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Internacional O
que vem depois do rei Fahd Os sucessores
do trono saudita terão de escolher entre a modernidade e o apoio
ao terror  Ruth
Costas Ali
Jarek/Reuters
 | Amr
Nabil/AP
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acena para o povo e o corpo do rei é carregado por parentes: enterro austero |
A austeridade do funeral do rei Fahd
na semana passada, em contraste com o luxo que marcou a vida do monarca, é
uma síntese da Arábia Saudita de hoje: o reino dos paradoxos. Os
sucessores de Fahd são confrontados com o dilema de optar pela nação
que deverá prevalecer: a Arábia Saudita que flerta com a modernidade,
impulsionada pela fartura de petróleo e por uma sólida aliança
com os Estados Unidos, ou o país que patrocina o fanatismo islâmico
e serviu de nascedouro para o terrorismo de Osama bin Laden. Fahd, dono de uma
fortuna de 22 bilhões de dólares, foi enterrado em uma sepultura
sem identificação num cemitério público de Riad. O
rei morreu aos 82 anos, depois de governar por duas décadas o país
que flutua sobre um quarto das reservas mundiais de petróleo.
Essa riqueza financiou a construção de shopping centers, ergueu
arranha-céus de vidro e mármore no deserto e atraiu centenas de
multinacionais. Os petrodólares também fomentaram a opulência
da parentela real, composta de 30.000 príncipes e agregados, donos de 40%
da renda nacional. A herança de Fahd inclui treze palácios e um
Boeing 737 decorado de forma que os passageiros tenham a impressão de estar
no interior de uma tenda árabe. O estilo de vida luxuoso da família
real entra em contradição com a posição de guardião
dos preceitos do wahabismo, o ramo islâmico ultraconservador adotado como
credo oficial da monarquia saudita. A seita prega austeridade na vida pessoal,
obediência cega a sua versão ortodoxa do Islã e considera
hereges os demais países árabes. Em 1932, quando o xeque Abdul Aziz
bin Saud, pai de Fahd, fundou o reino que leva o nome de sua família, o
wahabismo deu legitimidade à monarquia, uma das últimas a exercer
o poder absoluto. O reinado de Fahd
foi marcado pela estreita amizade com os americanos, importadores de 1,5 milhão
de barris de petróleo saudita por dia. Em 1990, quando as tropas de Saddam
Hussein tomaram o vizinho Kuwait e ameaçaram o reino, o rei pediu socorro
aos Estados Unidos. Os americanos acudiram com mais de 500.000 soldados, reforçados
por tropas de outros países. Depois da expulsão dos iraquianos,
Fahd permitiu a permanência de tropas americanas para policiar de perto
Saddam. A presença de infiéis nas sagradas areias onde nasceu o
Islã exasperou a linha dura wahabita. Membro de uma família íntima
da realeza, Osama bin Laden declarou guerra à monarquia e aos Estados Unidos.
O rei Fahd enfrentou com prudência
o paradoxo saudita. Diante da dificuldade de justificar o luxo abusivo da família
real e a presença americana, ele abraçou o trabalho missionário.
Os petrodólares passaram a patrocinar escolas e instituições
ultraconservadoras no mundo muçulmano, formando uma geração
de extremistas. Simultaneamente, o regime saudita ajudou a alçar o Talibã,
milícia de orientação wahabita, ao poder no Afeganistão,
em 1996. O dinheiro recolhido nas mesquitas sauditas ainda financia o terrorismo
islâmico. Dessa forma, a monarquia saudita fomentou o fanatismo que agora
ameaça sua própria existência. O nó górdio da
questão é que as ligações com o extremismo religioso
são mais profundas do que se pode supor a julgar pela proximidade da família
real com os Estados Unidos. "A monarquia saudita depende do wahabismo para sobreviver",
disse a VEJA o cientista político libanês Asad Abukhalil, autor do
livro A Batalha pela Arábia Saudita. "Os reis são vistos
como os guardiães de Meca e Medina, lugares santos, e é a religião
que legitima o seu poder diante da população."
O sucessor de Fahd, seu meio-irmão Abdullah bin Abdul Aziz, que governa
a Arábia Saudita desde que o rei sofreu um derrame, em 1995, mantém
essa política de dubiedade: ao mesmo tempo que permite ao clero wahabita
aumentar sua influência no país, precisa combater o terror da Al
Qaeda, que já matou mais de 200 pessoas no país. "É uma das
muitas contradições da Arábia Saudita: a monarquia combate
os grupos que se voltaram contra ela por condenarem a sua aproximação
com os Estados Unidos, mas convive muito bem com o radicalismo islâmico",
diz o cientista político egípcio Ibrahim Karawan, diretor do Centro
de Estudos do Oriente Médio em Utah, nos Estados Unidos. "O problema é
que são justamente os extremismos que alimentam o terror." Como Abdullah
tem 81 anos, seu reinado deve ser curto. Uma transformação mais
radical que possa solucionar o paradoxo saudita só deverá acontecer
quando a segunda geração de príncipes assumir o poder. Existem
mais de 150 candidatos, todos netos do patriarca Abdul Aziz. |