

Veja – Vocês foram adotados?
Rey – Não. Eu e uma irmã fomos primeiro porque era só o que meu pai podia pagar. Minha outra irmã e meu outro irmão vieram mais tarde. Fui morar em Utah, nas Montanhas Rochosas, um Estado muito belo, mas muito isolado. O Brasil é também lindo, mas a minha situação estava tão ruim que foi ótimo ter mudado para os Estados Unidos.

Veja – O começo foi difícil?
Rey – Não. Na minha casa, no Brasil, era tudo muito ruim. Enquanto a maioria das crianças vai dormir com músicas de criança, eu dormia com meus pais gritando à noite. O meu último ato em terra brasileira foi roubar uma loja, ali mesmo na Lapa. Aos 11 anos, eu fazia parte de um grupinho de marginais, moleques. Se tivesse ficado no Brasil, estaria na cadeia. Graças a Deus e a essa gente, acabei nos Estados Unidos, onde não faltava comida, não tinha sujeira nem gritaria. Não era minha família, era um monte de gente estranha, mas era muito, muito melhor do que a situação em que eu estava antes.

Veja – Quanto tempo vocês viveram com essa família?
Rey – Uns quatro anos. Daí a minha mãe conseguiu juntar dinheiro e vir para os Estados Unidos ficar conosco. Nós alugamos um apartamento bem pequeno em outro Estado, o Arizona, porque ela não se dava bem com o frio das montanhas, e fomos morar todos juntos. Ainda vi meu pai uma vez, mas não foi um bom encontro. Soube anos depois, por amigos, que ele morreu no Brasil.

Veja – Você ainda tem notícias da família mórmon?
Rey – O jovem missionário que me trouxe para cá virou um grande escritor de ficção científica, Orson Scott Card. A família era muito ativa, fazia teatro, lia muito. Por causa disso acabei entrando em Harvard, que é a melhor universidade dos Estados Unidos, onde fiz parte do meu curso de medicina. Nos Estados Unidos são dez anos de estudo só para virar médico, mais oito para virar cirurgião plástico.

Veja – Como o senhor conseguiu pagar uma universidade tão cara?
Rey – Realmente, Harvard é para ricos. Meu melhor amigo lá era o filho do (Zbigniew) Brzezinski, assessor do governo Jimmy Carter nos EUA. O filho do (ex-chanceler alemão) Helmut Kohl era outro amigo. O filho do Bob Kennedy fazia halterofilismo comigo. Mas, como Harvard tem mais dinheiro que muitos países, fiz um pedido de ajuda financeira e ganhei uma bolsa para ser reembolsada depois de formado. Saí de lá devendo 200 000 dólares. Sabe quantos dias eu levaria para pagar essa dívida hoje? Uns dois. Minha clínica rende 4 milhões de dólares por ano.

Veja – Por que o senhor resolveu se instalar em Beverly Hills?
Rey – Em parte, por complexo de inferioridade. Tem muito racismo aqui. Meu nome, Roberto Miguel Rey, é claramente latino. Na escola, já sentia a presença de um certo racismo. Imigrante, aqui, é segunda classe. Eu sempre quis provar para mim mesmo e para todos que eu não era um pé-rapado da América do Sul. Qualquer pessoa pode sobressair em uma cidade pequena, que só tenha um cirurgião plástico. Eu queria conquistar o pico da montanha.

Veja – Como o senhor virou estrela de reality show?
Rey – Um dia, no meu primeiro ano em Beverly Hills, atendi uma jovem que queria que eu fizesse os seios dela com uma técnica nova, que eu tinha aprendido em Harvard, utilizando microcâmeras. Eu não sabia, mas ela trabalhava no canal E! Entertainment, aqui em Los Angeles. Ela gostou da cirurgia e elogiou para todo mundo. Passados três meses, foi ao consultório um produtor interessado em fazer um pequeno especial sobre a técnica. Depois, participei de outros 28 programas de televisão aqui nos Estados Unidos. Quando foi lançado o seriado Nip/Tuck, fiquei um pouco irritado com o retrato de cirurgiões plásticos como playboys irresponsáveis, escrevi uma proposta de dez páginas, mandei para um produtor que eu conhecia e propusemos a algumas redes fazer o Nip/Tuck da vida real. O E! pagou os 2 milhões de dólares que pedíamos e fizemos a série. É o reality show de maior audiência do canal nos Estados Unidos.

