Edição 1917 . 10 de agosto de 2005

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Sociedade
Como se fosse cinema

Japoneses não querem mais se casar
à moda tradicional – preferem véu
e grinalda e um ator contratado
para se fingir de padre


Fabrícia Peixoto

 
Laurent Fievet/AFP
Kazuhiro Nogi/AFP
Noivos com as roupas da cerimônia xintoísta em Itako (à esq.) e um casamento-espetáculo no aquário de Yokohama: estilo Hollywood

O casamento tradicional japonês é uma cerimônia elaborada, com os noivos vestidos de quimono. O ritual é praticamente o mesmo há 600 anos. A única novidade é que os japoneses não querem mais saber dele. Sete de cada dez noivas preferem se casar de véu e grinalda à moda do Ocidente. E não é só isso. Os noivos querem uma cerimônia cristã, com padre ou pastor, troca de alianças e chuva de arroz no final. Não se trata de súbita conversão em massa. Oitenta por cento da população japonesa segue o xintoísmo, e os cristãos são minguado 1,5%. O que motiva os jovens casais é o espetáculo. O visual da cerimônia deve ser o mais parecido possível com um filme de Hollywood. Existem hotéis com capelas especialmente construídas para esses matrimônios estilizados. A música preferida para acompanhar a entrada da noiva é Ave Maria de Franz Schubert ou a marcha nupcial de Mendelssohn. Apenas um detalhe destoa nesse cenário: os padres são atores.

Para oficiar um casamento no Japão não é necessário ter freqüentado um seminário ou mesmo possuir crença religiosa. As únicas exigências são a aparência ocidental e o inglês como língua materna. Para ser idêntica aos casamentos cinematográficos, a cerimônia precisa ser conduzida em inglês, mesmo com o risco de os convidados não entenderem uma única palavra. Com o cachê entre 100 e 200 dólares, fingir-se de padre em casamentos tornou-se uma boa forma para americanos e ingleses residentes no Japão reforçarem o orçamento. Empresas especializadas publicam anúncios do tipo "Procura-se americano ou europeu para conduzir cerimônias de casamento". Também ensinam os candidatos a usar o palavreado correto e a imitar os gestos de um sacerdote.

 

Phelan M. Ebenhack/AP
Noivos japoneses na Disneylândia, nos EUA, com carruagem e serviçais medievais: festa de conto de fadas

O ritual todo não pode passar de vinte minutos, tempo suficiente para a leitura de um pequeno trecho sobre a importância do matrimônio, para a mais emocionante das perguntas (...aceita casar com...?) e para o beijo. "O que as japonesas querem é viver um dia de Cinderela. Muitas pedem para ficar parecidas com a atriz Audrey Hepburn", disse a VEJA o americano Thomas Fast, professor de inglês e, nas horas vagas, padre de mentirinha em Osaka, a terceira maior cidade do Japão. Para selarem a união em um cenário de filme romântico, os mais abastados viajam para o Havaí ou para a Disneylândia, na Flórida, Estados Unidos. Os jovens acham bem mais interessante casar em um parque de diversões, com carruagem prateada e garçons vestidos como pajens medievais, do que em um templo xintoísta.

Um casamento tradicional no Japão é sério demais para quem leva um estilo de vida inspirado em Hollywood. Os noivos e parentes não devem sorrir nem mesmo na fotografia oficial e apenas amigos mais próximos são convidados. Dentro do templo, com os parentes do noivo de um lado e os da noiva do outro, um monge fala sobre a devoção, a importância da família e os deuses em um tom de voz rápido e baixo, como um sussurro. Não se ouve quase nada. A noiva fica embrulhada em um quimono branco e escondida sob uma peruca e maquiagem pesada. Do ponto de vista sociológico, a preferência dos japoneses pelo vestido bufante e pelo meio-fraque talvez se explique pela vontade de romper com a sociedade patriarcal que o matrimônio xintoísta simboliza. Até hoje, quase 10% dos casamentos no Japão são arranjados pelos pais da noiva.

Quem consegue escapar desse destino faz questão de mostrar aos parentes e amigos que a união é resultado de uma escolha feliz. "Por isso faz sentido os japoneses, principalmente as mulheres, optarem pelo casamento ocidental: nele, a noiva é o centro das atenções, a protagonista de uma ocasião especial", disse a VEJA o sociólogo John Lie, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e autor do livro Japão Multiétnico. A inspiração nos casamentos do cinema e da TV reflete o fascínio que a cultura americana exerce sobre os japoneses. "Isso pode ser confirmado pelo padrão de beleza que impera hoje no Japão: as mulheres dos anúncios publicitários, dos outdoors e da TV nunca tiveram um visual tão ocidental", diz Lie.

 
 
 
 
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