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Gustavo
Franco
O
exemplo do
Plano Marshall
"Se
doações em grande escala para
reconstruir a Europa deram certo
para fomentar a economia e conter o
comunismo, o mesmo não valeria hoje
para
o
mundo islâmico, tendo em vista
o objetivo de conter o terrorismo?"
Ilustração Ale Setti
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Aberta a temporada de referências históricas úteis
aos dilemas trazidos pelos atentados de 11 de setembro, vale a pena debruçar-se
sobre um cidadão pouco conhecido mas cuja importância para
a política econômica do mundo ocidental nos anos 50 é
comparável à de Keynes para os anos 30. Trata-se do general
George Catlett Marshall, comandante-em-chefe do Exército americano
durante a II Guerra Mundial, herói nacional, feito secretário
de Estado do presidente Truman em janeiro de 1947.
Em junho desse mesmo ano, o secretário Marshall entraria para a
História em uma outra capacidade, ao proferir o principal discurso
da cerimônia de formatura na Universidade Harvard, anunciando as
linhas gerais do que Churchill chamaria "o ato menos sórdido da
História", e que logo adiante ficaria conhecido como o Plano Marshall.
O plano resultou em doações para países europeus,
entre 1948 e 1951, que somariam uns 150 bilhões de dólares
em dinheiro de hoje. O sucesso foi absoluto em reconstruir e reativar
a economia européia, de cuja prosperidade dependia em boa medida
a própria economia americana. Não deve haver dúvida,
estava em jogo também, e principalmente, o objetivo de proteger
a democracia do avanço do comunismo. É comum a percepção
de que o Plano Marshall só fez sentido no contexto da Guerra Fria,
mas muitos economistas enxergam algo bem maior na iniciativa. Mais especificamente,
o que se pode perguntar é se não temos um exemplo a seguir
nos dias de hoje. Ou seja, se doações em grande escala para
reconstruir a Europa deram certo para fomentar a economia e conter o comunismo,
o mesmo não valeria hoje para o mundo islâmico, tendo em
vista o objetivo de conter o terrorismo?
Algumas lições da experiência do Plano Marshall ajudam
a pensar sobre o problema. A primeira dificuldade foi apontada de pronto,
no próprio discurso em Harvard: a iniciativa tinha de partir deles,
europeus. Eles tinham que dizer o que fariam com o dinheiro, pois afinal
o plano devia ser deles. Era preciso construir uma comunhão de
interesses. A Europa tinha muitas necessidades, o presidente Truman e
o secretário Marshall uma estratégia, e o Congresso americano
estava interessado em democracia, multilateralismo, descolonização
e em que o dinheiro fosse usado para comprar produtos americanos. Nada
de estranhar, pois a ajuda, ainda mais nessa dimensão, não
era nem poderia ser inocente ou desinteressada. Do lado europeu o assunto
era mais simples: tratava-se de cavalo dado e, ademais, belíssimo
animal. O fato é que o dinheiro do Plano Marshall caiu em solo
fértil e produziu diversos "milagres econômicos", até
hoje festejados.
Contudo, a experiência não deve ser tomada como o indicativo
de uma regra geral. O dinheiro do Banco Mundial para países pobres,
por exemplo, deveria funcionar da mesma forma, embora em miniatura. Mas
não é isso que se observa. Muitos dos países potencialmente
beneficiados não querem atender às condições
necessárias para receber recursos das instituições
multilaterais e também de investidores privados. As razões
são variadas, mas não de todo desconexas: em maior ou menor
grau, os países não querem a "dependência externa",
rejeitam a globalização, as regras mais elementares do capitalismo
e, às vezes, também a televisão e outras "invasões
culturais" imperialistas. No Afeganistão, como se sabe, não
há "dependência externa", nem capitais voláteis, mas
também não existem capitais calmos e produtivos, nem vontade
de mudar as coisas. O Afeganistão é uma tragédia
econômica auto-infligida, como aliás são os outros
países que apoiam o terrorismo.
Os exegetas do Plano Marshall todos concordam que as coisas funcionaram
porque a ajuda foi dada a quem queria ser ajudado, ambos os lados concordando
sobre a forma da ajuda. É difícil vislumbrar qualquer coisa
que se pareça com isso no Afeganistão, para não falar
nos outros países pobres que acobertam terroristas. É pena.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente
do Banco Central (e-mail: gfranco@palavra.com
home
page: www.gfranco.com.br)
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