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Edição 1 721 - 10 de outubro de 2001
Entrevista: CHRISTOPHER REEVE

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"Pensei em morrer"

Ator que foi Super-Homem fala da
dor e do desespero causados pelo
acidente que o deixou tetraplégico
e do sonho de voltar a andar

Lia Abbud

A biografia do ator Christopher Reeve chegou ao Brasil no mês passado. Narrada em primeira pessoa e com o título original de Still Me (traduzido para Ainda Sou Eu, na edição em português), é um relato emocionante e detalhado de todas as etapas do drama que interrompeu bruscamente sua bem-sucedida carreira em Hollywood. Durante uma competição de hipismo, há mais de seis anos, Reeve caiu do cavalo e fraturou as duas primeiras vértebras da coluna cervical. Escapou da morte praticamente certa, mas ficou tetraplégico. Chocante por si só, a situação ainda ganhou contornos de triste ironia porque atingiu um ator que se tornou conhecido interpretando nas telas de cinema o Super-Homem – o herói forte, veloz, indestrutível. Depois da tragédia, Reeve iniciou uma obstinada e comovente luta para voltar a andar, que contraria as possibilidades realistas oferecidas hoje pela medicina. De sua casa em Nova Jersey, nos Estados Unidos, ele falou a VEJA sobre medo, dor, desespero e mostrou imbatível otimismo.

Veja – O senhor já declarou em várias entrevistas que pretendia voltar a andar até seu qüinquagésimo aniversário. Ele será em setembro de 2002. Não é delírio achar que isso é possível?
Reeve – O acidente que me deixou tetraplégico aconteceu há mais de seis anos. Para você ter uma idéia da minha situação, no começo, ainda no hospital, eu só conseguia mexer a cabeça. Um ano depois, já era capaz de encolher os ombros e respirar sozinho por curtos períodos de tempo. Para quem tem de viver até hoje conectado a um aparelho respirador, como eu, foi uma vitória e tanto. Houve outras nos últimos tempos. Hoje posso fazer pequenos movimentos com o dedo polegar de uma das mãos e com o punho da outra. No meu próximo aniversário, realmente gostaria de levantar e dar um abraço em todas as pessoas que tanto me ajudaram. Mas, provavelmente, não irei comemorar meus 50 anos de pé, brindando com a minha família e os amigos. Apesar disso, graças a todos os progressos que ocorreram, continuo muito otimista e esperançoso de sair da cadeira de rodas.

Veja – O acidente do qual o senhor foi vítima também interrompeu uma bem-sucedida carreira de ator em Hollywood. Como o senhor superou essas perdas?
Reeve – Quando recuperei a consciência no hospital, o único pensamento que passava pela minha cabeça eram coisas do tipo: "Eu estraguei minha vida, sou um imbecil". Diante disso, a idéia de suicídio foi uma reação natural. Você sente que sua vida será tão diferente e limitada que não vale mais a pena continuar. Também me sentia muito culpado em relação à família, pensando em quanto minha mulher, Dana, e meus três filhos teriam de abdicar da sua liberdade para tomar conta de mim naquela situação. Não queria ser um peso para as pessoas que me amam. Esses pensamentos acabaram no primeiro encontro que tive com a minha família no hospital. Antes que eu dissesse qualquer coisa, Dana falou que não me deixaria, que não iria embora por causa das seqüelas do acidente. Isso foi o que realmente me deu forças para continuar vivendo. Eu odiaria ver alguém com lesão de medula pôr fim à vida. Estamos no limiar da cura.

Veja – Na autobiografia, o senhor diz que, nos primeiros dias no hospital, sua mãe chegou a pedir aos médicos que desligassem os aparelhos que o mantinham vivo. O senhor guarda alguma mágoa desse episódio?
Reeve – De forma alguma. Antes do acidente, eu costumava dizer que, se não pudesse mais velejar, nadar ou andar a cavalo, minha vida não valeria mais a pena. Minha mãe só estava querendo atender ao meu desejo. Felizmente, Dana e os médicos resistiram. Hoje, penso de forma muito diferente, é claro. Gosto de me sentar próximo à janela de casa para observar os pássaros no céu e as árvores. Passo horas me deleitando com isso. Antes do acidente, nunca poderia imaginar que alguém sentisse prazer com esse tipo de atividade. Mas acho que todos deveriam experimentar. Esses momentos de quietude e contemplação ajudam a manter a minha força. Não posso ficar obcecado por coisas que não sou mais capaz de fazer.

