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Livros Literatura
animal Heróis das fábulas,
os bichos ganharam novo papel nas histórias contemporâneas  Jerônimo
Teixeira
Ilustração
Negreiros
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O lobo ardiloso
que conversa com a ovelha antes de devorá-la, a raposa invejosa que desdenha
as uvas no alto da parreira esses personagens das velhas fábulas
guardam um encanto insuperável. Mas é raro encontrar animais tão
bem-falantes na literatura atual. A safra recente de contos e romances traz, sim,
um considerável elenco animal. Mas eles não falam preferem
comportar-se naturalmente como os bichos que são. "Os animais em meu livro
são reais. Não são humanos vestindo máscara de bicho",
diz o canadense Yann Martel, autor do romance A Vida de Pi. As novas "fábulas"
compostas por autores como Martel respondem a uma visão desencantada do
lugar da humanidade na natureza: a biologia moderna ensinou que o homem não
paira soberano sobre o resto do reino animal, mas é apenas uma besta entre
outras que surgiram sobre a Terra por força da evolução.
Animais ferozes como o tigre de A Vida de Pi servem como um espelho biológico,
no qual o personagem humano pode medir sua própria animalidade. E o mesmo
vale para os elefantes, ursos e girafas de Verdadeiros Animais, livro de
contos da americana Hannah Tinti. "Quis explorar o lado animal do ser humano",
diz a autora.
Fábulas tradicionais
investigavam a natureza moral do homem: o macaco encarnava a esperteza; o leão,
a força; o lobo, a maldade. A sabedoria oral que gerou essas historietas
foi, como notou o escritor italiano Italo Calvino, "alimentada pela lenta ruminação
das consciências camponesas", com criadores em geral anônimos
o grego Esopo, a quem se atribuem várias fábulas da Antiguidade,
foi provavelmente uma figura lendária. Essa tradição primitiva
daria frutos requintados: as fábulas versificadas de La Fontaine (recentemente
reeditadas pela editora Landy), os contos de fada de Hans Christian Andersen (veja
quadro na pág. ao lado), o universo nonsense de Lewis Carroll. Atualmente,
porém, quando um escritor tenta a mão na fábula tradicional,
é quase sempre para parodiá-la caso, por exemplo, dos contos
bem-humorados de Cachorros do Céu, lançamento do escritor
brasileiro Wilson Bueno. No mundo
urbano de hoje, o grande herói de quatro patas é um dos poucos animais
que ainda vivem próximo ao homem: o cachorro. Autores das mais variadas
procedências e gerações do cultuado americano Paul
Auster, em Timbuktu, ao jovem brasileiro Daniel Galera, em Até
o Dia em que o Cão Morreu, passando pelo israelense David Grossman,
em Alguém para Correr Comigo deram destaque a personagens
caninos. O foco no animal de estimação reflete a experiência
de vida nas grandes cidades: sempre que os relacionamentos humanos ficam difíceis,
lá está o cão oferecendo sua amizade incondicional. "Criei
Mr. Bones, o cachorro, porque precisava de um personagem capaz de um amor sem
nenhum traço de cinismo", diz Auster (o que é uma contradição
etimológica: a palavra "cínico" vem de "cão", em grego).
É sintomático que muitas
dessas obras descrevam a morte do animal como o ponto mais crítico do isolamento
humano é o caso do livro de Galera, do conto Betsy, de Rubem
Fonseca, e da morte do gato (outro companheiro animal) em Dance Dance Dance,
do japonês Haruki Murakami. Uma das versões mais extremadas dessa
solidão é o romance Desonra, do Nobel sul-africano J.M. Coetzee.
Seu protagonista auxilia no sacrifício de cachorros de rua recolhidos a
um canil. Coetzee também é o autor da novela A Vida dos Animais,
cujo personagem principal, a escritora Elizabeth Costello, faz uma candente
defesa da capacidade que a literatura teria de representar os animais como seres
vivos, e não símbolos abstratos de qualidades humanas. A velha fábula
dava traços humanos aos bichos. Coetzee sugere o caminho contrário:
os animais podem ajudar o leitor a descobrir sua humanidade.
Revolução dos bichos
A safra recente de livros com personagens
animais já não se enquadra no modelo convencional da fábula
antiga FÁBULA TRADICIONAL
Como é: o animal age e fala
como um ser humano. Geralmente as histórias encerram um sentido moral,
um ensinamento para o leitor Principais
obras: fábulas atribuídas a Esopo; poemas de Jean de La Fontaine;
contos de Hans Christian Andersen; Alice no País das Maravilhas,
de Lewis Carroll NOVA FÁBULA
Como é: o animal age como um
bicho de verdade. As histórias não trazem pregações
morais, mas revelam o lado animal do ser humano Principais
obras: A Vida dos Animais, de J.M. Coetzee; A Vida de Pi, de
Yann Martel; Alguém para Correr Comigo, de David Grossman |
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Jóia dinamarquesa
 | | Andersen
lê para jovens: esforço para fazer frente a Harry Potter |
O
dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) não gostava que o
considerassem um autor para crianças. Ele buscava ser reconhecido como
escritor e ponto final. Mas, nas comemorações dos 200 anos
de seu nascimento, a preocupação maior das instituições
dinamarquesas que zelam pela memória do autor de O Patinho Feio é
mantê-lo na posição de o mais conhecido autor infanto-juvenil
do mundo num esforço para recuperar o terreno perdido para sucessos
como as séries Harry Potter, de J.K. Rowling, e O Senhor dos
Anéis, de J.R.R. Tolkien. Desde abril, mês de seu aniversário,
Andersen tornou-se alvo de uma série de homenagens na Dinamarca
da nomeação de "embaixadores", como os brasileiros arroz-de-festa
Pelé e Gilberto Gil, ao anúncio de uma ópera composta pelo
músico pop Elvis Costello. O barulho da efeméride, porém,
é circunstancial quando se trata de um escritor da qualidade de Andersen.
Num linguajar límpido e espirituoso, ele recontou histórias folclóricas
e criou fábulas próprias. E mostrou como escapar do maior perigo
da literatura para crianças o tom professoral, moralista, complacente.
Nos tempos sentimentalmente corretos que correm, poucos teriam, como ele, a ousadia
de oferecer às crianças uma história com o final amargo de
O Soldadinho de Chumbo. | | |