Edição 1917 . 10 de agosto de 2005

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Livros
Literatura animal

Heróis das fábulas, os bichos ganharam
novo papel nas histórias contemporâneas


Jerônimo Teixeira

Ilustração Negreiros
EXCLUSIVO ON-LINE
 Trechos dos livros
A vida dos animais
A vida de Pi
Alguém para correr comigo
Alice no país das maravilhas
Fábulas de La Fontaine
Hans Christian Andersen


O lobo ardiloso que conversa com a ovelha antes de devorá-la, a raposa invejosa que desdenha as uvas no alto da parreira – esses personagens das velhas fábulas guardam um encanto insuperável. Mas é raro encontrar animais tão bem-falantes na literatura atual. A safra recente de contos e romances traz, sim, um considerável elenco animal. Mas eles não falam – preferem comportar-se naturalmente como os bichos que são. "Os animais em meu livro são reais. Não são humanos vestindo máscara de bicho", diz o canadense Yann Martel, autor do romance A Vida de Pi. As novas "fábulas" compostas por autores como Martel respondem a uma visão desencantada do lugar da humanidade na natureza: a biologia moderna ensinou que o homem não paira soberano sobre o resto do reino animal, mas é apenas uma besta entre outras que surgiram sobre a Terra por força da evolução. Animais ferozes como o tigre de A Vida de Pi servem como um espelho biológico, no qual o personagem humano pode medir sua própria animalidade. E o mesmo vale para os elefantes, ursos e girafas de Verdadeiros Animais, livro de contos da americana Hannah Tinti. "Quis explorar o lado animal do ser humano", diz a autora.

Fábulas tradicionais investigavam a natureza moral do homem: o macaco encarnava a esperteza; o leão, a força; o lobo, a maldade. A sabedoria oral que gerou essas historietas foi, como notou o escritor italiano Italo Calvino, "alimentada pela lenta ruminação das consciências camponesas", com criadores em geral anônimos – o grego Esopo, a quem se atribuem várias fábulas da Antiguidade, foi provavelmente uma figura lendária. Essa tradição primitiva daria frutos requintados: as fábulas versificadas de La Fontaine (recentemente reeditadas pela editora Landy), os contos de fada de Hans Christian Andersen (veja quadro na pág. ao lado), o universo nonsense de Lewis Carroll. Atualmente, porém, quando um escritor tenta a mão na fábula tradicional, é quase sempre para parodiá-la – caso, por exemplo, dos contos bem-humorados de Cachorros do Céu, lançamento do escritor brasileiro Wilson Bueno.

No mundo urbano de hoje, o grande herói de quatro patas é um dos poucos animais que ainda vivem próximo ao homem: o cachorro. Autores das mais variadas procedências e gerações – do cultuado americano Paul Auster, em Timbuktu, ao jovem brasileiro Daniel Galera, em Até o Dia em que o Cão Morreu, passando pelo israelense David Grossman, em Alguém para Correr Comigo – deram destaque a personagens caninos. O foco no animal de estimação reflete a experiência de vida nas grandes cidades: sempre que os relacionamentos humanos ficam difíceis, lá está o cão oferecendo sua amizade incondicional. "Criei Mr. Bones, o cachorro, porque precisava de um personagem capaz de um amor sem nenhum traço de cinismo", diz Auster (o que é uma contradição etimológica: a palavra "cínico" vem de "cão", em grego).

É sintomático que muitas dessas obras descrevam a morte do animal como o ponto mais crítico do isolamento humano – é o caso do livro de Galera, do conto Betsy, de Rubem Fonseca, e da morte do gato (outro companheiro animal) em Dance Dance Dance, do japonês Haruki Murakami. Uma das versões mais extremadas dessa solidão é o romance Desonra, do Nobel sul-africano J.M. Coetzee. Seu protagonista auxilia no sacrifício de cachorros de rua recolhidos a um canil. Coetzee também é o autor da novela A Vida dos Animais, cujo personagem principal, a escritora Elizabeth Costello, faz uma candente defesa da capacidade que a literatura teria de representar os animais como seres vivos, e não símbolos abstratos de qualidades humanas. A velha fábula dava traços humanos aos bichos. Coetzee sugere o caminho contrário: os animais podem ajudar o leitor a descobrir sua humanidade.

 

Revolução dos bichos

A safra recente de livros com personagens animais já não se enquadra no modelo convencional da fábula antiga

FÁBULA TRADICIONAL

Como é: o animal age e fala como um ser humano. Geralmente as histórias encerram um sentido moral, um ensinamento para o leitor

Principais obras: fábulas atribuídas a Esopo; poemas de Jean de La Fontaine; contos de Hans Christian Andersen; Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll

 

NOVA FÁBULA

Como é: o animal age como um bicho de verdade. As histórias não trazem pregações morais, mas revelam o lado animal do ser humano

Principais obras: A Vida dos Animais, de J.M. Coetzee; A Vida de Pi, de Yann Martel; Alguém para Correr Comigo, de David Grossman

 

Jóia dinamarquesa

Andersen lê para jovens: esforço para fazer frente a Harry Potter

O dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) não gostava que o considerassem um autor para crianças. Ele buscava ser reconhecido como escritor – e ponto final. Mas, nas comemorações dos 200 anos de seu nascimento, a preocupação maior das instituições dinamarquesas que zelam pela memória do autor de O Patinho Feio é mantê-lo na posição de o mais conhecido autor infanto-juvenil do mundo – num esforço para recuperar o terreno perdido para sucessos como as séries Harry Potter, de J.K. Rowling, e O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien. Desde abril, mês de seu aniversário, Andersen tornou-se alvo de uma série de homenagens na Dinamarca – da nomeação de "embaixadores", como os brasileiros arroz-de-festa Pelé e Gilberto Gil, ao anúncio de uma ópera composta pelo músico pop Elvis Costello. O barulho da efeméride, porém, é circunstancial quando se trata de um escritor da qualidade de Andersen. Num linguajar límpido e espirituoso, ele recontou histórias folclóricas e criou fábulas próprias. E mostrou como escapar do maior perigo da literatura para crianças – o tom professoral, moralista, complacente. Nos tempos sentimentalmente corretos que correm, poucos teriam, como ele, a ousadia de oferecer às crianças uma história com o final amargo de O Soldadinho de Chumbo.

 
 
 
 
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