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Ponto
de vista: Lya Luft A
República do rabo preso "Paira
no ar uma sensação de que
tudo poderá se resolver nos velhos moldes do
PIP, o Partido do Interesse Próprio. Cautela, senhores: não
se pode enganar muita gente por longo tempo com tamanha desfaçatez"
Senhores, andamos falando demais, e mal. Usamos
frivolamente termos perigosos e abusamos das palavras de respeito. Exageramos
nos clichês e nos rótulos, geralmente burros e pobres, embora às
vezes necessários como tantas coisas pobres e burras que é
preciso suportar neste mundo. Usar o termo "elites"
requer muito cuidado. É temerário empregá-lo como se falássemos
de uma entidade abstrata, bicho-papão para assustar não criancinhas,
mas os tolos. Usamos a palavra sem sequer a definir direito. O conceito "elite"
significa "o melhor, os melhores", o que não envolve necessariamente dinheiro
nem sede de poder, muito menos arrogância, mas decência, por exemplo.
Honradez, pudor e consciência, por exemplo. Boa educação e
cortesia também, não vamos esquecer. Nada disso é privilégio
de ricos e poderosos. O que deve nos assustar é
o predomínio de um tipo de ralé: a da hipocrisia, da ambição
e do cinismo, que passa por cima do cadáver não da mãe,
mas do povo e da pátria. Nós, a gente brasileira, não somos
mais tão bobos assim. Um populismo tardio e a velha demagogia barata ainda
tentam seduzir o povo, fingindo que o protegem para melhor o explorar. Porém,
acho que falas delirantes, acusações falsas e auto-elogios pueris
enganarão cada vez menos os mais pobres e menos cultos, que merecem algo
bem melhor. Talvez ainda os contaminem alguns conceitos superados, fazendo-os
pensar que estão sendo ajudados, quando apenas os manipulam. Mas esta crise
deve nos tornar mais lúcidos. Esperemos que sim.
Ilustração
Atômica Studio
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Paira
no ar uma espero que passageira sensação de que tudo
poderá se resolver nos velhos moldes do grande PIP, o Partido do Interesse
Próprio. Fala-se em tentar estabelecer pactos dos quais nós, comuns
mortais, em outros tempos nada saberíamos. Mas hoje em dia, com políticos
honrados, jornalistas íntegros e pessoas conhecidas ou anônimas avisando,
ninguém mais vai poder dizer "Eu não sabia". Por isso tenho esperança
de que os atuais boatos de acordos e arranjos para que todo mundo se acomode e
continue se locupletando em paz sejam apenas boatos.
Cautela, senhores: não se pode enganar muita gente por longo tempo com
tamanha desfaçatez. Somos um país pouco desenvolvido, com muita
gente ainda desinformada e por isso facilmente manobrada, mas somos um povo honrado.
E os honrados podem se manifestar e agir, na indignação da integridade
privilégio de poucos. "Blindar" um
tumor não ajuda na cura do corpo, ao contrário: é preciso
refletir bem nisso. Que a dolorosa crise propicie uma grande mudança, servindo
para crescimento e esclarecimento, novas tomadas de posição, e um
recomeço positivo. Depende de cada um de nós. E, à medida
que os crimes forem comprovados, que sejam varridos os elementos maus de todos
os partidos, e eliminados de seus cargos os corruptos, os incompetentes e os omissos
que são seus cúmplices. Caso
o que deveria ser rigorosíssima investigação de dinheiros
mal ganhos e mal aplicados (portanto de corrupção) acabe numa ciranda
geral, em que os enganadores dançam segurando o rabo do vizinho, senhores,
afundaremos todos juntos num mar morno e de odor suspeito. De lá não
se retorna fácil. Se a verdade não
for perseguida e as conseqüências honestamente tiradas, vamos naufragar,
sim: cúmplices do cinismo que vai recobrir esta boa terra enquanto
o povo trabalha com salários indecentes mas paga impostos, acredita em
promessas mas morre nas filas, e nossos jovens deixam um país que não
lhes dá estímulo, para eventualmente morrer de forma miserável
em terra estrangeira. Não é hora de falar de esquerda, direita,
centro, elite ou povão, termos caducos e mofados. Falemos da grande faxina
moral, judicial e institucional que deve estar começando, sem a qual seremos
meros sobreviventes. Todos nós, os enganados e os enganadores, seremos
os humilhados habitantes da República dos Rabos Presos.
Se isso acontecer, condolências, senhores.
Lya Luft é escritora |