Veja – Quais foram as etapas mais duras de enfrentar em sua luta pela recuperação?
Reeve – Com o impacto da queda que sofri, tive fratura nas duas primeiras vértebras da coluna cervical. É a conhecida "lesão do enforcado", a mesma fratura que acontece quando o alçapão da forca se abre e o nó do laço se fecha no pescoço do condenado. Eu lutava para respirar como alguém que está se afogando. A primeira coisa que os médicos precisaram fazer foi ligar minha cabeça ao pescoço, literalmente. As duas partes estavam desconectadas. Quando tive alta e fui encaminhado a um centro de reabilitação, recebi um tipo de manual que descrevia quais os problemas que poderia enfrentar naquela condição. Mas o livro não tinha nenhuma informação para pacientes que haviam sofrido lesões acima da quarta vértebra, como era o meu caso. Isso porque em casos assim as vítimas quase sempre morrem. Fiquei muito assustado ao saber disso. Mal sabia ainda quais outras provas eu teria pela frente.

Veja – O senhor pode citar algumas?
Reeve – Tive graves problemas nos pulmões, quebrei um braço quando estava sendo transportado para a cadeira de rodas... E não foi o pior, acredite. O mais horrível foi o dia em que os médicos disseram que uma de minhas pernas precisava ser amputada abaixo do joelho. A crise aconteceu em meados de 1997. Eu tinha pegado uma infecção que não podia ser debelada sem a amputação. Na hora, explodi: "Chega, já sofri demais, isso é inaceitável!" Insisti para continuarem me receitando um tratamento intensivo de antibióticos. Felizmente, a infecção regrediu. Não conservei apenas a perna. O mais importante foi manter vivo o sonho de um dia poder voltar a andar.

Veja – O fato de o senhor ser um artista conhecido tornou mais fácil ou difícil enfrentar essa situação?
Reeve – No começo dos trabalhos na clínica de reabilitação, alguém propôs que eu ficasse isolado dos demais pacientes, só pelo fato de ser famoso. Fiquei revoltado e pedi para ser tratado como um paciente comum. Quando comecei a me relacionar com outras pessoas com problemas semelhantes, passei a aceitar melhor a situação. O lado bom da fama, em relação à minha tragédia, foi a solidariedade das pessoas. O mundo todo soube do meu acidente. Já recebi mais de 400.000 cartas de apoio.

Veja – Qual dessas mensagens foi a mais tocante?
Reeve – Uma das que mais me emocionaram foi a da princesa Diana. Fomos amigos durante alguns anos e significou muito para mim quando recebi a carta dela no hospital. Ela dizia que estava torcendo muito pela minha recuperação para que pudéssemos dançar juntos novamente, como fizemos certa vez, anos antes. Não muito tempo depois, ela morreu naquele acidente de carro.

Veja – Como é sua rotina hoje?
Reeve – Tenho uma agenda completamente tomada. Viajo muito fazendo palestras e cuido dos interesses da minha fundação, que financia pesquisas para a cura da paralisia. Isso sem contar o trabalho diário que sou obrigado a fazer para manter meu corpo funcionando bem. Com ajuda de uma enfermeira e uma equipe de assistentes, realizo baterias de exercícios para ativar a circulação. Nos fins de tarde, treino respirar sem o auxílio do aparelho. Os assistentes tiram o tubo e eu tento respirar usando o diafragma, como as pessoas normais. Para mim é muito difícil, é uma atividade muito cansativa. Uma vez por semana, também tenho sessões de hidroginástica. Entro na água com outras cinco pessoas, que me ajudam com os movimentos.

Veja – Durante as palestras ou eventos dos quais o senhor participa, existe alguma reação do público que o incomoda?
Reeve – A única coisa que me incomoda é quando as pessoas me encontram e ficam em pé do meu lado, em algum lugar em que não consigo vê-las, em vez de ficar na minha frente. Não sei por que elas fazem isso. Talvez seja muito difícil olhar de frente para mim, em uma cadeira de rodas. Mas é uma reação compreensível. Antigamente, eu lembro que também me sentia pouco à vontade encarando alguém nessa condição. Agora, entendo o que os outros sentem. Eu peço para ficarem à vontade, que não tenham medo.

Veja – Seu papel mais marcante no cinema foi o de Super-Homem. Em algum momento o senhor sofre por não corresponder mais àquele modelo do personagem: forte, bonito, saudável, indestrutível?
Reeve – Na época do filme, eu dizia brincando que precisava ser cuidadoso para não ler a seguinte manchete nos jornais: "Super-Homem é atropelado por ônibus". Meu acidente desencadeou experiências humilhantes. Eu tinha vergonha da falência do meu corpo. Os médicos me cutucavam, me espetavam, mas eu não sentia nada. Depois, aceitei melhor a situação. O modelo do Super-Homem pode estar na cabeça do público, mas não na minha. Para mim, ele foi apenas um personagem. Muito marcante na minha carreira, mas apenas um personagem.

