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Em
foco: Gustavo Franco Uma
longa história
"É inacreditável
a lentidão com que se processa a formação
de instituições focadas na defesa
do cidadão contra os abusos cometidos pelo Estado através
da moeda" Houve uma época em que todos
os países adotavam uma mesma moeda, embora cada um pudesse escolher a denominação
(peso, dólar, franco) e a quantidade de ouro a que correspondia a sua unidade
monetária nacional. As relações entre essas "moedas" era
como a razão entre quilos e libras, e o fornecimento de metais preciosos
para lubrificar o progresso da humanidade cabia à mãe natureza.
A vida econômica era muito simples, mas logo
adiante o tempo viria a demonstrar que apenas por um acidente a natureza ou, mais
precisamente, o progresso técnico na atividade de mineração
seria capaz de fornecer a cada ano a exata quantidade de metais preciosos necessária
para suprir de liquidez a economia mundial. Em algum momento, perto do fim do
século XIX, a rígida conexão entre o dinheiro e o vil metal
(o "padrão-ouro") começou a ser abandonada em favor de uma inovação
institucional revolucionária, ou mesmo herética, o papel-moeda.
Ilustração
Ale Setti
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Foi
precisamente em 1933 que o Brasil adotou o papel-moeda de aceitação
obrigatória definida em lei (o "curso forçado") e que nossa moeda
perdeu os vínculos com a natureza para se tornar uma criatura da lei. O
Estado se desobrigava da conversibilidade e de sustentar uma "âncora" excessivamente
pesada e prejudicial a nosso desenvolvimento. Proibia, também, seus súditos
de estipular contratos com indexação ou pagamento em ouro, ou em
moedas estrangeiras, mas não assumia nenhuma obrigação referente
ao poder de compra da nova moeda de papel cuja utilização tornava
obrigatória. Em razão desse "desequilíbrio", os bancos centrais
viriam a assumir, em muitos países, responsabilidades crescentes relacionadas
à saúde da moeda ou, mais precisamente, à prevenção
dos abusos monetários praticados pelos Estados nacionais.
No Brasil, todavia, como sói acontecer, a história parece inacreditavelmente
mais lenta e tortuosa. A criação
de um banco central foi sugerida aqui desde os anos 20, época em que muitos
bancos centrais foram fundados na América Latina, mas havia uma oposição
muito clara e corporativista, o Banco do Brasil, e outra menos clara e doutrinária,
ressentimentos vagos mas poderosos com relação aos cânones
do "padrão-ouro" que se transformariam em "teorias", justificando o uso
do papel-moeda (e da inflação) como alavanca para o desenvolvimento
brasileiro. Em 1945, seguindo-se às obrigações
assumidas pelo país na conferência de Bretton Woods, criamos uma
superintendência no BB destinada a "preparar" a fundação do
banco central. Vinte anos e duas dúzias de projetos de leis fracassados
se passaram antes que, já sob o governo militar, fosse promulgada a lei
que criou o Banco Central do Brasil, uma nova autarquia, porém ainda subordinada
financeiramente ao BB e dominada por um conselho (o Conselho Monetário
Nacional) de natureza política. Somente
em 1986, com a separação formal entre o BC e o BB, em meio a uma
rebelião de funcionários do BB e ações populares com
liminares concedidas e derrubadas, é que se pôde falar que o Brasil
passava a ter um banco central digno dessa denominação. Apenas em
1988 o BC ficaria proibido de financiar o Tesouro, e somente em 1994 o CMN perderia
sua face política ao ver-se reduzido a apenas três membros (ministros
da Fazenda e do Planejamento e presidente do BC), embora ainda tenha de se submeter
a "diretrizes" do presidente da República. É
inacreditável a lentidão com que se processa a formação
de instituições focadas na defesa do cidadão contra os abusos
cometidos pelo Estado através da moeda. Não deve ser outro o motivo
pelo qual, no Brasil, a inflação foi tão alta, tão
longa, e deixou a tragédia distributiva que todos conhecemos.
Não é surpreendente, por outro lado, que sejamos os campeões
mundiais em produção legislativa sobre correção monetária.
Ou seja, em vez de construirmos instituições para impedir o Estado
de avacalhar a moeda, concentramos nossa atenção em tornar seletivos
os estragos. Esse atraso, ou distorção, na construção
de nossas instituições monetárias é simplesmente irrecuperável.
Gustavo Franco é economista
da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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