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Edição 1 721 - 10 de outubro de 2001
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Luiz Felipe de Alencastro

Os burricos do Afeganistão

"No meio da catadupa de notícias sobre
intolerância, fanatismo, terror e guerra,
o espectro das tropas de burricos da ONU
traz uma luz deesperança nesta primeira
guerra do milênio"


A tragédia da terça-feira negra deu lugar a uma gigantesca cobertura na mídia. Desde o assassinato de John Kennedy, em 1963, nada de tão dramático e de conseqüências políticas tão graves havia sido registrado ao vivo. Contudo, à diferença dos tiros no presidente americano em Dallas, filmados por um cineasta amador em imagens divulgadas bem mais tarde, a destruição das Twin Towers propagou-se instantaneamente no universo esquadrinhado pela mídia. Comentado pela imprensa, televisão e internet, o drama continua a gerar um acúmulo de informações e de significados contraditórios. Ao lado de novos enfoques sobre a realidade contemporânea – nunca se escreveu tanto sobre o Afeganistão –, ressurgem medos e incertezas ancestrais.

Jornalistas e diversos especialistas dissertam sobre a administração Bush, o Oriente Médio e o Islã. Textos clássicos do século XIX são reeditados. Voltam à ordem do dia as reflexões de Tocqueville (1805-1859) sobre a excepcionalidade da história americana, enquanto o diário parisiense Le Monde publica um estudo de Engels, o parceiro de Marx, sobre o Afeganistão e o semanário londrino The Sunday Times recorre aos escritos do jornalista e romancista Rudyard Kipling (1865-1936) para apontar o impacto do imperialismo inglês em Cabul.

A despeito dos esforços para entender a tragédia, a irracionalidade também ganha espaço. Segundo a imprensa britânica, pela primeira vez desde o início da era da internet a palavra "sex" perdeu o primeiro lugar para "Nostradamus" (1503-1566) no rol das informações mais procuradas nos buscadores on-line que vasculham os bilhões de páginas da web. De pouco adiantam as advertências dos eruditos, que desautorizam as elucubrações excogitadas a partir dos escritos do adivinho francês. Para os crentes, o que Nostradamus falou está falado! Outro tipo de crendice, muito menos inocente, tem a ver com o anti-semitismo. Tal o venenoso disparate contado por radicais islâmicos e espalhado por mesquitas de várias partes do mundo: os judeus teriam sido os autores da catástrofe em Nova York para atiçar a hostilidade americana contra os muçulmanos. Renova-se a sinistra tradição dos que acreditam num eterno complô judaico. No século XVI, quando a Inquisição era todo-poderosa em Portugal, um eminente escritor e pregador sacro, frei Amador Arrais, registrou – e endossou – em seus Diálogos (1589) a aleivosa interpretação histórica dos mais fanáticos cristãos ibéricos: a doutrina islâmica teria sido criada pelos judeus no começo do século VII para combater o cristianismo! Mas a extensa antologia das intolerâncias não se embaraça com as próprias contradições e inclui agora os cretinos que assimilam islamismo e fanatismo religioso, Corão e Guerra Santa.

Entender a tragédia é também buscar os meios de extirpar as raízes do fanatismo. Na época de Kipling, a luta da Inglaterra e da Rússia pelo controle da Ásia Central se chamava o "Grande Jogo". Hoje, o jogo inclui um parceiro até agora silencioso, mas temível, a China. Aliada do Paquistão contra a Índia, a China jamais aceitará em Cabul um governo hostil aos paquistaneses. Como os parceiros regionais do atual Grande Jogo – a Índia e o Paquistão – possuem a arma atômica e não hesitarão em utilizá-la num conflito frontal, a reconstrução do Afeganistão após o desbarato de Osama bin Laden e dos talibãs apresenta-se como uma operação complexa. E isso explica boa parte da prudência do presidente Bush.

Em qualquer hipótese, por causa do frio, da fome ou das bombas, muitos afegãos morrerão. Para tentar remediar os dramas desse povo corajoso e malsinado, a ONU anunciou que está comprando 4.000 burros para distribuir 200 toneladas de comida nos desvãos das montanhas do Afeganistão. No meio da catadupa de notícias sobre intolerância, fanatismo, terror e guerra, o espectro das tropas de burricos da ONU traz uma luz de esperança nesta primeira guerra do milênio.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (
lfa@workmail.com)

 
 
   
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