Veja – Depois do acidente, o senhor já assistiu novamente a algum filme daquela série?
Reeve – Revi pela primeira vez o Superman 1 no começo deste ano, quando foi lançada a versão em DVD. Ele fazia parte de uma coleção com os quatro filmes. Tinha bastante coisa que não foi para a tela, além de entrevistas com os atores e até o meu teste de admissão no elenco. Foi engraçado me ver. Eu era bem mais magro. E até hoje não sei por que fui escolhido. Foi incrível assistir àquilo, não foi um sofrimento. É uma ótima lembrança, um momento especial. Fico feliz por ter tido essa oportunidade e por saber que tantos anos depois as pessoas ainda gostam desse filme.

Veja – Alguns outros atores interpretaram Super-Homem, mas nenhum deles ficou tão marcado por esse papel quanto o senhor. Como é possível explicar essa identificação?
Reeve – Não concordo com a premissa de sua pergunta. Acho que o personagem tem mais força que o ator. Desde a década de 30, o Super-Homem tem sido uma figura importante na cultura americana. Nos tempos da Grande Depressão econômica, ele foi uma espécie de luz no fim do túnel. Durante a II Guerra Mundial, os soldados nas trincheiras liam quadrinhos do personagem como uma espécie de apoio moral. A partir da década de 70, o mito ganhou significado um pouco diferente. Virou uma figura mais romântica, um amigo em quem você pode confiar. O conceito de super-herói muda de acordo com o tempo. Se houver algum outro filme, a personalidade do "homem de aço" certamente terá de refletir essa nova era.

Veja – Esse conceito de super-herói mudou para o senhor também?
Reeve – Quando eu era criança, idolatrava gente como o aviador Charles Lindbergh, o mágico Houdini, os grandes esportistas. A definição que tenho hoje de heróis é muito mais elástica. Sofri muito, mas posso dizer que tenho alguns privilégios para enfrentar esta situação. Tenho acesso aos melhores médicos e dinheiro suficiente para bancar o tratamento sem ter de vender o meu patrimônio. Isso me distancia das pessoas que considero heróicas. Há muita gente que está numa cadeira de rodas, tetraplégica, sem os mesmos recursos de que eu disponho. Essas pessoas comuns que lutam contra grandes obstáculos é que são os heróis da vida real.

Veja – Apesar dessa admiração, suas campanhas e suas expectativas otimistas de recuperação não podem dar falsas esperanças a quem enfrenta o mesmo drama?
Reeve – Eu levo a sério minha responsabilidade e, quando expresso otimismo, me baseio em conversas e encontros com os melhores cientistas do mundo. Eles não têm motivo nenhum para mentir. Não espero poder voltar a correr, mas sonho recuperar minha liberdade. Ficaria muito feliz se pudesse me locomover com a ajuda de um andador. Ninguém pode garantir ao certo o que pode ocorrer no futuro, mas é inegável que a medicina tem feito muitos progressos nessa área. Tudo de que preciso é ciência.

Veja – Qual o campo de pesquisas mais promissor hoje para a recuperação de pessoas com lesão de medula?
Reeve – Alguns dias atrás, um cientista me disse que, se não existissem restrições às pesquisas com as chamadas células-tronco, eu provavelmente estaria de pé no próximo ano. Essas células são hoje a grande esperança para pessoas que estão na minha situação. Elas se originam a partir de óvulos fecundados em laboratório. Nessa fase de desenvolvimento fetal, podem se transformar em qualquer tipo de célula. A idéia dos cientistas é induzir as células-tronco a se desenvolver em grupos de tecido, de acordo com a necessidade do corpo. Além de ajudar na recuperação das funções motoras de pacientes com lesão na medula, também seria possível curar o mal de Parkinson e uma série de outras doenças. Criei a Fundação Christopher Reeve para ajudar a levantar dinheiro para essa causa. Até o fim deste ano, nossa previsão é arrecadar mais de 1 milhão de dólares para financiar os cientistas que estão na linha de frente dessas pesquisas. Eu acho que dentro de quatro ou cinco anos, mesmo se não estiver completamente curado, terei ao menos uma melhora substancial, que fará muita diferença na minha vida.

 
 
   
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