Edição 1917 . 10 de agosto de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Comportamento
Fofinhas, só por decreto

Lei obriga lojas a vender roupas em
tamanhos normais na Argentina, onde
o "médio" já é sinal de obesidade


Mariana Camarotti, de Buenos Aires

Enrique Marcarian/Reuters
Vendedora ajeita vitrine em Buenos Aires: obrigação de oferecer do 38 ao 48
EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Beleza e Boa Forma


Agora que já se divisa no calendário a chegada do verão, elas entram em frenesi: dietas rigorosas, academias lotadas, cânulas de lipoaspiração trabalhando em regime integral, plásticas generalizadas. Não, não estamos falando das brasileiras. Apesar da fama de vaidade extremada da população feminina nacional, ao sul de nossas fronteiras existem candidatas mais sérias ainda ao campeonato do culto à beleza. Conhecidas pelos cuidados com o corpo e o figurino, as argentinas beneficiam-se de um pool genético variado, como no Brasil, com a desvantagem, porém, de menor diversidade de pendores estéticos. Enquanto as brasileiras, embora submetidas ao mesmo e conhecido bombardeio de imagens de mulheres imensamente jovens, belas e magras, fazem sucesso na vida real com quadris generosos e coxas roliças, nos pampas a variedade não cola. Mulher bonita, para a maioria das argentinas, é muito, muito magra. Se Gisele Bündchen é o modelo ideal por aqui, embora todo mundo com um pingo de juízo reconheça que ela é a exceção das exceções, na Argentina a estonteante Yamila Díaz Rahi chega a ser considerada até um pouco "cheinha" demais, por causa dos seios adaptados ao padrão americano, o mercado no qual a modelo faz sucesso.

O culto à magreza vem provocando preocupações de tal ordem que, dentro do espírito kirchenista de intervencionismo estatal, a Assembléia Legislativa da Província de Buenos Aires, onde vive um terço da população argentina, aprovou no mês passado uma curiosa Lei das Medidas: as fábricas são obrigadas a produzir, e as lojas a ter no estoque e expor nas vitrines, tamanhos que vão do 38 ao 48, em centimetragem-padrão que também tem de estar pregada na parede, à vista de todos. Quem não se adaptar, no prazo de 180 dias, incorrerá em multas entre 100.000 e 500.000 pesos. A "polícia dos manequins" foi instituída porque muitas roupas só existem em tamanho único, no qual evidentemente só entram corpinhos muito esguios. Os tamanhos P, M e G, ou 1, 2 e 3, quando há, não obedecem a convenção alguma, ou seja, cada fábrica os faz nas dimensões que achar melhor – sempre, porém, muito reduzidas. Nas lojas, é comum a vendedora (magérrima) se recusar a permitir que a cliente um pouco mais fornida experimente um tamanho maior, por achar que vai rasgá-lo, e encaminhá-la para as "lojas de tamanhos especiais" – experiência, além de humilhante, pesada no bolso, visto que as peças de manequim 44 em diante costumam ser bem mais caras.

O empurrão para a aprovação da lei, com toda a sua carga autoritária, foi a grita em torno do problema dos distúrbios alimentares: a Argentina está em segundo lugar no mundo, atrás apenas do Japão, em número de pessoas com bulimia (comer muito e depois provocar o vômito) e anorexia (recusar-se a comer quase até a morte). Especialistas calculam uma taxa altíssima de problemas do gênero, que atingiria 10% das argentinas, a maioria entre 14 e 19 anos. "Não é que as meninas sejam simplesmente vaidosas. Elas se sentem cobradas pela sociedade. Ser mais magra que o padrão considerado saudável virou passaporte para a felicidade, a vida perfeita e a aceitação da família e dos amigos", critica a psiquiatra Mabel Bello, diretora da Associação de Luta contra Bulimia e Anorexia (Aluba) de Buenos Aires, que atende 1.200 pacientes neste momento e promove palestras diárias sobre o assunto para o público interessado (em São Paulo, o Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas atende 100 pacientes por mês e tem fila de espera de dois anos). Mabel destaca que a Argentina está no alto da lista de campeões de cirurgia estética (aumentar os seios, por exemplo, é quase um rito de passagem para garotas aos 15 anos) e que a imagem da mulher linda e magérrima freqüenta seis em cada dez anúncios, seja lá do que for. Nada muito diferente do resto do mundo ocidental, mas na Argentina, em especial em Buenos Aires, com uma sociedade relativamente homogênea e estratos sociais bem definidos, os padrões de exigência são considerados mais rígidos.

"Se um dia eu engordasse para valer, cairia em depressão", assume, sem meias palavras, a professora de ginástica Silvia Talavera, 32 anos, 54 quilos. Para ela, não existe gorda feliz. Até o verão chegar, pretende derreter mais 4 quilos do corpo já esguio, na base de regime severo e um programa de treinamento físico que carrega ainda mais as quatro horas diárias de trabalho em uma academia. Silvia sonha com um passado perfeito: "Há dez anos, eu punha os polegares nas laterais da cintura, dava a volta com a mão e conseguia tocar os indicadores. Hoje, por mais que faça, não consigo". Esse é o mundo onde ainda se move Verónica Fernandez, 23 anos, 43 quilos. Vendedora em uma butique, comemora: "Acho roupas para mim em qualquer loja da moda".

Na opinião de Cecile Rausch Herscovici, doutora em psicologia e autora do livro A Escravidão das Dietas, a lei que obriga a indústria e o comércio a oferecer tamanhos maiores, embora pretenda o impossível – legislar sobre comportamento –, pode ajudar a contrabalançar a ditadura da magreza. "É muito angustiante entrar numa loja e não encontrar seu tamanho, ou achá-lo só no XL", diz ela. Fabricantes e anunciantes, favoráveis à padronização, acreditam no entanto que a exigência de tamanhos grandes nas araras não terá outro efeito se não lhes dar prejuízo. "Teremos um estoque inevitavelmente encalhado, pois a mercadoria maior não será vendida", prevê Héctor Kolodny, diretor executivo da Câmara Industrial Argentina de Indumentária. "Seguimos as leis de mercado. Se houvesse demanda por roupas maiores, já estaríamos fabricando." Num embate em que Adam Smith e Yamila Díaz Rahi estão do mesmo lado, é difícil mesmo imaginar a vitória do campo contrário.

 
 
 
 
topovoltar