|
|
Sociedade Como
se fosse cinema Japoneses não
querem mais se casar à moda tradicional preferem véu
e grinalda e um ator contratado para se fingir de padre
 Fabrícia
Peixoto Laurent
Fievet/AFP
 | Kazuhiro
Nogi/AFP
 | | Noivos
com as roupas da cerimônia xintoísta em Itako (à esq.)
e um casamento-espetáculo no aquário de Yokohama: estilo Hollywood
|
O casamento tradicional
japonês é uma cerimônia elaborada, com os noivos vestidos de
quimono. O ritual é praticamente o mesmo há 600 anos. A única
novidade é que os japoneses não querem mais saber dele. Sete de
cada dez noivas preferem se casar de véu e grinalda à moda do Ocidente.
E não é só isso. Os noivos querem uma cerimônia cristã,
com padre ou pastor, troca de alianças e chuva de arroz no final. Não
se trata de súbita conversão em massa. Oitenta por cento da população
japonesa segue o xintoísmo, e os cristãos são minguado 1,5%.
O que motiva os jovens casais é o espetáculo. O visual da cerimônia
deve ser o mais parecido possível com um filme de Hollywood. Existem hotéis
com capelas especialmente construídas para esses matrimônios estilizados.
A música preferida para acompanhar a entrada da noiva é Ave Maria
de Franz Schubert ou a marcha nupcial de Mendelssohn. Apenas um detalhe destoa
nesse cenário: os padres são atores.
Para oficiar um casamento no Japão não é necessário
ter freqüentado um seminário ou mesmo possuir crença religiosa.
As únicas exigências são a aparência ocidental e o inglês
como língua materna. Para ser idêntica aos casamentos cinematográficos,
a cerimônia precisa ser conduzida em inglês, mesmo com o risco de
os convidados não entenderem uma única palavra. Com o cachê
entre 100 e 200 dólares, fingir-se de padre em casamentos tornou-se uma
boa forma para americanos e ingleses residentes no Japão reforçarem
o orçamento. Empresas especializadas publicam anúncios do tipo "Procura-se
americano ou europeu para conduzir cerimônias de casamento". Também
ensinam os candidatos a usar o palavreado correto e a imitar os gestos de um sacerdote.
Phelan
M. Ebenhack/AP
 | | Noivos
japoneses na Disneylândia, nos EUA, com carruagem e serviçais medievais:
festa de conto de fadas |
O ritual todo não pode passar de vinte minutos, tempo suficiente para a
leitura de um pequeno trecho sobre a importância do matrimônio, para
a mais emocionante das perguntas (...aceita casar com...?) e para o beijo. "O
que as japonesas querem é viver um dia de Cinderela. Muitas pedem para
ficar parecidas com a atriz Audrey Hepburn", disse a VEJA o americano Thomas Fast,
professor de inglês e, nas horas vagas, padre de mentirinha em Osaka, a
terceira maior cidade do Japão. Para selarem a união em um cenário
de filme romântico, os mais abastados viajam para o Havaí ou para
a Disneylândia, na Flórida, Estados Unidos. Os jovens acham bem mais
interessante casar em um parque de diversões, com carruagem prateada e
garçons vestidos como pajens medievais, do que em um templo xintoísta.
Um casamento tradicional no Japão
é sério demais para quem leva um estilo de vida inspirado em Hollywood.
Os noivos e parentes não devem sorrir nem mesmo na fotografia oficial e
apenas amigos mais próximos são convidados. Dentro do templo, com
os parentes do noivo de um lado e os da noiva do outro, um monge fala sobre a
devoção, a importância da família e os deuses em um
tom de voz rápido e baixo, como um sussurro. Não se ouve quase nada.
A noiva fica embrulhada em um quimono branco e escondida sob uma peruca e maquiagem
pesada. Do ponto de vista sociológico, a preferência dos japoneses
pelo vestido bufante e pelo meio-fraque talvez se explique pela vontade de romper
com a sociedade patriarcal que o matrimônio xintoísta simboliza.
Até hoje, quase 10% dos casamentos no Japão são arranjados
pelos pais da noiva. Quem consegue
escapar desse destino faz questão de mostrar aos parentes e amigos que
a união é resultado de uma escolha feliz. "Por isso faz sentido
os japoneses, principalmente as mulheres, optarem pelo casamento ocidental: nele,
a noiva é o centro das atenções, a protagonista de uma ocasião
especial", disse a VEJA o sociólogo John Lie, da Universidade da Califórnia,
nos Estados Unidos, e autor do livro Japão Multiétnico. A
inspiração nos casamentos do cinema e da TV reflete o fascínio
que a cultura americana exerce sobre os japoneses. "Isso pode ser confirmado pelo
padrão de beleza que impera hoje no Japão: as mulheres dos anúncios
publicitários, dos outdoors e da TV nunca tiveram um visual tão
ocidental", diz Lie. |