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História Uma
voz cosmopolita Os diários de
Joaquim Nabuco mostram como o intelectual formou suas idéias sobre
o Brasil a partir da comparação com os países que visitou
 João
Gabriel de Lima
Acervo
Iconografia
 | | Joaquim
Nabuco: um admirador da cultura anglo-saxônica num meio intelectual fascinado
pela França | |
Num país
de provincianos, o pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910) foi um cosmopolita
que passou boa parte da vida fora do Brasil. Escritor, diplomata de carreira e
político, fez história como a principal voz contra a escravidão.
Gostava tanto de viajar que, quando lhe perguntavam quais os livros prediletos
de sua estante pessoal, ele costumava responder: "Os meus Baedeker", referindo-se
à mais famosa coleção de guias turísticos do século
XIX, publicada pelo alemão Karl Baedeker. Das terras que visitava, aprendia
os costumes, avaliava a política e a economia e, principalmente, fazia
comparações com o Brasil. A grande originalidade de obras como Minha
Formação é o cotejo do Brasil com outros países.
Nesse exercício Nabuco dizia muito sobre o que o Brasil era e mais ainda
sobre o que poderia ter sido. Chegam às livrarias nesta semana os Diários
de Joaquim Nabuco (Editora Bem-Te-Vi, dois volumes de 310 e 535 páginas,
vendidos juntos a 185 reais). A obra, com prefácio e notas do historiador
Evaldo Cabral de Mello e organização da escritora Lélia Coelho
Frota, tem como principal atrativo os relatos das viagens do intelectual, entremeados
de reflexões. Na parte mais interessante, a primeira, em que um jovem Joaquim
Nabuco narra suas impressões iniciais sobre a Europa e os Estados Unidos,
lêem-se os germes das idéias que o autor desenvolveria mais tarde
em sua obra.
Em um tempo em que a
maior parte da intelectualidade brasileira tinha influência francesa, Nabuco
se definia como um admirador da cultura anglo-saxônica. Foi Londres, e não
Paris, a cidade que mais o impressionou em sua viagem de formação
à Europa, entre 1873 e 1874. Ele voltaria à capital inglesa em muitas
outras ocasiões, numa delas para redigir sua obra-prima como polemista,
O Abolicionismo. Nabuco achava que a monarquia parlamentar britânica
era o melhor entre os regimes de governo e defendia sua implantação
no Brasil. Entrou para a história, no entanto, como americanófilo,
por emular, já na idade madura, a chamada Doutrina Monroe, segundo a qual
as nações do continente deveriam formar um bloco liderado pelos
Estados Unidos. Nabuco é um admirador confesso da Inglaterra, mas a extensão
de seu fascínio, ainda na juventude, pelo país de Thomas Jefferson
uma relação de amor e ódio, diga-se é
a novidade mais interessante dos Diários. Ele desembarcou nos EUA
em 1876 para seu primeiro posto diplomático no exterior, como adido da
embaixada brasileira em Washington. Num primeiro momento, detestou o que viu.
Achava a cultura do país materialista, seus habitantes gananciosos e a
política um meio corrupto em que as nulidades triunfavam, ao contrário
do que ocorria na Inglaterra, onde a monarquia garantia que os melhores tivessem
assento no governo. Com o tempo, passou a ver o lado positivo dessas mesmas características:
o pragmatismo da cultura, o empreendedorismo dos habitantes e um sistema político
no qual não eram tão importantes os melhores, já que as instituições
funcionavam bem. Ou, como ele escreveria mais tarde em Minha Formação:
"O governo tem uma capacidade limitada de fazer mal".
O que o fascinava nos Estados Unidos era, acima de tudo, a percepção
de que aquela sociedade representava o futuro, enquanto a aristocrática
Europa olhava para o passado. Num dos trechos mais impressionantes dos Diários,
Nabuco antevê a globalização. Ele achava que, num mundo interligado
pelo telégrafo (imagine se ele tivesse experimentado a internet...), os
hábitos dos homens tenderiam a se uniformizar, e isso propagaria o estilo
americano, "que realiza perfeitamente que a vida é um business e
que é preciso o dólar para não falir nela". O olhar aguçado
sobre o país não se limita à política nem ao mundo
dos negócios. Nabuco, que na juventude alimentou veleidades de ficcionista,
era também um arguto observador dos costumes. Habituado aos padrões
brasileiros e europeus, mais liberais, ele se espantava com o puritanismo americano,
sobretudo com a fidelidade no casamento. Quem conhece a biografia de Nabuco sabe
que ele advogava em causa própria. Com 1,86 metro de altura, bigodão
aprumado e ternos impecáveis, o pernambucano era conhecido como "Quincas,
o Belo" e cultivava fama de namorador, tendo entre seus alvos preferenciais as
mulheres casadas. Na França e no Brasil, fazia freqüentemente o papel
que Giacomo Casanova chamava de "cavaliere servante", o amante jovem que espantava
o tédio dos matrimônios maduros. Nos Estados Unidos, suas investidas
nessa seara não passaram de flertes. "Fora do casamento não há
nada aqui", anotou, com uma ponta de frustração, numa das páginas
dos Diários. Os críticos
que analisam Joaquim Nabuco com critérios de hoje apontam duas nódoas
em sua obra. A primeira é que, embora tenha sido aguerrido combatente da
escravidão, Nabuco não contestava a existência de raças
superiores e inferiores. A seu favor, diga-se que a idéia da hierarquia
das raças era predominante. Os célebres antiescravistas do século
XIX, entre eles o presidente americano Abraham Lincoln, pregavam a igualdade de
oportunidades na escola, no serviço público e perante a lei para
os homens de todas as raças. Mas nenhum deles aceitou totalmente a idéia
de que negros e índios pudessem ser iguais aos brancos. Lincoln fez uma
guerra civil não para acabar com a escravidão, mas para manter a
união dos Estados Unidos. O presidente americano, no entanto, acalentou
a idéia de que, uma vez libertos, os escravos negros dos EUA se mudassem
para o México e para países da América Central.
