Edição 1917 . 10 de agosto de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Internacional
O que vem depois do rei Fahd

Os sucessores do trono saudita
terão de escolher entre a modernidade
e o apoio ao terror


Ruth Costas

 
Ali Jarek/Reuters
Amr Nabil/AP
Abdullah acena para o povo e o corpo do rei é carregado por parentes: enterro austero


EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Islamismo

A austeridade do funeral do rei Fahd na semana passada, em contraste com o luxo que marcou a vida do monarca, é uma síntese da Arábia Saudita de hoje: o reino dos paradoxos. Os sucessores de Fahd são confrontados com o dilema de optar pela nação que deverá prevalecer: a Arábia Saudita que flerta com a modernidade, impulsionada pela fartura de petróleo e por uma sólida aliança com os Estados Unidos, ou o país que patrocina o fanatismo islâmico e serviu de nascedouro para o terrorismo de Osama bin Laden. Fahd, dono de uma fortuna de 22 bilhões de dólares, foi enterrado em uma sepultura sem identificação num cemitério público de Riad. O rei morreu aos 82 anos, depois de governar por duas décadas o país que flutua sobre um quarto das reservas mundiais de petróleo.

Essa riqueza financiou a construção de shopping centers, ergueu arranha-céus de vidro e mármore no deserto e atraiu centenas de multinacionais. Os petrodólares também fomentaram a opulência da parentela real, composta de 30.000 príncipes e agregados, donos de 40% da renda nacional. A herança de Fahd inclui treze palácios e um Boeing 737 decorado de forma que os passageiros tenham a impressão de estar no interior de uma tenda árabe. O estilo de vida luxuoso da família real entra em contradição com a posição de guardião dos preceitos do wahabismo, o ramo islâmico ultraconservador adotado como credo oficial da monarquia saudita. A seita prega austeridade na vida pessoal, obediência cega a sua versão ortodoxa do Islã e considera hereges os demais países árabes. Em 1932, quando o xeque Abdul Aziz bin Saud, pai de Fahd, fundou o reino que leva o nome de sua família, o wahabismo deu legitimidade à monarquia, uma das últimas a exercer o poder absoluto.

O reinado de Fahd foi marcado pela estreita amizade com os americanos, importadores de 1,5 milhão de barris de petróleo saudita por dia. Em 1990, quando as tropas de Saddam Hussein tomaram o vizinho Kuwait e ameaçaram o reino, o rei pediu socorro aos Estados Unidos. Os americanos acudiram com mais de 500.000 soldados, reforçados por tropas de outros países. Depois da expulsão dos iraquianos, Fahd permitiu a permanência de tropas americanas para policiar de perto Saddam. A presença de infiéis nas sagradas areias onde nasceu o Islã exasperou a linha dura wahabita. Membro de uma família íntima da realeza, Osama bin Laden declarou guerra à monarquia e aos Estados Unidos.

O rei Fahd enfrentou com prudência o paradoxo saudita. Diante da dificuldade de justificar o luxo abusivo da família real e a presença americana, ele abraçou o trabalho missionário. Os petrodólares passaram a patrocinar escolas e instituições ultraconservadoras no mundo muçulmano, formando uma geração de extremistas. Simultaneamente, o regime saudita ajudou a alçar o Talibã, milícia de orientação wahabita, ao poder no Afeganistão, em 1996. O dinheiro recolhido nas mesquitas sauditas ainda financia o terrorismo islâmico. Dessa forma, a monarquia saudita fomentou o fanatismo que agora ameaça sua própria existência. O nó górdio da questão é que as ligações com o extremismo religioso são mais profundas do que se pode supor a julgar pela proximidade da família real com os Estados Unidos. "A monarquia saudita depende do wahabismo para sobreviver", disse a VEJA o cientista político libanês Asad Abukhalil, autor do livro A Batalha pela Arábia Saudita. "Os reis são vistos como os guardiães de Meca e Medina, lugares santos, e é a religião que legitima o seu poder diante da população."

O sucessor de Fahd, seu meio-irmão Abdullah bin Abdul Aziz, que governa a Arábia Saudita desde que o rei sofreu um derrame, em 1995, mantém essa política de dubiedade: ao mesmo tempo que permite ao clero wahabita aumentar sua influência no país, precisa combater o terror da Al Qaeda, que já matou mais de 200 pessoas no país. "É uma das muitas contradições da Arábia Saudita: a monarquia combate os grupos que se voltaram contra ela por condenarem a sua aproximação com os Estados Unidos, mas convive muito bem com o radicalismo islâmico", diz o cientista político egípcio Ibrahim Karawan, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio em Utah, nos Estados Unidos. "O problema é que são justamente os extremismos que alimentam o terror." Como Abdullah tem 81 anos, seu reinado deve ser curto. Uma transformação mais radical que possa solucionar o paradoxo saudita só deverá acontecer quando a segunda geração de príncipes assumir o poder. Existem mais de 150 candidatos, todos netos do patriarca Abdul Aziz.

 
 
 
 
topovoltar