Edição 1917 . 10 de agosto de 2005

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Música
Uma orquestra em nome da paz

Comandada por Daniel Barenboim,
a West-Eastern Divan Orchestra
reúne músicos árabes e judeus


Sérgio Martins


Divulgação
Alonso Gonzales/Reuters
Barenboim à frente da West-Eastern Divan (à esq.) e com o palestino Edward Said, co-fundador da orquestra (à dir.): música contra a intolerância

O argentino naturalizado israelense Daniel Barenboim tem dotes artísticos inquestionáveis. Pianista de formação erudita, ele gravou obras completas para o instrumento de autores como Beethoven e Mozart. Como regente, dirige a Sinfônica de Chicago e a Ópera Estatal de Berlim, duas das principais orquestras do mundo. Mas Barenboim também ganhou fama por outro motivo: seu engajamento político. Em 1999, ele se uniu ao pensador palestino Edward Said (1935-2003) para criar a West-Eastern Divan Orchestra, grupo sinfônico que traz em sua formação instrumentistas de ascendência árabe e judaica. São 96 jovens, entre 14 e 25 anos, que participam de oficinas de música e concertos, e aprendem a conviver em harmonia. Os planos da West-Eastern Divan Orchestra para este ano são ambiciosos. A orquestra está lançando um CD e um DVD contendo um concerto realizado na Suíça e um documentário sobre as origens do conjunto. Eles também estão realizando uma turnê internacional, que passa pela Europa e pela América do Sul – uma das apresentações estava programada para sábado, dia 6, em São Paulo. A última escala, no dia 21, será em Ramallah, cidade da Cisjordânia em que palestinos e judeus vivem em estado de tensão. "Minha decisão de incluir a cidade no roteiro provocou críticas dos palestinos, que não querem assistir a músicos judeus. E do povo de Israel, que teme algum atentado", disse Barenboim a VEJA durante sua passagem pelo país.

Barenboim é talvez a figura mais polêmica da música erudita na atualidade. Em 2001, ao fim de um concerto em Jerusalém à frente da Orquestra da Ópera Estatal de Berlim, ele regeu um trecho de uma ópera do compositor alemão Richard Wagner (1813-1883). Muitos presentes se retiraram, enojados – os judeus rechaçam a música de Wagner porque ele era anti-semita e suas composições foram utilizadas como propaganda nazista. "Numa sociedade democrática, não podemos proibir as pessoas de ouvir música. Existem judeus que querem ouvir Wagner", disse Barenboim à época. A mais recente polêmica do maestro se deu em maio do ano passado. Ao receber um prêmio na cidade israelense de Knesset, ele criticou o tratamento dado aos palestinos por seu país. E doou parte do dinheiro da premiação a instituições educacionais nos territórios ocupados.

A idéia da West-Eastern Divan Orchestra nasceu de um encontro de Barenboim e Said num hotel de Londres, em 1991. Barenboim se sentia desconfortável com o descaso do governo de Israel em relação aos árabes. Ele encontrou em Said, que foi o maior intelectual palestino e defensor da criação de um Estado independente para seus compatriotas, não só um interlocutor para assuntos políticos. Said era, como Barenboim, um pianista – o regente gosta de dizer que o amigo tinha qualidades para se tornar um grande concertista. O nome da orquestra foi tirado de uma coletânea de poemas do alemão Goethe (1749-1832) inspirados na cultura árabe, O Divã Ocidental-Oriental.

O conceito da orquestra criada por Barenboim e Said vai muito além de um grupo de instrumentistas tocando juntos. Os músicos também discutem política, religião e aprendem os costumes de cada povo. O objetivo é fazer com que árabes e judeus busquem um entendimento que está longe de ser concretizado. "Não iremos resolver essa questão pelas vias militares", diz o maestro. O primeiro encontro da West-Eastern Divan se deu na cidade alemã de Weimar. Barenboim recorda-se do clima pouco amistoso no grupo. No DVD sobre a orquestra, que acaba de ser lançado no Brasil, o maestro lembra que uma das atividades dos músicos foi conhecer um antigo campo de concentração. "Um aluno árabe pegou no meu braço e disse: 'Poderia ter acontecido conosco'.", afirma Barenboim. Para muitos de seus quarenta músicos árabes – além de palestinos, sírios e libaneses –, a orquestra abre uma chance de ascensão na carreira que seria remota se eles continuassem em sua condição de origem. Da situação de pobreza, hoje eles passaram à possibilidade de fazer cursos na Europa e nos Estados Unidos financiados pela instituição.

Atualmente, a West-Eastern Divan Orchestra está sediada em Sevilha, na Espanha. A escolha tem um valor simbólico. Naquela região, a Andaluzia, judeus, árabes e cristãos tiveram uma convivência pacífica durante a Idade Média. Em 2003, o regente deu mais um passo no sonho de integração urdido por ele e por Said. Foi criada a Barenboim-Said Fundation, que pretende ampliar os ideais da West-Eastern Divan Orchestra. Um desses projetos é o do jardim-de-infância Edward Said, em Ramallah, que foi inaugurado em 2004 e ensina música a crianças carentes. Apesar do caráter humanitário das iniciativas de Barenboim, elas não são vistas com bons olhos por uma parcela do mundo árabe. A Síria chegou a desaconselhar que músicos do país integrassem a orquestra – mas eles não se renderam ao apelo da intolerância.

 

 
 
 
 
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