Nabuco chegou até a enxergar mais longe do que a cultura do seu tempo permitia
ao apontar a miscigenação como traço distintivo da cultura
brasileira. Sobre esse alicerce, anos mais tarde Gilberto Freyre erigiria Casa-Grande
& Senzala livro que, lançado em pleno nazismo, teve o efeito
de um libelo antieugenia. Outra idéia polêmica de Nabuco foi a defesa
ferrenha da monarquia brasileira. Além do componente afetivo os
Nabuco de Araújo mantinham ligações com a família
imperial , a convicção tem boa dose de pragmatismo. Joaquim
Nabuco sabia que um país de instituições fracas como o Brasil
não seria transformado pela república, do dia para a noite, numa
democracia sólida como a americana. Ele temia que o Brasil ficasse mais
parecido mesmo com a Bolívia o que, descontado o exagero, efetivamente
ocorreu. Em parte por seu pendor monarquista,
Nabuco se retirou da política pouco depois da proclamação
da República, tendo visto o triunfo da causa que norteou sua vida, a abolição.
É algo a ser lamentado. Em Minha Formação, editado
em 1900, ele critica o fato de a corrente abolicionista ter refluído no
dia seguinte à assinatura da Lei Áurea, quando seriam necessárias
"medidas sociais complementares" em benefício dos libertados, como a educação.
É de idéias assim que os grandes países são feitos.
Os Estados Unidos não seriam o que são hoje se os "pais da pátria"
não tivessem insistido na educação de massas como base do
ideal de igualdade. Ou, para ficar num exemplo mais próximo, a Argentina
não seria a nação com a maior qualidade de vida da América
Latina em boa parte do século XX se Domingo Faustino Sarmiento não
tivesse importado, no século anterior, o modelo educacional americano.
É uma pena que a república brasileira tenha sido fundada por militares
de vocação autoritária como Floriano Peixoto e bacharéis
beletristas como Rui Barbosa, e não por democratas de idéias sólidas
como Joaquim Nabuco.
ANTEVENDO A GLOBALIZAÇÃO
"O telégrafo, pondo o mundo todo em contato, desenvolve
muito a solidariedade humana. (...) Vive-se hoje quanto à soma de impressões
de cada hora cem vezes mais do que antigamente, porque elas nos vêm de todos
os cantos da terra. A princípio isso determina uma certa excitabilidade
nervosa, mas talvez acabe por produzir uma inteira insensibilidade. Estive neste
país durante grandes acontecimentos: depois de ver a efervescência
que eles produzem, é agradável ver a calma em que se deixam esquecer."
26/4/1877
SOBRE OS ESTADOS UNIDOS "Não
se pode dizer deste país que ele tem ideal. É o país prático
por excelência, que tem a admirável qualidade de bem ou mal governar-se
a si mesmo. Não lhe falta 'manhood' (virilidade), mas tudo nele serve a
fins materiais. A instrução pública, que está tão
desenvolvida, só tem tido esse desenvolvimento por ser um elemento do 'business'.
Ganhar dinheiro é o fim real da sociedade americana." 17/7/1877
Reprodução
Enciclopédia Mirador
 | | A
revolta da Armada: Nabuco condenava os métodos ditatoriais de Floriano Peixoto
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SOBRE
O BRASIL "Cada vez mais me convenço
de que a civilização no país acabou com a monarquia. O que
há são restos dela. Não há mais princípio que
detenha ninguém, nem pressão social que impossibilite os piores
atentados. (...) A classe de homens que governam é inverossímil,
os processos de governo uns torpes, outros indignos, outros ridículos.
Copiam os decretos da coleção sul-americana, dos estados de sítio
orientais, argentinos, bolivianos, que sei eu? A adulação dos jornais
ao ditador é tão grosseira como a dos guaranis do Paraguai. É
uma boêmia política de ceroulas e chinelas, como não se viu
nunca mais desprezível, que nos governa." 17/10/1893
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