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André
Petry Um tempo de trevas
"O
que mais assusta na eleição dos EUA, mais que o frenético
belicismo de Bush, é isto: o triunfo das trevas na terra da democracia
e da liberdade"
Esse Bush é um craque. Ele e seus estrategistas políticos sabiam
que, caso conseguissem empolgar os evangélicos a ponto de fazê-los
sair de casa para se enfileirar nas cabines de votação, sua reeleição
estaria garantida. Como um terço do eleitorado americano é evangélico,
e boa parte tem uma visão um tanto obscurantista da vida, além de
achar que os democratas esnobam sua fé, Bush saiu-se muito bem. A massa
mais atrasada dos Estados Unidos, aquela parcela que acredita mais no mito da
virgindade de Maria do que na teoria evolucionista de Charles Darwin, entregou
a Bush a missão clara de restringir o direito ao aborto, de impedir o casamento
homossexual, de travar as pesquisas científicas com células-tronco,
entre outros primitivismos. O que mais assusta na eleição dos Estados
Unidos, mais que a alarmante dessintonia dos americanos com o resto do mundo,
mais que o frenético belicismo de Bush, mais que a primazia da versão
sobre o fato, é isto: o triunfo das trevas na terra da democracia e da
liberdade.
Defender a legalização do aborto, ou a manutenção
do aborto legal, não é pregar o triunfo da morte sobre a vida
é reconhecer o direito inalienável da mulher sobre o próprio
corpo, coisa que só o medievalismo não admite. Defender a união
civil entre pessoas do mesmo sexo não é difundir a promiscuidade
nem atentar contra a preservação da espécie humana
é reconhecer a liberdade de cada cidadão para lidar com a própria
sexualidade. Defender as pesquisas com células-tronco, essa maravilha que
a ciência promete nos entregar no combate à morte e à dor,
não é atentar contra o direito de embriões indefesos
é reconhecer que o universo dogmático da fé, com suas imensas
palmeiras de belas crenças, não pode atrapalhar o mundo laico da
ciência. A maioria do eleitorado americano, ao reeleger Bush, diz não
a tudo isso e aposta no que há de mais rudimentar na sociedade. É
de espantar: se queriam tanto obscurantismo nem precisavam se dar ao trabalho
de reeleger Bush bastava que se mudassem para as cavernas do Afeganistão
dos talibãs.
Preocupa o fato de que, como potência única, dona de uma influência
e de um poder incontrastáveis, os Estados Unidos têm força
para espalhar as trevas mundo afora. Por isso, é importante saber o que
se passa lá dentro. Um artigo recente de Maureen Dowd, a mais ferina e
engraçada colunista do The New York Times, depois de observar a
ironia de ver um presidente que decretou uma guerra com base em mentiras ser eleito
por causa de seus "valores morais", conta um pouco dos novos eleitos na América:
• Tom
Coburn, que ganhou a eleição como senador pelo Estado de Oklahoma
dizendo que a disputa era entre o bem e o mal, defende a aplicação
da pena de morte para médicos que fazem aborto.
• John Thune, conservador cristão que faz campanha contra o aborto e também
foi eleito, afirma que é a favor de incluir na Constituição
uma emenda que proíba o casamento homossexual e a queima da bandeira dos
Estados Unidos.
• Jim DeMint, eleito senador pela Carolina do Sul, defende que homossexuais sejam
proibidos de ensinar nas escolas públicas. E que a escola deveria demitir
a professora que, sendo solteira, ficasse grávida de seu namorado.
É, esse Bush é um craque.
Tempos difíceis vêm por aí. |