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"Pensei
em morrer"
Ator que foi Super-Homem fala da
dor e do desespero causados pelo
acidente
que o deixou tetraplégico
e do sonho de voltar a andar
Lia
Abbud
A biografia do ator Christopher Reeve chegou ao Brasil no mês passado.
Narrada em primeira pessoa e com o título original de Still
Me (traduzido para Ainda Sou Eu, na edição em
português), é um relato emocionante e detalhado de todas
as etapas do drama que interrompeu bruscamente sua bem-sucedida carreira
em Hollywood. Durante uma competição de hipismo, há
mais de seis anos, Reeve caiu do cavalo e fraturou as duas primeiras vértebras
da coluna cervical. Escapou da morte praticamente certa, mas ficou tetraplégico.
Chocante por si só, a situação ainda ganhou contornos
de triste ironia porque atingiu um ator que se tornou conhecido interpretando
nas telas de cinema o Super-Homem o herói forte, veloz,
indestrutível. Depois da tragédia, Reeve iniciou uma obstinada
e comovente luta para voltar a andar, que contraria as possibilidades
realistas oferecidas hoje pela medicina. De sua casa em Nova Jersey, nos
Estados Unidos, ele falou a VEJA sobre medo, dor, desespero e mostrou
imbatível otimismo.
Veja O senhor já declarou em várias entrevistas
que pretendia voltar a andar até seu qüinquagésimo
aniversário. Ele será em setembro de 2002. Não é
delírio achar que isso é possível?
Reeve
O acidente que me deixou tetraplégico aconteceu há mais
de seis anos. Para você ter uma idéia da minha situação,
no começo, ainda no hospital, eu só conseguia mexer a cabeça.
Um ano depois, já era capaz de encolher os ombros e respirar sozinho
por curtos períodos de tempo. Para quem tem de viver até
hoje conectado a um aparelho respirador, como eu, foi uma vitória
e tanto. Houve outras nos últimos tempos. Hoje posso fazer pequenos
movimentos com o dedo polegar de uma das mãos e com o punho da
outra. No meu próximo aniversário, realmente gostaria de
levantar e dar um abraço em todas as pessoas que tanto me ajudaram.
Mas, provavelmente, não irei comemorar meus 50 anos de pé,
brindando com a minha família e os amigos. Apesar disso, graças
a todos os progressos que ocorreram, continuo muito otimista e esperançoso
de sair da cadeira de rodas.
Veja O acidente do qual o senhor foi vítima também
interrompeu uma bem-sucedida carreira de ator em Hollywood. Como o senhor
superou essas perdas?
Reeve
Quando recuperei a consciência no hospital, o único pensamento
que passava pela minha cabeça eram coisas do tipo: "Eu estraguei
minha vida, sou um imbecil". Diante disso, a idéia de suicídio
foi uma reação natural. Você sente que sua vida será
tão diferente e limitada que não vale mais a pena continuar.
Também me sentia muito culpado em relação à
família, pensando em quanto minha mulher, Dana, e meus três
filhos teriam de abdicar da sua liberdade para tomar conta de mim naquela
situação. Não queria ser um peso para as pessoas
que me amam. Esses pensamentos acabaram no primeiro encontro que tive
com a minha família no hospital. Antes que eu dissesse qualquer
coisa, Dana falou que não me deixaria, que não iria embora
por causa das seqüelas do acidente. Isso foi o que realmente me deu
forças para continuar vivendo. Eu odiaria ver alguém com
lesão de medula pôr fim à vida. Estamos no limiar
da cura.
Veja Na autobiografia, o senhor diz que, nos primeiros dias
no hospital, sua mãe chegou a pedir aos médicos que desligassem
os aparelhos que o mantinham vivo. O senhor guarda alguma mágoa
desse episódio?
Reeve
De forma alguma. Antes do acidente, eu costumava dizer que, se não
pudesse mais velejar, nadar ou andar a cavalo, minha vida não valeria
mais a pena. Minha mãe só estava querendo atender ao meu
desejo. Felizmente, Dana e os médicos resistiram. Hoje, penso de
forma muito diferente, é claro. Gosto de me sentar próximo
à janela de casa para observar os pássaros no céu
e as árvores. Passo horas me deleitando com isso. Antes do acidente,
nunca poderia imaginar que alguém sentisse prazer com esse tipo
de atividade. Mas acho que todos deveriam experimentar. Esses momentos
de quietude e contemplação ajudam a manter a minha força.
Não posso ficar obcecado por coisas que não sou mais capaz
de fazer.
Veja Quais foram as etapas mais duras de enfrentar em sua
luta pela recuperação?
