|
|
Música
Uma orquestra em nome da paz
Comandada por Daniel Barenboim,
a West-Eastern Divan Orchestra
reúne músicos árabes e judeus

Sérgio Martins
Divulgação
 |
Alonso Gonzales/Reuters
 |
| Barenboim à frente da West-Eastern
Divan (à esq.) e com o palestino Edward Said, co-fundador
da orquestra (à dir.): música contra a intolerância
|
O argentino naturalizado israelense
Daniel Barenboim tem dotes artísticos inquestionáveis.
Pianista de formação erudita, ele gravou obras completas
para o instrumento de autores como Beethoven e Mozart. Como regente,
dirige a Sinfônica de Chicago e a Ópera Estatal de
Berlim, duas das principais orquestras do mundo. Mas Barenboim também
ganhou fama por outro motivo: seu engajamento político. Em
1999, ele se uniu ao pensador palestino Edward Said (1935-2003)
para criar a West-Eastern Divan Orchestra, grupo sinfônico
que traz em sua formação instrumentistas de ascendência
árabe e judaica. São 96 jovens, entre 14 e 25 anos,
que participam de oficinas de música e concertos, e aprendem
a conviver em harmonia. Os planos da West-Eastern Divan Orchestra
para este ano são ambiciosos. A orquestra está lançando
um CD e um DVD contendo um concerto realizado na Suíça
e um documentário sobre as origens do conjunto. Eles também
estão realizando uma turnê internacional, que passa
pela Europa e pela América do Sul uma das apresentações
estava programada para sábado, dia 6, em São Paulo.
A última escala, no dia 21, será em Ramallah, cidade
da Cisjordânia em que palestinos e judeus vivem em estado
de tensão. "Minha decisão de incluir a cidade no roteiro
provocou críticas dos palestinos, que não querem assistir
a músicos judeus. E do povo de Israel, que teme algum atentado",
disse Barenboim a VEJA durante sua passagem pelo país.
Barenboim é talvez a figura
mais polêmica da música erudita na atualidade. Em 2001,
ao fim de um concerto em Jerusalém à frente da Orquestra
da Ópera Estatal de Berlim, ele regeu um trecho de uma ópera
do compositor alemão Richard Wagner (1813-1883). Muitos presentes
se retiraram, enojados os judeus rechaçam a música
de Wagner porque ele era anti-semita e suas composições
foram utilizadas como propaganda nazista. "Numa sociedade democrática,
não podemos proibir as pessoas de ouvir música. Existem
judeus que querem ouvir Wagner", disse Barenboim à época.
A mais recente polêmica do maestro se deu em maio do ano passado.
Ao receber um prêmio na cidade israelense de Knesset, ele
criticou o tratamento dado aos palestinos por seu país. E
doou parte do dinheiro da premiação a instituições
educacionais nos territórios ocupados.
A idéia da West-Eastern
Divan Orchestra nasceu de um encontro de Barenboim e Said num hotel
de Londres, em 1991. Barenboim se sentia desconfortável com
o descaso do governo de Israel em relação aos árabes.
Ele encontrou em Said, que foi o maior intelectual palestino e defensor
da criação de um Estado independente para seus compatriotas,
não só um interlocutor para assuntos políticos.
Said era, como Barenboim, um pianista o regente gosta de
dizer que o amigo tinha qualidades para se tornar um grande concertista.
O nome da orquestra foi tirado de uma coletânea de poemas
do alemão Goethe (1749-1832) inspirados na cultura árabe,
O Divã Ocidental-Oriental.
O conceito da orquestra criada
por Barenboim e Said vai muito além de um grupo de instrumentistas
tocando juntos. Os músicos também discutem política,
religião e aprendem os costumes de cada povo. O objetivo
é fazer com que árabes e judeus busquem um entendimento
que está longe de ser concretizado. "Não iremos resolver
essa questão pelas vias militares", diz o maestro. O primeiro
encontro da West-Eastern Divan se deu na cidade alemã de
Weimar. Barenboim recorda-se do clima pouco amistoso no grupo. No
DVD sobre a orquestra, que acaba de ser lançado no Brasil,
o maestro lembra que uma das atividades dos músicos foi conhecer
um antigo campo de concentração. "Um aluno árabe
pegou no meu braço e disse: 'Poderia ter acontecido conosco'.",
afirma Barenboim. Para muitos de seus quarenta músicos árabes
além de palestinos, sírios e libaneses ,
a orquestra abre uma chance de ascensão na carreira que seria
remota se eles continuassem em sua condição de origem.
Da situação de pobreza, hoje eles passaram à
possibilidade de fazer cursos na Europa e nos Estados Unidos financiados
pela instituição.
Atualmente, a West-Eastern Divan
Orchestra está sediada em Sevilha, na Espanha. A escolha
tem um valor simbólico. Naquela região, a Andaluzia,
judeus, árabes e cristãos tiveram uma convivência
pacífica durante a Idade Média. Em 2003, o regente
deu mais um passo no sonho de integração urdido por
ele e por Said. Foi criada a Barenboim-Said Fundation, que pretende
ampliar os ideais da West-Eastern Divan Orchestra. Um desses projetos
é o do jardim-de-infância Edward Said, em Ramallah,
que foi inaugurado em 2004 e ensina música a crianças
carentes. Apesar do caráter humanitário das iniciativas
de Barenboim, elas não são vistas com bons olhos por
uma parcela do mundo árabe. A Síria chegou a desaconselhar
que músicos do país integrassem a orquestra
mas eles não se renderam ao apelo da intolerância.
|