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Roberto
Pompeu de Toledo
Notas
de um tempo
de
espera
Sobre
as cidades
e a imaginação
de
cada um, torres
de verdade
e de
luz e armadilhas
da
semântica
Está
bem que o mundo acabe um dia, é o que prevêem não
só os profetas mas certas teorias de astrônomos mas
Veneza? Veneza tem de ir junto? Não. Veneza não. Veneza
e o delírio urbanístico de fazer uma cidade sobre as águas,
Veneza e os palácios, a praça São Marcos e as pontes?
Não. Veneza não dá para concordar tão facilmente
que venha um dia a sumir, mesmo que todo o resto suma, ou mesmo que, independentemente
do fim do mundo, já há tanto tempo se preveja que, afundando
lentamente no mar, seu destino seja mesmo extinguir-se.
O leitor poderia concordar que Veneza desaparecesse, desde que Florença
fosse poupada. Outro preferiria poupar Paris, ou Praga, Ouro Preto ou
o Rio de Janeiro. Não importa. O que se quer aqui é ressaltar
quanto as cidades fazem parte do acervo de referências estéticas
e afetivas de cada um. Elas não são só cidades. Não
são só lugares para morar, passar férias, ou fornecer
fotos que se contemplam nas revistas e cartões-postais. São
elementos que se entranham no universo subjetivo de cada um, sem os quais
fica faltando um dado que modifica irremediavelmente a maneira de sentir
e pensar o mundo. Daí mais um argumento para avaliar a enormidade
do atentado contra Nova York. O ataque terrorista não foi só
contra a Nova York física. Foi contra a Nova York que existe na
imaginação de cada um. Foi, em conseqüência,
um ataque contra a imaginação de cada um.
É
guerra ou não é guerra? Uma das questões que a situação
criada com os atentados nos Estados Unidos suscitava, pelo menos até
quinta-feira passada, quando estas notas foram escritas, era semântica.
Convenhamos que não é de hoje que a palavra guerra anda
desgastada. Falava-se, e fala-se, em guerra às drogas, guerra à
Aids, guerra à inflação. Falava-se, e fala-se, em
guerra de gerações e guerra dos sexos. Os anúncios
de inseticida falam em guerra aos insetos. Os das lojas de varejo, em
guerra aos preços. Eis uma palavra mais usada em sentido figurado
e ainda bem do que no sentido próprio. Ocorre que
o presidente George W. Bush, quando falou em guerra, e ele não
economizou o emprego da palavra, nos primeiros dias que se seguiram aos
atentados, não falou em sentido figurado. Se assim é, era
de se perguntar, enquanto não decolavam os aviões: cadê
a guerra?
Essa mesma pergunta era feita pelos franceses, entre setembro de 1939
e maio de 1940. No dia 3 de setembro de 1939, dois dias depois da invasão
da Polônia pelas tropas de Hitler, a França e a Inglaterra
declararam guerra à Alemanha. No entanto, entre esse dia e 10 de
maio do ano seguinte, que aconteceu? Nada. A guerra estava declarada,
em tese, mas insistia em não se configurar na prática. Viveu-se
a situação que os franceses apelidaram de "drôle de
guerre" uma guerra de opereta, porcaria de guerra. No dia 10 de
maio, quando começaram a sofrer fulminante e devastadora invasão
de seu território, os franceses viram o que é bom. Estaríamos
vivendo uma nova versão da "drôle de guerre", em que todos
se perguntam onde ela está, alguns até duvidam dela
até que ela desaba com todo o ímpeto de sua fúria
reprimida?
Tanto
o ataque foi contra a imaginação de cada um que, logo nas
primeiras horas, surgiam idéias para consertar o estrago provocado
nesse setor. Alguns, entre os quais o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani,
apresentaram a proposta de construir tudo de novo. Já uma dupla
de arquitetos nova-iorquinos, Gustavo Bonevardi e John Bennett, apresentou
outra solução, menos cara e trabalhosa e de consecução
mais rápida: fazer uma torre de luz. Ou seja, projetar na paisagem
vazia, por meio de fachos de luz, uma réplica do que foram um dia
as torres gêmeas do World Trade Center. Outra dupla de profissionais
teve a mesma idéia e agora, segundo informa a revista The New
Yorker, os quatro trabalham juntos nela.
Um deles afirma que começou a pensar no assunto ao ser assaltado
por uma sensação próxima àquela das pessoas
que perdem um braço, ou uma perna a sensação
de que o membro perdido ainda está lá. O membro não
está mais lá, mas ainda se sente dor e coceira. Fabricar
torres de luz seria uma forma de dar visibilidade à sensação
de que as outras, as verdadeiras, ainda estão lá, ainda
que com a consistência ilusória dos fachos de luz, a consistência
dos fantasmas.
E,
já que se falou em semântica, que fazer agora com o termo
"xiita"? Xiita, de nome da facção muçulmana majoritária
no Irã, passou a sinônimo de radical e intransigente, depois
da revolução dos aiatolás. No entanto, desta vez
o Irã condena os atentados e seu governo é inimigo dos talibãs
do Afeganistão. Os xiitas ficaram um pouco menos xiitas. E xiitas
mesmo, com perdão pela contradição em termos, viraram
os sunitas nome da outra facção muçulmana
do Talibã. Mais xiitas ainda viraram os seguidores, igualmente
sunitas, de Osama bin Laden.
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