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Ciência Evolução
em ritmo acelerado Expostos à caça e
à pesca predadoras, os animais reagem com alterações
genéticas que ameaçam as espécies  Thereza
Venturoli
Pesquisadores do mundo animal têm chamado
atenção para um fenômeno curioso: há cada vez mais
elefantes, principalmente na Ásia, que nascem sem as presas de marfim características
dos machos da espécie. Calcula-se que, há poucas décadas,
3% dos elefantes asiáticos machos nasciam sem presas hoje, a cifra
em alguns grupos chega a 10%. A explicação para isso é que
esses animais estão passando por uma evolução natural causada
por alteração em seus genes. O processo é desencadeado pela
ação predadora dos caçadores, que, em busca do valioso marfim,
só abatem os elefantes com presas. Isso faz com que cada vez mais elefantes
sem presas se encarreguem da reprodução da espécie, transmitindo
a seus filhotes o grupo específico de genes responsável pela anomalia.
Fenômeno semelhante vem ocorrendo com o animal mais visado pelos caçadores
para se transformar em troféu de sala de visitas: o carneiro montanhês
canadense, comum também nos Estados Unidos. Apenas os animais cujos chifres
se fecham numa curva de 360 graus são abatidos pelos caçadores.
Resultado: a reprodução fica a cargo dos carneiros de chifres menos
vistosos, que geram proles com as mesmas características. Nos últimos
trinta anos, o tamanho dos chifres dos carneiros montanheses diminuiu 25%. Esses
dois casos parecem contrariar o que geralmente se pensa a respeito da evolução
das espécies: que as alterações significativas em animais
ou vegetais levam milênios ou milhões de anos para se concretizar.
Como ocorreu, aliás, com o Homo sapiens. Não é bem
assim. Há muito os biólogos sabem que a evolução pode
ocorrer rapidamente. O próprio Charles Darwin, o naturalista inglês
que formulou a teoria da evolução das espécies, registrou
transformações rápidas, determinadas pela interferência
humana, em cães e pombos. Mais recentemente, constatou-se que, em questão
de anos, bactérias são capazes de desenvolver resistência
aos antibióticos e pragas tornam-se imunes a pesticidas. O que tem espantado
os cientistas é que essa evolução a jato, antes restrita
a casos pontuais, está ocorrendo na natureza com uma freqüência
impressionante, em centenas de espécies e quase sempre se enxerga
nelas a mão do homem. As alterações
no clima global causadas pelo efeito estufa, por exemplo, têm feito com
que várias espécies modifiquem seu ciclo vital para se adequar às
mudanças de temperatura. Cientistas da Universidade de Alberta, no Canadá,
descobriram que as fêmeas do esquilo vermelho da região canadense
do Yukon passaram a dar à luz na primavera dezoito dias mais cedo do que
há dez anos. A explicação é que a primavera na região
hoje também começa antes. Mesmo quando o ser humano pensa estar
colaborando para proteger as espécies, pode estar, na verdade, contribuindo
para que elas sofram processos de seleção artificiais e indesejáveis.
O melhor exemplo disso está no fundo do mar e dos rios. Muitos
pescadores de fim de semana, ao puxar o anzol, costumam ficar apenas com os peixes
grandes e devolver os pequenos à água. Pescadores profissionais
fazem o mesmo ao usar redes de malha larga, que retêm os peixes grandes
e poupam os miúdos. Nos dois casos, aposta-se no princípio de que,
poupando os peixes jovens, se garantem a preservação da espécie
e a futura pesca de exemplares grandes e saudáveis. Ao retirarem sistematicamente
os peixes grandes do seu habitat, no entanto, os pescadores acabam por promover
a reprodução entre os peixes de pequeno porte. O resultado é
que, com o passar do tempo, os exemplares da espécie ficam cada vez menores.