Reeve
Com o impacto da queda que sofri, tive fratura nas duas primeiras vértebras
da coluna cervical. É a conhecida "lesão do enforcado",
a mesma fratura que acontece quando o alçapão da forca se
abre e o nó do laço se fecha no pescoço do condenado.
Eu lutava para respirar como alguém que está se afogando.
A primeira coisa que os médicos precisaram fazer foi ligar minha
cabeça ao pescoço, literalmente. As duas partes estavam
desconectadas. Quando tive alta e fui encaminhado a um centro de reabilitação,
recebi um tipo de manual que descrevia quais os problemas que poderia
enfrentar naquela condição. Mas o livro não tinha
nenhuma informação para pacientes que haviam sofrido lesões
acima da quarta vértebra, como era o meu caso. Isso porque em casos
assim as vítimas quase sempre morrem. Fiquei muito assustado ao
saber disso. Mal sabia ainda quais outras provas eu teria pela frente.
Veja O senhor pode citar algumas?
Reeve
Tive
graves problemas nos pulmões, quebrei um braço quando estava
sendo transportado para a cadeira de rodas... E não foi o pior,
acredite. O mais horrível foi o dia em que os médicos disseram
que uma de minhas pernas precisava ser amputada abaixo do joelho. A crise
aconteceu em meados de 1997. Eu tinha pegado uma infecção
que não podia ser debelada sem a amputação. Na hora,
explodi: "Chega, já sofri demais, isso é inaceitável!"
Insisti para continuarem me receitando um tratamento intensivo de antibióticos.
Felizmente, a infecção regrediu. Não conservei apenas
a perna. O mais importante foi manter vivo o sonho de um dia poder voltar
a andar.
Veja O fato de o senhor ser um artista conhecido tornou mais
fácil ou difícil enfrentar essa situação?
Reeve
No
começo dos trabalhos na clínica de reabilitação,
alguém propôs que eu ficasse isolado dos demais pacientes,
só pelo fato de ser famoso. Fiquei revoltado e pedi para ser tratado
como um paciente comum. Quando comecei a me relacionar com outras pessoas
com problemas semelhantes, passei a aceitar melhor a situação.
O lado bom da fama, em relação à minha tragédia,
foi a solidariedade das pessoas. O mundo todo soube do meu acidente. Já
recebi mais de 400.000 cartas de apoio.
Veja Qual dessas mensagens foi a mais tocante?
Reeve
Uma
das que mais me emocionaram foi a da princesa Diana. Fomos amigos durante
alguns anos e significou muito para mim quando recebi a carta dela no
hospital. Ela dizia que estava torcendo muito pela minha recuperação
para que pudéssemos dançar juntos novamente, como fizemos
certa vez, anos antes. Não muito tempo depois, ela morreu naquele
acidente de carro.
Veja Como é sua rotina hoje?
Reeve
Tenho uma agenda completamente tomada. Viajo muito fazendo palestras e
cuido dos interesses da minha fundação, que financia pesquisas
para a cura da paralisia. Isso sem contar o trabalho diário que
sou obrigado a fazer para manter meu corpo funcionando bem. Com ajuda
de uma enfermeira e uma equipe de assistentes, realizo baterias de exercícios
para ativar a circulação. Nos fins de tarde, treino respirar
sem o auxílio do aparelho. Os assistentes tiram o tubo e eu tento
respirar usando o diafragma, como as pessoas normais. Para mim é
muito difícil, é uma atividade muito cansativa. Uma vez
por semana, também tenho sessões de hidroginástica.
Entro na água com outras cinco pessoas, que me ajudam com os movimentos.
Veja Durante as palestras ou eventos dos quais o senhor participa,
existe alguma reação do público que o incomoda?
Reeve
A única coisa que me incomoda é quando as pessoas me encontram
e ficam em pé do meu lado, em algum lugar em que não consigo
vê-las, em vez de ficar na minha frente. Não sei por que
elas fazem isso. Talvez seja muito difícil olhar de frente para
mim, em uma cadeira de rodas. Mas é uma reação compreensível.
Antigamente, eu lembro que também me sentia pouco à vontade
encarando alguém nessa condição. Agora, entendo o
que os outros sentem. Eu peço para ficarem à vontade, que
não tenham medo.
Veja Seu papel mais marcante no cinema foi o de Super-Homem.
Em algum momento o senhor sofre por não corresponder mais àquele
modelo do personagem: forte, bonito, saudável, indestrutível?
