Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Auto-retrato
Jane Birkin

Claudio Rossi

A atriz e cantora inglesa Jane Birkin foi um símbolo sexual dos anos 70. Protagonizou uma célebre cena de nu frontal no filme Blow Up, de Michelangelo Antonioni, e causou escândalo com seus gemidos na canção Je T'Aime Moi Non Plus, gravada com o ídolo do pop francês Serge Gainsbourg, então seu marido. Aos 58 anos, ela acaba de lançar o disco Rendez-Vous e o filme Obrigada Doutora Rey. Em viagem ao país na semana passada, falou com o repórter Sérgio Martins.

COMO A SENHORA VIVEU SEU PERÍODO DE SÍMBOLO SEXUAL NOS ANOS 70?
Serge Gainsbourg, meu marido na época, era muito ciumento
e bebia demais. Sempre havia o perigo de uma reação violenta quando eu recebia um elogio que passasse dos limites da boa educação. A verdade é que pouquíssimos homens chegavam perto de mim.  

A SENHORA TAMBÉM SENTIA CIÚME DELE?
Sim, éramos descontrolados. Bebíamos além da conta e tínhamos o péssimo costume de exagerar em nossas brigas. No final de nossa relação, eu cheguei a me atirar no Rio Sena, em Paris, porque achava que Serge não me dava atenção suficiente. Só esqueci que era uma péssima nadadora. Depois disso, nosso casamento naufragou de vez.  

O DUETO DE JE T'AIME MOI NON PLUS SIMULA UMA RELAÇÃO SEXUAL. COMO FOI A GRAVAÇÃO DA MÚSICA?
Sinto desapontá-lo. Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, eu e Serge ficamos vestidos durante a gravação. Estávamos no estúdio e fazia muito frio. Mas compreendo que a música estimule a imaginação das pessoas. Uma vez, peguei um táxi em Londres e o motorista disse que seus três filhos foram gerados ao som dela.  

A SENHORA AINDA BEBE?
Bebo, mas não nas quantidades assustadoras dos anos 70. Como a carreira de cantora é importante para mim, procuro cuidar da saúde. Deixei de fumar e evito cair na balada.  

É DIFÍCIL ENVELHECER?
Sim, é duro. Sei que nunca mais terei o vigor e a beleza que tanto encantaram os homens na década de 70. Mas sabe o que é mais difícil para mim? Envelhecer sem ter alguém ao meu lado. Quando estamos amando, nem percebemos o tempo passar. Atualmente, minhas companhias são meus amigos e meu cachorro.

A SENHORA FICOU CHOCADA QUANDO GAINSBOURG GRAVOU UMA ODE AO INCESTO EM DUETO COM CHARLOTTE, SUA FILHA COM ELE?
Serge foi um transgressor, mas também uma das pessoas mais moralistas que já conheci. Ele se recusava a tirar a roupa na frente da família porque achava o corpo humano feio. O dueto dele com Charlotte foi só uma brincadeira, não tinha nada de perversão sexual.  

NO BRASIL, A SENHORA VISITOU ENTIDADES ASSISTENCIAIS. COMO É SEU ENVOLVIMENTO COM PROJETOS SOCIAIS?
Sou uma brigona de primeira. Uma de minhas discussões com Serge aconteceu porque eu saí pelas ruas de Paris numa passeata pró-aborto. Quando ele veio ralhar comigo, eu retruquei: "Se você tivesse idéia das mulheres que precisaram abortar filhos seus e nunca o incomodaram com processos de paternidade, talvez mudasse de opinião". Estou proibida de cantar na Rússia por causa de minhas convicções políticas. Sou a favor da independência da Chechênia e denunciei as barbaridades do governo russo em relação ao povo daquele país.  

A SENHORA FICOU CONHECIDA COMO ATRIZ GRAÇAS AO FILME BLOW UP, DO ITALIANO ANTONIONI. QUAL O PRAZER DE TRABALHAR NO CINEMA?
Se a carreira musical empaca, vou para o cinema. Se não encontro a felicidade no cinema, vou para o teatro. Assim nunca fico parada. No meu novo filme interpreto uma mulher que recorre à análise ao se apaixonar por um homossexual. Pode parecer estranho, mas já me apaixonei por gays. Mas confesso que nunca fiz análise. Meus filhos é que tiveram de encarar o terapeuta para me entender.

 
 
 
 
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