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Edição 1 721 - 10 de outubro de 2001
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Roberto Pompeu de Toledo

Notas de um tempo
de espera

Sobre as cidades e a imaginação
de cada um, torres de verdade
e
de luz e armadilhas da semântica

Está bem que o mundo acabe um dia, é o que prevêem não só os profetas mas certas teorias de astrônomos – mas Veneza? Veneza tem de ir junto? Não. Veneza não. Veneza e o delírio urbanístico de fazer uma cidade sobre as águas, Veneza e os palácios, a praça São Marcos e as pontes? Não. Veneza não dá para concordar tão facilmente que venha um dia a sumir, mesmo que todo o resto suma, ou mesmo que, independentemente do fim do mundo, já há tanto tempo se preveja que, afundando lentamente no mar, seu destino seja mesmo extinguir-se.

O leitor poderia concordar que Veneza desaparecesse, desde que Florença fosse poupada. Outro preferiria poupar Paris, ou Praga, Ouro Preto ou o Rio de Janeiro. Não importa. O que se quer aqui é ressaltar quanto as cidades fazem parte do acervo de referências estéticas e afetivas de cada um. Elas não são só cidades. Não são só lugares para morar, passar férias, ou fornecer fotos que se contemplam nas revistas e cartões-postais. São elementos que se entranham no universo subjetivo de cada um, sem os quais fica faltando um dado que modifica irremediavelmente a maneira de sentir e pensar o mundo. Daí mais um argumento para avaliar a enormidade do atentado contra Nova York. O ataque terrorista não foi só contra a Nova York física. Foi contra a Nova York que existe na imaginação de cada um. Foi, em conseqüência, um ataque contra a imaginação de cada um.

É guerra ou não é guerra? Uma das questões que a situação criada com os atentados nos Estados Unidos suscitava, pelo menos até quinta-feira passada, quando estas notas foram escritas, era semântica. Convenhamos que não é de hoje que a palavra guerra anda desgastada. Falava-se, e fala-se, em guerra às drogas, guerra à Aids, guerra à inflação. Falava-se, e fala-se, em guerra de gerações e guerra dos sexos. Os anúncios de inseticida falam em guerra aos insetos. Os das lojas de varejo, em guerra aos preços. Eis uma palavra mais usada em sentido figurado – e ainda bem – do que no sentido próprio. Ocorre que o presidente George W. Bush, quando falou em guerra, e ele não economizou o emprego da palavra, nos primeiros dias que se seguiram aos atentados, não falou em sentido figurado. Se assim é, era de se perguntar, enquanto não decolavam os aviões: cadê a guerra?

Essa mesma pergunta era feita pelos franceses, entre setembro de 1939 e maio de 1940. No dia 3 de setembro de 1939, dois dias depois da invasão da Polônia pelas tropas de Hitler, a França e a Inglaterra declararam guerra à Alemanha. No entanto, entre esse dia e 10 de maio do ano seguinte, que aconteceu? Nada. A guerra estava declarada, em tese, mas insistia em não se configurar na prática. Viveu-se a situação que os franceses apelidaram de "drôle de guerre" – uma guerra de opereta, porcaria de guerra. No dia 10 de maio, quando começaram a sofrer fulminante e devastadora invasão de seu território, os franceses viram o que é bom. Estaríamos vivendo uma nova versão da "drôle de guerre", em que todos se perguntam onde ela está, alguns até duvidam dela – até que ela desaba com todo o ímpeto de sua fúria reprimida?

Tanto o ataque foi contra a imaginação de cada um que, logo nas primeiras horas, surgiam idéias para consertar o estrago provocado nesse setor. Alguns, entre os quais o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, apresentaram a proposta de construir tudo de novo. Já uma dupla de arquitetos nova-iorquinos, Gustavo Bonevardi e John Bennett, apresentou outra solução, menos cara e trabalhosa e de consecução mais rápida: fazer uma torre de luz. Ou seja, projetar na paisagem vazia, por meio de fachos de luz, uma réplica do que foram um dia as torres gêmeas do World Trade Center. Outra dupla de profissionais teve a mesma idéia e agora, segundo informa a revista The New Yorker, os quatro trabalham juntos nela.

Um deles afirma que começou a pensar no assunto ao ser assaltado por uma sensação próxima àquela das pessoas que perdem um braço, ou uma perna – a sensação de que o membro perdido ainda está lá. O membro não está mais lá, mas ainda se sente dor e coceira. Fabricar torres de luz seria uma forma de dar visibilidade à sensação de que as outras, as verdadeiras, ainda estão lá, ainda que com a consistência ilusória dos fachos de luz, a consistência dos fantasmas.

E, já que se falou em semântica, que fazer agora com o termo "xiita"? Xiita, de nome da facção muçulmana majoritária no Irã, passou a sinônimo de radical e intransigente, depois da revolução dos aiatolás. No entanto, desta vez o Irã condena os atentados e seu governo é inimigo dos talibãs do Afeganistão. Os xiitas ficaram um pouco menos xiitas. E xiitas mesmo, com perdão pela contradição em termos, viraram os sunitas – nome da outra facção muçulmana – do Talibã. Mais xiitas ainda viraram os seguidores, igualmente sunitas, de Osama bin Laden.

   
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