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Livros Infância
perpétua A Polônia às
vésperas da invasão nazista na visão fantástica
do escritor Isaac Bashevis Singer  Moacyr
Scliar
O
leitor de Isaac Bashevis Singer (1904-1991) tem a oportunidade ímpar de
penetrar num universo estranho, fascinante e que hoje é apenas uma
lembrança, destruído que foi pelo holocausto. Nascido na Polônia
e radicado nos Estados Unidos em 1935, o Nobel de 1978 é um realista que
concede espaço ao misticismo, retratando as comunidades judaicas polonesas
de sua infância (ele escrevia no iídiche falado em família)
com toques fantásticos. Seu romance Shosha (tradução
de José Rubens Siqueira; Francis; 300 páginas; 27,50 reais), uma
história de amor ambientada na Varsóvia dos anos 30, é uma
bela amostra do modo complicado com que Singer abordava a relação
entre os sexos. O escritor já foi até chamado de misógino,
mas seu problema parece ser não com as mulheres, mas com a humanidade toda,
na qual, talvez por causa de sua sofrida biografia de refugiado judeu, ele não
acreditava muito. Narrado
na primeira pessoa (o que reforça a impressão de conotações
autobiográficas), Shosha é uma espécie de romance
de formação, pelo qual acompanhamos as aventuras literárias
e sexuais do jovem Aaron Greidinger, que abandonou a yeshiva, a escola rabínica,
para se tornar escritor. Quando criança, ele se apaixona por Shosha, a
personagem-título do romance. Seguem-se várias outras mulheres em
sua vida, como Dora, uma exaltada militante comunista, e Betty, uma atriz americana
de meia-idade que, em visita à Polônia, nutre a esperança
de tirar Greidinger de Varsóvia e de fazer dele um dramaturgo de sucesso.
Shosha é a mais estranha dessas personagens principalmente por uma
circunstância inexplicável: ela jamais se torna adulta. Como o Oskar
de O Tambor, a notável obra do alemão Günter Grass sobre
a II Guerra, ela opta por manter-se infantil, tanto na aparência como na
maneira de ser. Teria ela se recusado a crescer para não se tornar parte
de um mundo progressivamente injusto e violento? O romance não fornece
uma resposta definitiva a infância permanente de Shosha é
até o fim um detalhe intrigante.
No fim do romance, já com os nazistas se aproximando de Varsóvia,
Betty oferece a Greidinger uma oportunidade de fugir mas ele não
quer partir sem Shosha. No epílogo, contudo, descobrimos que, de alguma
maneira, ele conseguiu escapar sem a menina para Nova York. De lá,
ele faz uma viagem a Israel, onde um amigo revela o destino muitas vezes trágico
das pessoas que Greidinger deixou em Varsóvia. Na visão desse amigo,
Israel representa uma esperança para o perseguido povo judeu que
no entanto é encarada com a reticência entre pessimista e bem-humorada
de Singer: a esperança, diz um de seus personagens, depende de "o Todo-Poderoso
não mandar uma nova catástrofe para cima de nós".
Um náufrago na história
"Eu estava com meus vinte anos, mas
parecia que já era um velho. Acreditava que o objetivo da literatura era
impedir o tempo de desaparecer, mas o meu próprio tempo eu havia jogado
fora. Hitler estava rapidamente se transformando no governante da Alemanha. Na
Rússia, começaram os expurgos. Os consulados de quase todas as nações
se recusavam a expedir vistos para judeus. Eu era um náufrago em um país
espremido entre dois inimigos poderosos, preso a uma língua e cultura que
ninguém reconhecia além de um pequeno círculo de iidichistas
e radicais." Trecho de
Shosha | |
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