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Comportamento Fofinhas,
só por decreto Lei obriga lojas a vender roupas
em tamanhos normais na Argentina, onde o "médio" já é
sinal de obesidade  Mariana
Camarotti, de Buenos Aires
Enrique
Marcarian/Reuters
 | | Vendedora
ajeita vitrine em Buenos Aires: obrigação de oferecer do 38 ao 48 | |
Agora que já se divisa
no calendário a chegada do verão, elas entram em frenesi: dietas
rigorosas, academias lotadas, cânulas de lipoaspiração trabalhando
em regime integral, plásticas generalizadas. Não, não estamos
falando das brasileiras. Apesar da fama de vaidade extremada da população
feminina nacional, ao sul de nossas fronteiras existem candidatas mais sérias
ainda ao campeonato do culto à beleza. Conhecidas pelos cuidados com o
corpo e o figurino, as argentinas beneficiam-se de um pool genético variado,
como no Brasil, com a desvantagem, porém, de menor diversidade de pendores
estéticos. Enquanto as brasileiras, embora submetidas ao mesmo e conhecido
bombardeio de imagens de mulheres imensamente jovens, belas e magras, fazem sucesso
na vida real com quadris generosos e coxas roliças, nos pampas a variedade
não cola. Mulher bonita, para a maioria das argentinas, é muito,
muito magra. Se Gisele Bündchen é o modelo ideal por aqui, embora
todo mundo com um pingo de juízo reconheça que ela é a exceção
das exceções, na Argentina a estonteante Yamila Díaz Rahi
chega a ser considerada até um pouco "cheinha" demais, por causa dos seios
adaptados ao padrão americano, o mercado no qual a modelo faz sucesso.
O culto à magreza vem provocando preocupações
de tal ordem que, dentro do espírito kirchenista de intervencionismo estatal,
a Assembléia Legislativa da Província de Buenos Aires, onde vive
um terço da população argentina, aprovou no mês passado
uma curiosa Lei das Medidas: as fábricas são obrigadas a produzir,
e as lojas a ter no estoque e expor nas vitrines, tamanhos que vão do 38
ao 48, em centimetragem-padrão que também tem de estar pregada na
parede, à vista de todos. Quem não se adaptar, no prazo de 180 dias,
incorrerá em multas entre 100.000 e 500.000 pesos. A "polícia dos
manequins" foi instituída porque muitas roupas só existem em tamanho
único, no qual evidentemente só entram corpinhos muito esguios.
Os tamanhos P, M e G, ou 1, 2 e 3, quando há, não obedecem a convenção
alguma, ou seja, cada fábrica os faz nas dimensões que achar melhor
sempre, porém, muito reduzidas. Nas lojas, é comum a vendedora
(magérrima) se recusar a permitir que a cliente um pouco mais fornida experimente
um tamanho maior, por achar que vai rasgá-lo, e encaminhá-la para
as "lojas de tamanhos especiais" experiência, além de humilhante,
pesada no bolso, visto que as peças de manequim 44 em diante costumam ser
bem mais caras. O empurrão para a aprovação
da lei, com toda a sua carga autoritária, foi a grita em torno do problema
dos distúrbios alimentares: a Argentina está em segundo lugar no
mundo, atrás apenas do Japão, em número de pessoas com bulimia
(comer muito e depois provocar o vômito) e anorexia (recusar-se a comer
quase até a morte). Especialistas calculam uma taxa altíssima de
problemas do gênero, que atingiria 10% das argentinas, a maioria entre 14
e 19 anos. "Não é que as meninas sejam simplesmente vaidosas. Elas
se sentem cobradas pela sociedade. Ser mais magra que o padrão considerado
saudável virou passaporte para a felicidade, a vida perfeita e a aceitação
da família e dos amigos", critica a psiquiatra Mabel Bello, diretora da
Associação de Luta contra Bulimia e Anorexia (Aluba) de Buenos Aires,
que atende 1.200 pacientes neste momento e promove palestras diárias sobre
o assunto para o público interessado (em São Paulo, o Ambulatório
de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas atende 100
pacientes por mês e tem fila de espera de dois anos). Mabel destaca que
a Argentina está no alto da lista de campeões de cirurgia estética
(aumentar os seios, por exemplo, é quase um rito de passagem para garotas
aos 15 anos) e que a imagem da mulher linda e magérrima freqüenta
seis em cada dez anúncios, seja lá do que for. Nada muito diferente
do resto do mundo ocidental, mas na Argentina, em especial em Buenos Aires, com
uma sociedade relativamente homogênea e estratos sociais bem definidos,
os padrões de exigência são considerados mais rígidos.
"Se um dia eu engordasse para valer, cairia em
depressão", assume, sem meias palavras, a professora de ginástica
Silvia Talavera, 32 anos, 54 quilos. Para ela, não existe gorda feliz.
Até o verão chegar, pretende derreter mais 4 quilos do corpo já
esguio, na base de regime severo e um programa de treinamento físico que
carrega ainda mais as quatro horas diárias de trabalho em uma academia.
Silvia sonha com um passado perfeito: "Há dez anos, eu punha os polegares
nas laterais da cintura, dava a volta com a mão e conseguia tocar os indicadores.
Hoje, por mais que faça, não consigo". Esse é o mundo onde
ainda se move Verónica Fernandez, 23 anos, 43 quilos. Vendedora em uma
butique, comemora: "Acho roupas para mim em qualquer loja da moda".
Na opinião de Cecile Rausch Herscovici, doutora em psicologia e autora
do livro A Escravidão das Dietas, a lei que obriga a indústria
e o comércio a oferecer tamanhos maiores, embora pretenda o impossível
legislar sobre comportamento , pode ajudar a contrabalançar
a ditadura da magreza. "É muito angustiante entrar numa loja e não
encontrar seu tamanho, ou achá-lo só no XL", diz ela. Fabricantes
e anunciantes, favoráveis à padronização, acreditam
no entanto que a exigência de tamanhos grandes nas araras não terá
outro efeito se não lhes dar prejuízo. "Teremos um estoque inevitavelmente
encalhado, pois a mercadoria maior não será vendida", prevê
Héctor Kolodny, diretor executivo da Câmara Industrial Argentina
de Indumentária. "Seguimos as leis de mercado. Se houvesse demanda por
roupas maiores, já estaríamos fabricando." Num embate em que Adam
Smith e Yamila Díaz Rahi estão do mesmo lado, é difícil
mesmo imaginar a vitória do campo contrário. |