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Cinema O
paradoxo de Walter Água
Negra é um filme de terror com medo
de assustar  Marcelo
Marthe
Divulgação
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em Água Negra: faltou "o mal" na refilmagem do terror japonês
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Água Negra (Dark Water,
Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional,
é o primeiro trabalho do diretor brasileiro Walter Salles para o cinema
americano. Desde a indicação de Central do Brasil ao Oscar,
em 1999, não faltaram propostas para ele fazer um filme em Hollywood. Depois
de várias negativas, Salles optou por uma fita de terror e do tipo
francamente voltado ao entretenimento. O cineasta não se satisfez com o
trabalho e desaprovou a versão final dada ao filme pelo estúdio.
Lançada nos cinemas americanos no mês passado, a fita teve um desempenho
mediano nas bilheterias. Ficou em quarto lugar em seu fim de semana de estréia,
mas logo em seguida perdeu gás. O espectador também não ficará
satisfeito com Água Negra.
O filme narra uma história que já foi testada e aprovada pelo terror
japonês, a atual sensação do gênero. É a refilmagem
de uma fita de Hideo Nakata, o mesmo do sucesso O Chamado. Assim como este
último, baseia-se num conto de Koji Suzuki, autor que é considerado
o "Stephen King japonês". Em vez de um subúrbio de Tóquio,
a versão de Salles usa como cenário a Ilha Roosevelt, vizinhança
de Manhattan dominada por conjuntos residenciais decrépitos. Dahlia (Jennifer
Connelly), mulher que enfrentou um divórcio doloroso e passa por dificuldades
financeiras, muda-se com a filha pequena para um desses prédios. Ela não
demora a perceber que há algo de errado com o local. Quando abre a torneira,
a água vem com fios de cabelo. No quarto, há uma goteira que piora
a cada dia, sem motivo aparente. Dahlia ouve passos no andar superior, embora
ninguém more lá. Aos poucos, descobre-se que coisas banais como
uma mochila de criança, o elevador e a caixa-d'água do edifício
contêm algo de maléfico. Água
Negra centra-se no drama humano de suas personagens: o trauma de infância
da mãe, sua luta pela guarda da filha, a relação carinhosa
entre ambas. A fotografia do brasileiro Affonso Beato busca um ângulo "belo"
em situações tétricas. Uma certa poética da solidão
urbana perpassa o enredo. Mas nada disso importa, já que o filme dá
as costas ao essencial. O terror japonês apóia-se em premissas simples
como a da casa assombrada para submeter o espectador a sustos do
começo ao fim. Ele tem, além disso, uma temática de fundo,
que é a natureza inclemente do mal. Não importa o que tenham sido
em vida, uma vez que passam para "o outro lado", as criaturas de filmes como O
Chamado e O Grito não cessam de propagar o horror. Água
Negra decepciona duplamente. Só pelo terço final há alguma
tentativa (sem êxito) de causar espanto. Falta também a visão
de um mal que não pode ser apaziguado. E isso talvez diga algo sobre Walter
Salles. À medida que avança na carreira, o diretor mostra-se cada
vez mais solene (e portanto despido da ironia para não falar na
irreverência necessária ao trabalho no cinema de gênero)
e cada vez mais sentimental, voltado para as "boas emoções". Isso
deixa Água Negra numa situação paradoxal: um filme
de terror que tem medo de assustar. |