Edição 1917 . 10 de agosto de 2005

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Infância perpétua

A Polônia às vésperas da invasão
nazista na visão fantástica do
escritor Isaac Bashevis Singer


Moacyr Scliar

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Trecho do livro

O leitor de Isaac Bashevis Singer (1904-1991) tem a oportunidade ímpar de penetrar num universo estranho, fascinante – e que hoje é apenas uma lembrança, destruído que foi pelo holocausto. Nascido na Polônia e radicado nos Estados Unidos em 1935, o Nobel de 1978 é um realista que concede espaço ao misticismo, retratando as comunidades judaicas polonesas de sua infância (ele escrevia no iídiche falado em família) com toques fantásticos. Seu romance Shosha (tradução de José Rubens Siqueira; Francis; 300 páginas; 27,50 reais), uma história de amor ambientada na Varsóvia dos anos 30, é uma bela amostra do modo complicado com que Singer abordava a relação entre os sexos. O escritor já foi até chamado de misógino, mas seu problema parece ser não com as mulheres, mas com a humanidade toda, na qual, talvez por causa de sua sofrida biografia de refugiado judeu, ele não acreditava muito.

Narrado na primeira pessoa (o que reforça a impressão de conotações autobiográficas), Shosha é uma espécie de romance de formação, pelo qual acompanhamos as aventuras literárias e sexuais do jovem Aaron Greidinger, que abandonou a yeshiva, a escola rabínica, para se tornar escritor. Quando criança, ele se apaixona por Shosha, a personagem-título do romance. Seguem-se várias outras mulheres em sua vida, como Dora, uma exaltada militante comunista, e Betty, uma atriz americana de meia-idade que, em visita à Polônia, nutre a esperança de tirar Greidinger de Varsóvia e de fazer dele um dramaturgo de sucesso. Shosha é a mais estranha dessas personagens – principalmente por uma circunstância inexplicável: ela jamais se torna adulta. Como o Oskar de O Tambor, a notável obra do alemão Günter Grass sobre a II Guerra, ela opta por manter-se infantil, tanto na aparência como na maneira de ser. Teria ela se recusado a crescer para não se tornar parte de um mundo progressivamente injusto e violento? O romance não fornece uma resposta definitiva – a infância permanente de Shosha é até o fim um detalhe intrigante.

No fim do romance, já com os nazistas se aproximando de Varsóvia, Betty oferece a Greidinger uma oportunidade de fugir – mas ele não quer partir sem Shosha. No epílogo, contudo, descobrimos que, de alguma maneira, ele conseguiu escapar – sem a menina – para Nova York. De lá, ele faz uma viagem a Israel, onde um amigo revela o destino muitas vezes trágico das pessoas que Greidinger deixou em Varsóvia. Na visão desse amigo, Israel representa uma esperança para o perseguido povo judeu – que no entanto é encarada com a reticência entre pessimista e bem-humorada de Singer: a esperança, diz um de seus personagens, depende de "o Todo-Poderoso não mandar uma nova catástrofe para cima de nós".

 

Um náufrago na história

"Eu estava com meus vinte anos, mas parecia que já era um velho. Acreditava que o objetivo da literatura era impedir o tempo de desaparecer, mas o meu próprio tempo eu havia jogado fora. Hitler estava rapidamente se transformando no governante da Alemanha. Na Rússia, começaram os expurgos. Os consulados de quase todas as nações se recusavam a expedir vistos para judeus. Eu era um náufrago em um país espremido entre dois inimigos poderosos, preso a uma língua e cultura que ninguém reconhecia além de um pequeno círculo de iidichistas e radicais."

Trecho de Shosha

 

 
 
 
 
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