Edição 1917 . 10 de agosto de 2005

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Cinema
O paradoxo de Walter

Água Negra é um filme de terror
com medo de assustar


Marcelo Marthe

Divulgação
Jennifer, em Água Negra: faltou "o mal" na refilmagem do terror japonês
DA INTERNET
Trailer


Á
gua Negra (Dark Water, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional, é o primeiro trabalho do diretor brasileiro Walter Salles para o cinema americano. Desde a indicação de Central do Brasil ao Oscar, em 1999, não faltaram propostas para ele fazer um filme em Hollywood. Depois de várias negativas, Salles optou por uma fita de terror – e do tipo francamente voltado ao entretenimento. O cineasta não se satisfez com o trabalho e desaprovou a versão final dada ao filme pelo estúdio. Lançada nos cinemas americanos no mês passado, a fita teve um desempenho mediano nas bilheterias. Ficou em quarto lugar em seu fim de semana de estréia, mas logo em seguida perdeu gás. O espectador também não ficará satisfeito com Água Negra.

O filme narra uma história que já foi testada e aprovada pelo terror japonês, a atual sensação do gênero. É a refilmagem de uma fita de Hideo Nakata, o mesmo do sucesso O Chamado. Assim como este último, baseia-se num conto de Koji Suzuki, autor que é considerado o "Stephen King japonês". Em vez de um subúrbio de Tóquio, a versão de Salles usa como cenário a Ilha Roosevelt, vizinhança de Manhattan dominada por conjuntos residenciais decrépitos. Dahlia (Jennifer Connelly), mulher que enfrentou um divórcio doloroso e passa por dificuldades financeiras, muda-se com a filha pequena para um desses prédios. Ela não demora a perceber que há algo de errado com o local. Quando abre a torneira, a água vem com fios de cabelo. No quarto, há uma goteira que piora a cada dia, sem motivo aparente. Dahlia ouve passos no andar superior, embora ninguém more lá. Aos poucos, descobre-se que coisas banais como uma mochila de criança, o elevador e a caixa-d'água do edifício contêm algo de maléfico.

Água Negra centra-se no drama humano de suas personagens: o trauma de infância da mãe, sua luta pela guarda da filha, a relação carinhosa entre ambas. A fotografia do brasileiro Affonso Beato busca um ângulo "belo" em situações tétricas. Uma certa poética da solidão urbana perpassa o enredo. Mas nada disso importa, já que o filme dá as costas ao essencial. O terror japonês apóia-se em premissas simples – como a da casa assombrada – para submeter o espectador a sustos do começo ao fim. Ele tem, além disso, uma temática de fundo, que é a natureza inclemente do mal. Não importa o que tenham sido em vida, uma vez que passam para "o outro lado", as criaturas de filmes como O Chamado e O Grito não cessam de propagar o horror. Água Negra decepciona duplamente. Só pelo terço final há alguma tentativa (sem êxito) de causar espanto. Falta também a visão de um mal que não pode ser apaziguado. E isso talvez diga algo sobre Walter Salles. À medida que avança na carreira, o diretor mostra-se cada vez mais solene (e portanto despido da ironia – para não falar na irreverência – necessária ao trabalho no cinema de gênero) e cada vez mais sentimental, voltado para as "boas emoções". Isso deixa Água Negra numa situação paradoxal: um filme de terror que tem medo de assustar.

 
 
 
 
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