Veja – Foi difícil se acostumar com a presença constante das câmeras?
Rey – No começo é um horror. Quando vou para a cama de noite, as pessoas estão lá. Durante a noite, entram no quarto umas três ou quatro vezes, com a luz apagada, só para nos filmar dormindo. Nos primeiros dois meses, tive uma úlcera. Mas é como a síndrome de Estocolmo: depois de um tempo, você acaba gostando das pessoas que te perseguem. Nas poucas semanas de intervalo entre uma e outra temporada, quando a equipe não estava em casa, até ficamos com saudade.

Veja – Não há nada combinado, mesmo?
Rey – Ninguém nos Estados Unidos percebeu que o programa não é 100% real, tem algumas coisas que são inventadas, sim. Por exemplo, no segundo episódio, em plena festa de aniversário da minha filha eu saio para falar ao telefone com pacientes. Aquelas conversas não são de verdade. Eu não estava falando com ninguém. Quando o programa está ficando chato, meu produtor cria uma cena de conflito – no caso, com minha mulher, que ficou muito irritada porque era aniversário da nossa filha e eu, primeiro, fui à aula de tae kwon do e, depois, em vez de ajudar, fiquei ao telefone com pacientes. Também só fui ao tae kwon do porque o produtor pediu.

Veja – E no consultório? É difícil arranjar voluntárias para o programa?
Rey – Olha o que é a loucura americana: elas é que ficam zangadas quando não as escolho. No meu consultório tem uma parede enorme dedicada a moças que apareceram em meus programas e acabaram virando modelos. Entendo por que todas querem tanto ser personagens também.

Veja – O senhor opera muitos artistas de Hollywood?
Rey – Bastante. Anteontem, as primeiras oito pacientes que atendi já apareceram na Playboy. Médicos não podem divulgar nomes de pacientes sem autorização, mas vou contar uma coisa: como meu programa se chama Dr. 90210 (o CEP de Beverly Hills), convidamos para tratamento algumas atrizes do seriado Beverly Hills, 90210 (Barrados no Baile, no Brasil). Uma faz um tratamento contra celulite, outras foram operadas – todas do núcleo principal, da lista A.

Veja – Como é possível atender artistas conhecidos em segredo?
Rey – Meu consultório tem duas portas, uma para o público geral, outra, escondida, para celebridades, prática comum aqui em Beverly Hills. Se a paciente for muito famosa, eu fecho o consultório naquele dia. Recentemente operei a filha de um presidente da América do Sul – aliás, eu mesmo fui revistado da cabeça aos pés pelo serviço secreto do tal país.

Veja – O senhor tem muitos pacientes dessa lista A de celebridades?
Rey – Eles não são tantos assim – não mais que 300 pessoas, e metade é tão linda que não precisa fazer nada. Um cirurgião famoso aqui em Beverly Hills tem no máximo cinco ou sete pacientes da lista A. Interessante: quando um deles faz cirurgia, não só não revela como mente. Eu fico até meio chateado. Passo horas suando, fazendo a pessoa ficar perfeita, e, um mês depois, ela aparece em uma revista dizendo que é contra cirurgia plástica.

Veja – Pela natureza da profissão, o cirurgião plástico deve ter cuidados especiais com a própria aparência?
Rey – Ouço muitas críticas de gente que diz que faço exercício demais, que uso ternos Versace. O que eu sempre digo é que, quando estão pagando 15 000 dólares, as moças não gostam de ser tocadas por sujeitos mal aprumados. O consultório tem de ser lindo, as secretárias têm de ser lindas e o seu cirurgião tem de estar muito bem. Eu tenho de ensinar pelo exemplo.