Reeve
Na época do filme, eu dizia brincando que precisava ser cuidadoso
para não ler a seguinte manchete nos jornais: "Super-Homem é
atropelado por ônibus". Meu acidente desencadeou experiências
humilhantes. Eu tinha vergonha da falência do meu corpo. Os médicos
me cutucavam, me espetavam, mas eu não sentia nada. Depois, aceitei
melhor a situação. O modelo do Super-Homem pode estar na
cabeça do público, mas não na minha. Para mim, ele
foi apenas um personagem. Muito marcante na minha carreira, mas apenas
um personagem.
Veja Depois do acidente, o senhor já assistiu novamente
a algum filme daquela série?
Reeve
Revi pela primeira vez o Superman 1 no começo deste ano,
quando foi lançada a versão em DVD. Ele fazia parte de uma
coleção com os quatro filmes. Tinha bastante coisa que não
foi para a tela, além de entrevistas com os atores e até
o meu teste de admissão no elenco. Foi engraçado me ver.
Eu era bem mais magro. E até hoje não sei por que fui escolhido.
Foi incrível assistir àquilo, não foi um sofrimento.
É uma ótima lembrança, um momento especial. Fico
feliz por ter tido essa oportunidade e por saber que tantos anos depois
as pessoas ainda gostam desse filme.
Veja Alguns outros atores interpretaram Super-Homem, mas
nenhum deles ficou tão marcado por esse papel quanto o senhor.
Como é possível explicar essa identificação?
Reeve
Não concordo com a premissa de sua pergunta. Acho que o personagem
tem mais força que o ator. Desde a década de 30, o Super-Homem
tem sido uma figura importante na cultura americana. Nos tempos da Grande
Depressão econômica, ele foi uma espécie de luz no
fim do túnel. Durante a II Guerra Mundial, os soldados nas trincheiras
liam quadrinhos do personagem como uma espécie de apoio moral.
A partir da década de 70, o mito ganhou significado um pouco diferente.
Virou uma figura mais romântica, um amigo em quem você pode
confiar. O conceito de super-herói muda de acordo com o tempo.
Se houver algum outro filme, a personalidade do "homem de aço"
certamente terá de refletir essa nova era.
Veja Esse conceito de super-herói mudou para o senhor
também?
Reeve
Quando
eu era criança, idolatrava gente como o aviador Charles Lindbergh,
o mágico Houdini, os grandes esportistas. A definição
que tenho hoje de heróis é muito mais elástica. Sofri
muito, mas posso dizer que tenho alguns privilégios para enfrentar
esta situação. Tenho acesso aos melhores médicos
e dinheiro suficiente para bancar o tratamento sem ter de vender o meu
patrimônio. Isso me distancia das pessoas que considero heróicas.
Há muita gente que está numa cadeira de rodas, tetraplégica,
sem os mesmos recursos de que eu disponho. Essas pessoas comuns que lutam
contra grandes obstáculos é que são os heróis
da vida real.
Veja Apesar dessa admiração, suas campanhas
e suas expectativas otimistas de recuperação não
podem dar falsas esperanças a quem enfrenta o mesmo drama?
Reeve
Eu levo a sério minha responsabilidade e, quando expresso otimismo,
me baseio em conversas e encontros com os melhores cientistas do mundo.
Eles não têm motivo nenhum para mentir. Não espero
poder voltar a correr, mas sonho recuperar minha liberdade. Ficaria muito
feliz se pudesse me locomover com a ajuda de um andador. Ninguém
pode garantir ao certo o que pode ocorrer no futuro, mas é inegável
que a medicina tem feito muitos progressos nessa área. Tudo de
que preciso é ciência.
Veja Qual o campo de pesquisas mais promissor hoje para a
recuperação de pessoas com lesão de medula?
Reeve
Alguns
dias atrás, um cientista me disse que, se não existissem
restrições às pesquisas com as chamadas células-tronco,
eu provavelmente estaria de pé no próximo ano. Essas células
são hoje a grande esperança para pessoas que estão
na minha situação. Elas se originam a partir de óvulos
fecundados em laboratório. Nessa fase de desenvolvimento fetal,
podem se transformar em qualquer tipo de célula. A idéia
dos cientistas é induzir as células-tronco a se desenvolver
em grupos de tecido, de acordo com a necessidade do corpo. Além
de ajudar na recuperação das funções motoras
de pacientes com lesão na medula, também seria possível
curar o mal de Parkinson e uma série de outras doenças.
Criei a Fundação Christopher Reeve para ajudar a levantar
dinheiro para essa causa. Até o fim deste ano, nossa previsão
é arrecadar mais de 1 milhão de dólares para financiar
os cientistas que estão na linha de frente dessas pesquisas. Eu
acho que dentro de quatro ou cinco anos, mesmo se não estiver completamente
curado, terei ao menos uma melhora substancial, que fará muita
diferença na minha vida.
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