Além disso, peixes de menor porte geram menos ovas, o que acarreta a diminuição
e não o aumento do cardume. É justamente isso que
vem ocorrendo com alguns tipos de bacalhau, que hoje têm quase a metade
do tamanho que apresentavam há poucas décadas. Numa
definição simples, a evolução é causada por
um desequilíbrio entre as necessidades de uma espécie e suas condições
para satisfazê-las. Ao se tornar bípede, por exemplo, o ancestral
do ser humano perdeu boa parte de sua capacidade olfativa até então
necessária para farejar a caça junto ao chão e ganhou
uma visão apurada, para avistar a caça ao longe. Até duas
décadas atrás, os cientistas tinham bons motivos para duvidar de
que as espécies pudessem sofrer evoluções significativas
num curto espaço de tempo. Acreditava-se que a maioria dos organismos já
estava devidamente adaptada a seu meio ambiente no planeta. Nos anos 80, porém,
os biólogos começaram a desconfiar que a evolução
pode ser um processo mais dinâmico do que se imaginava. Uma
das experiências famosas que levaram a essa conclusão foi desenvolvida
por um casal de cientistas da Universidade Princeton. Ao estudarem a fauna das
Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico, eles descobriram um tipo de
pássaro cujo comprimento do bico variava de tamanho em poucos anos, dependendo
do clima da região. Quando o tempo ficava seco por um período muito
longo, os espécimes começavam a nascer com o bico mais fino e pontudo,
apropriado para cavar a terra em busca do alimento escasso plantas e sementes
ocultas sob o solo. Quando os anos eram de chuva, os novos filhotes nasciam com
o bico original da espécie. Desde então, muitos estudiosos acreditam
que evoluções a jato como a dos pássaros das Ilhas Galápagos
possam acontecer a toda hora na natureza, sem que a ciência se dê
conta. Afinal, observar esse tipo de fenômeno não é tarefa
fácil, ao contrário do que ocorre com os elefantes e carneiros da
montanha. Nesse caso, em que a evolução é causada pela interferência
humana, a solução da charada está nas espingardas dos caçadores.
O que Darwin pensaria disso O
que aconteceria se o naturalista Charles Darwin, o pai da teoria da evolução
das espécies pela seleção natural, viajasse no túnel
do tempo e desembarcasse no século XXI, no meio de uma manada de elefantes
sem as presas de marfim ou cercado por um bando de carneiros montanheses de chifres
atrofiados? Passado o susto, Darwin provavelmente refletiria: "Ou o mundo
passou por alguma mudança ambiental muito radical e rápida ou minha
teoria está completamente errada". Segundo as idéias de Darwin,
uma espécie selvagem transmite ao longo das gerações as características
que lhe favorecem a sobrevivência em determinado ambiente. Ou seja, para
perderem os chifres e as presas, carneiros e elefantes deveriam ter enfrentado
alguma situação na qual esses acessórios só atrapalhavam.
De certa forma, Darwin teria acertado no raciocínio. Em tempos de caça
predatória, presas ou chifres só servem para tornar seus portadores
alvos fáceis das espingardas. | |
Planeta dos macacos aposentados Na
história da proteção dos animais, esta é uma novidade:
um retiro para chimpanzés aposentados. O Refúgio dos Chimpanzés,
que será inaugurado em outubro, é uma iniciativa do governo dos
Estados Unidos. Vai abrigar animais que no cativeiro serviram de cobaias em experiências
médicas, foram utilizados no programa espacial da Nasa e apareceram batendo
palmas em programas de televisão. O chimpanzé, o parente mais próximo
do homem na árvore evolucionária, é uma espécie em
risco de extinção na natureza. Estima-se que existam 2 500 desses
animais nos Estados Unidos, dos quais 1 500 estão em institutos de pesquisa.
Talvez a metade desses já não esteja mais sendo usada em experiências.
Um chimpanzé em cativeiro vive em média cinqüenta anos (na
selva, menos de trinta). Mas em geral só são úteis em pesquisas
até os 6 anos daí em diante são difíceis de
controlar. Não havia consenso sobre o
que fazer com os chimpanzés aposentados. Houve sugestões de extermínio
puro e simples. Nos últimos dias de seu governo, o presidente Bill Clinton
destinou 30 milhões de dólares para a construção do
parque no estado da Louisiana, onde o clima é subtropical. Mais de trinta
macacos já estão alojados no abrigo, que até 2006 deverá
receber outros 200. Ali, em um complexo de 80 hectares, eles podem desfrutar a
vida ao ar livre, comida farta e aposentos com aparelho de televisão
só não podem se reproduzir. Todos os machos são submetidos
a vasectomia para evitar a superlotação no parque. O que mais parece
encantar os macacos são as imagens e o som televisivos. Para os chimpanzés
mais jovens, a programação consiste em desenhos animados, principalmente
especiais da Disney e Pica-Pau. Os mais velhos preferem novelas e filmes
de ação e pancadaria. Cuidar dos
chimpanzés é diferente de simplesmente oferecer proteção
a qualquer outro animal. Há um fator psicológico decorrente da semelhança
física com o homem que faz com que nos sintamos na obrigação
de proteger esse primata como se cuida de um parente indefeso. O chimpanzé
é um animal capaz de mostrar ao dentista o dente que dói. Estudos
mostram que é possível ensinar-lhes conceitos matemáticos
simples e que eles podem atingir a inteligência de uma criança de
5 anos. Há uma rede de santuários para esses animais no Canadá,
na Europa, na África e na América do Sul. Nos Estados Unidos, o
Refúgio dos Chimpanzés é o primeiro mantido pelo governo
federal e o mais confortável. Mas não o maior. Um santuário
privado numa ilha da Flórida passou por reformas para abrigar mais de 250
chimpanzés de laboratório, o maior conjunto de primatas aposentados
da história. | | |