Veja – É verdade que o senhor usa um jaleco sem mangas só para mostrar os músculos?
Rey – Um dos problemas da medicina moderna é ter criado um grupo de robôs que trabalham de forma muito fria. Sou contra isso. Em Harvard, alguns professores me falavam para parar de fazer escova no cabelo, de usar roupas diferentes, de ser tão amigo dos pacientes. Eu aprendi a técnica e rejeitei os conselhos. Minha roupa de operar é feita sob medida, em alfaiate. Por que não? Estou na área mais artística da cirurgia e gosto de trazer para ela um pouco da minha personalidade. Por isso uso preto e tirei as mangas do jaleco.

Veja – O senhor se acha bonito?
Rey – Acho que todos os que buscam o sucesso sofrem de um certo complexo de inferioridade. Mas tudo bem, porque as grandes descobertas e realizações do mundo foram feitas por pessoas complexadas.

Veja – O que o senhor acha de mulheres que fazem muita plástica?
Rey – Um pouco é bom, traz autoconfiança, mas o exagero faz a pessoa se viciar em cirurgia plástica. Passado um determinado limite, o paciente adquire um look plastificado.

Veja – O senhor recusa cirurgias quando a paciente vai longe demais?
Rey – Tem um episódio desta temporada em que eu recuso uma paciente. Ela chega linda de morrer, perfeita, queixando-se disso e daquilo. Só que é tudo perfeito. Ela tem um problema psicológico, a dismorfia corporal, que afeta cerca de 15% das pessoas que procuram cirurgiões plásticos. Acho que recuso 30% das pessoas que vão ao meu consultório.

Veja – Sua formação foi toda nos Estados Unidos. Como avalia a cirurgia plástica no Brasil?
Rey – Admiro muito os cirurgiões daí. Sempre digo que italiano faz carro, suíço faz relógio e brasileiro faz corpo. Entre os vinte melhores cirurgiões plásticos do mundo, acho que dez são brasileiros.

Veja – Só é feio quem quer?
Rey – Ninguém é feio. O que fazemos na cirurgia plástica é melhorar áreas de que a pessoa não gosta. Temos tecnologia para tornar quase qualquer pessoa muito bonita, mas não sei se isso é sempre bom. Já tive uma paciente que chegou toda acanhada, se sentindo feia. Eu fiz um narizinho bonito, uma boca bonita, lipoaspiração, coloquei seios bonitos. De repente, a menina acanhada, que estudava e trabalhava, virou stripper, começou a tomar drogas. Eu fui treinado para fazer a pessoa bonita, não fui treinado para julgá-la. Mas, tarde da noite, me preocupo. Talvez, se a tivesse deixado um pouco mais feinha, teria ajudado mais. É um dilema.

Veja – Sua mulher já fez alguma cirurgia plástica?
Rey – Nós dois fizemos. Quando nos casamos, ela tinha seios lindos. Mas, depois de ter nossa filha, eles murcharam. Não falei nada, mas um dia ela perguntou: "Se todas as suas pacientes ficam tão bonitas, por que não consertar meus seios?". Então eu consertei. Quanto a mim, levei tanta pancada no rosto na prática de lutas marciais que acabei com o nariz bem feio. Então fiz o nariz, há uns dez anos.

Veja – Como vê o seu o futuro?
Rey – Um dia quero voltar a morar no Brasil. Vou mandar meus filhos para a universidade aqui e depois volto. Mesmo estando no mundo de Hollywood, ainda sou mórmon, e essa religião ensina a devolver o que você recebeu. Eu vou voltar para o Brasil e fazer cirurgia em uma área sem recursos – no Acre, na Amazônia, onde eles precisem de um cirurgião plástico.

 
 
 
 
topovoltar