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Televisão É
melhor desafinar Pode não ser
uma boa idéia sair vencedor do show de calouros Fama
 Sérgio
Martins Divulgação
 | "UOUOUUU..."
A quarta edição do Fama: vocais à moda gospel, jurados
sem graça e talento fabricado |
Em sua quarta edição, o programa Fama, da Rede Globo, mostra
a cada sábado uma batalha parecida. Cantores se esforçam para não
desafinar, para executar coreografias impecáveis e demonstrar desenvoltura
no palco tudo pelo prêmio máximo de um carro zero-quilômetro
e pelo direito de gravar um disco e se apresentar numa casa de espetáculos.
Pois eis aqui uma curiosidade: ganhar o Fama talvez seja um mau negócio.
Os números mostram que o programa é quase sempre um atalho para
o ostracismo (veja quadro). A dupla sertaneja Hugo
& Tiago se manteve em alta depois de brilhar no programa mas é
uma exceção. Cantores como Vanessa Jackson, ganhadora da primeira
edição, e Fael Mondego, que também se destacou nela, não
decolaram. "Depois que gravei meu disco, esqueceram de mim", diz Vanessa. "Cantei
um monte de músicas na televisão, mas voltei para casa", diz Fael,
que nem conseguiu gravar disco. Já a cantora Luka foi desclassificada ainda
nas eliminatórias, mas faturou como intérprete de um dos hits mais
pegajosos dos últimos verões, Tô Nem Aí. E Roberta
Sá, que passou despercebida no segundo Fama, teve seu CD de estréia
bem acolhido pela crítica.
O programa contribui para a disseminação de um fungo musical: o
cacoete de imitar o estilo dos cantores americanos de gospel e soul music. Seja
em que gênero cantem, do pop romântico ao sertanejo, os concorrentes
esticam as vogais ao fim de cada frase com um "uouououuu" ou "ah-ah-aaaah". É
um maneirismo insuportável. "Os candidatos estão acostumados a cantar
em barzinhos, onde esse recurso é comum", diz J.B. de Oliveira, o Boninho,
diretor do Fama. A cada geração, o país produziu intérpretes
cujo estilo viraria referência para os novatos, do vozeirão empostado
de Nelson Gonçalves aos sussurros de João Gilberto. Agora, todos
homens e mulheres copiam Whitney Houston e Mariah Carey. Fama
sugere que a tradição vocal brasileira se quebrou. "Esses artistas
confundem floreios com estilo, mas não têm identidade. É por
isso que não vão longe", diz o pesquisador musical Hermínio
Bello de Carvalho. Com média
de 14 pontos, Fama tem garantido à Globo o primeiro lugar em audiência
nas tardes de sábado. Mas o fato de suas "revelações" não
conseguirem se transformar em fenômenos de popularidade evidencia que a
fórmula é capenga. O Fama renega um princípio básico
dos shows de calouros o de que mais vale um jurado ranzinza que uma dúzia
de cantores aplicados. Em American Idol, programa que faz um sucesso tremendo
nos Estados Unidos, a maior atração é o inglês Simon
Cowell, que trata os concorrentes na base da galhofa mais cruel. Os jurados do
Fama o produtor musical Guto Graça Mello, a cantora Luciana
Mello e o diretor de TV Carlos Magalhães preferem dar "toques" sérios.
Outro elemento do Fama também causa desconforto: a proposta de criar
artistas como se fossem ratos de laboratório. O público brasileiro
não repudia por princípio armações da indústria
fonográfica. Mas, como no caso de certas comidas, conhecer o processo de
fabricação pode acabar com a vontade de consumi-las. No próximo
sábado, como sempre, dois concorrentes do Fama entrarão num
duelo musical que levará à eliminação de um deles.
Fica a sugestão: ainda dá tempo de desafinar.
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