Edição 1917 . 10 de agosto de 2005

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Televisão
É melhor desafinar

Pode não ser uma boa idéia
sair vencedor do show de
calouros Fama


Sérgio Martins

 

Divulgação
"UOUOUUU..."
A quarta edição do Fama: vocais à moda gospel, jurados sem graça e talento fabricado

Em sua quarta edição, o programa Fama, da Rede Globo, mostra a cada sábado uma batalha parecida. Cantores se esforçam para não desafinar, para executar coreografias impecáveis e demonstrar desenvoltura no palco – tudo pelo prêmio máximo de um carro zero-quilômetro e pelo direito de gravar um disco e se apresentar numa casa de espetáculos. Pois eis aqui uma curiosidade: ganhar o Fama talvez seja um mau negócio. Os números mostram que o programa é quase sempre um atalho para o ostracismo (veja quadro). A dupla sertaneja Hugo & Tiago se manteve em alta depois de brilhar no programa – mas é uma exceção. Cantores como Vanessa Jackson, ganhadora da primeira edição, e Fael Mondego, que também se destacou nela, não decolaram. "Depois que gravei meu disco, esqueceram de mim", diz Vanessa. "Cantei um monte de músicas na televisão, mas voltei para casa", diz Fael, que nem conseguiu gravar disco. Já a cantora Luka foi desclassificada ainda nas eliminatórias, mas faturou como intérprete de um dos hits mais pegajosos dos últimos verões, Tô Nem Aí. E Roberta Sá, que passou despercebida no segundo Fama, teve seu CD de estréia bem acolhido pela crítica.

O programa contribui para a disseminação de um fungo musical: o cacoete de imitar o estilo dos cantores americanos de gospel e soul music. Seja em que gênero cantem, do pop romântico ao sertanejo, os concorrentes esticam as vogais ao fim de cada frase com um "uouououuu" ou "ah-ah-aaaah". É um maneirismo insuportável. "Os candidatos estão acostumados a cantar em barzinhos, onde esse recurso é comum", diz J.B. de Oliveira, o Boninho, diretor do Fama. A cada geração, o país produziu intérpretes cujo estilo viraria referência para os novatos, do vozeirão empostado de Nelson Gonçalves aos sussurros de João Gilberto. Agora, todos – homens e mulheres – copiam Whitney Houston e Mariah Carey. Fama sugere que a tradição vocal brasileira se quebrou. "Esses artistas confundem floreios com estilo, mas não têm identidade. É por isso que não vão longe", diz o pesquisador musical Hermínio Bello de Carvalho.

Com média de 14 pontos, Fama tem garantido à Globo o primeiro lugar em audiência nas tardes de sábado. Mas o fato de suas "revelações" não conseguirem se transformar em fenômenos de popularidade evidencia que a fórmula é capenga. O Fama renega um princípio básico dos shows de calouros – o de que mais vale um jurado ranzinza que uma dúzia de cantores aplicados. Em American Idol, programa que faz um sucesso tremendo nos Estados Unidos, a maior atração é o inglês Simon Cowell, que trata os concorrentes na base da galhofa mais cruel. Os jurados do Fama – o produtor musical Guto Graça Mello, a cantora Luciana Mello e o diretor de TV Carlos Magalhães – preferem dar "toques" sérios. Outro elemento do Fama também causa desconforto: a proposta de criar artistas como se fossem ratos de laboratório. O público brasileiro não repudia por princípio armações da indústria fonográfica. Mas, como no caso de certas comidas, conhecer o processo de fabricação pode acabar com a vontade de consumi-las. No próximo sábado, como sempre, dois concorrentes do Fama entrarão num duelo musical que levará à eliminação de um deles. Fica a sugestão: ainda dá tempo de desafinar.

 


Fotos Rede GLobo/divulgação e Adriana Pittigliani
 
 
 
 
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