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Brasil 100
fatos
O ritmo da crise provocada
pela exposição da mais espantosa e abrangente máquina de
corrupção já montada no país é de tirar o fôlego.
Muitas vezes, são tantos os desdobramentos que parecem ultrapassar a capacidade
de acompanhá-los. Por isso, recapitular o desenrolar dos acontecimentos
tem dois efeitos importantes. Primeiro, reativar na memória fatos que,
embora tão recentes e vitais , parecem superados pela constante
avalanche de novas revelações. Mentiras, desmentiras, acusações
que se comprovam genuínas, renúncias e quantidades cada vez mais
alucinantes de dinheiro formam uma massa crítica capaz de calcinar tudo
o que passa em sua órbita. Segundo, lançar a luz límpida
da realidade sobre os fins da roubalheira sistêmica: sustentar o PT em suas
múltiplas necessidades, comprar aliados em massa, cobrir gastos de campanhas
passadas e montar o caixa de eleições futuras. Tudo isso feito pelos
mais importantes colaboradores do presidente hoje conhecidos, resumidamente,
como "a quadrilha". O acompanhamento da evolução das declarações
de Luiz Inácio Lula da Silva sobre a crise, desde o "olha para a minha
cara para ver se estou preocupado", do fim de maio, até o "eles vão
ter que me engolir" da quarta-feira passada, mostra um político sem controle,
sem capacidade de entender a crise nem de liderar sua gente num momento crítico,
sem real compromisso com o país além do palavrório vazio,
sem apoios, sem noção, sem compostura. Sem, infelizmente, vergonha.
14/MAI 1.
O fato fundador de toda a crise vem à tona na reportagem de VEJA sobre
o esquema de corrupção nos Correios. Num vídeo gravado secretamente,
o chefe do departamento de contratação e administração
de material dos Correios, Maurício Marinho, relata a roubalheira
generalizada. "Se pode roubar de tudo nos Correios", especifica, numa frase antológica.
Marinho diz que atua em nome do PTB e do deputado Roberto Jefferson: "Ele me dá
cobertura, fala comigo, não manda recado". No fim da conversa, num gesto
gravado na memória nacional, embolsa um maço de 3 000 reais, a título
de adiantamento de propina. 15/MAI
2. Marinho é afastado do cargo.
16/MAI
3. Caem o diretor de administração
dos Correios, Antonio Osório Batista, e seu assessor imediato, Fernando
Godoy. 4. Em entrevista ao programa Roda
Viva, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, nega ter conhecimento
de qualquer esquema nos Correios e entoa um desmentido clássico: "Este
é um governo que não rouba, não deixa roubar e combate a
corrupção". 18/MAI
5. Maurício Marinho diz que fez tudo sozinho
e foi vítima de armação. 6.
Os Correios cancelam licitação para a compra de 61 milhões
de reais em medicamentos, processo comprometido citado explicitamente por Marinho
num trecho da gravação. 18/MAI
7. Oposição pede a criação
de uma CPI dos Correios.
21/MAI 8. VEJA reporta a pressão de
Roberto Jefferson para obter mesada de 400 000 reais para o PTB em outra estatal,
o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). O pedido foi feito a Lídio Duarte,
então presidente do IRB, que posteriormente se demitiu.
24/MAI
9. Em depoimento à Polícia Federal,
Maurício Marinho diz não ter ligações com Jefferson,
nega a existência de um esquema de corrupção nos Correios
e afirma de novo que foi vítima de "armação". Os 3 000 reais
que embolsou eram pagamento de um "trabalho de consultoria". É indiciado
por crime de corrupção passiva e fraude à licitação.
26/MAI 10.
O governo tenta impedir a criação da CPI dos Correios liberando
12 milhões de reais em emendas para parlamentares da base aliada. A CPI
é aprovada. 28/MAI 11.
VEJA publica denúncia do senador Fernando Bezerra (PTB-RN) de esquema
em andamento nos Correios para favorecer a Novadata empresa de um amigo
de Lula em licitação milionária.
30/MAI 12. Técnicos da Controladoria-Geral
da União (CGU) encontram "indícios de irregularidades generalizadas"
em licitações dos Correios. Todos os contratos viram objeto de escrutínio
o resultado desse trabalho ainda não foi divulgado. "Olha
para a minha cara para ver se estou preocupado", o presidente, a respeito
da criação da CPI dos Correios, que o governo tentava sabotar
31/MAI 13. Tropa de
choque desfecha "operação abafa" para torpedear a CPI. Expoentes:
os deputados petistas João Paulo Cunha e Paulo Rocha e José Janene,
do PP, cujos nomes voltarão a aparecer em contexto mais comprometedor.
Eles fracassam. 2/JUN
14. Lídio Duarte, ex-presidente do Instituto
de Resseguros do Brasil, depõe na Polícia Federal e qualifica de
"fantasiosa" a reportagem de VEJA que dizia que o IRB arrecadava 400 000 reais
por mês para o deputado Roberto Jefferson.
4/JUN
15. VEJA divulga fita com entrevista na qual Duarte
conta detalhes sobre a arrecadação mensal ilícita feita a
instâncias de Jefferson.
6/JUN 16. É o dia D do mensalão.
Considerando que as denúncias que o envolvem são parte de uma conspiração
para desestabilizá-lo, o deputado Roberto Jefferson dá a entrevista
explosiva ao jornal Folha de S.Paulo na qual lança as acusações
que crescerão como bola de neve. Fala pela primeira vez sobre a existência
do suborno mensal de 30 000 reais feito a deputados da base aliada, em especial
do PP e do PL. Nomeia seu principal operador: Delúbio Soares, tesoureiro
do PT. Diz que relatou o fato ao presidente Lula e a ministros. 17.
Por intermédio de terceiros, Lula confirma que de fato teve a reunião
com Jefferson na qual o deputado falou sobre o mensalão. 18.
O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), revela que também
havia denunciado o mensalão, acrescido de um bônus por troca de partido,
a Lula. 19.
Os líderes do PT, PP e PL negam tudo. O petista José Genoíno:
"O relacionamento do PT com outros partidos da base aliada se assenta em pressupostos
políticos e programáticos"; Valdemar Costa Neto, do PL: tudo não
passa "de invenção"; Pedro Corrêa, do PP: "Nunca soube" de
deputados de seu partido recebendo o mensalão.
20. Citado por Maurício Marinho no vídeo da corrupção
dos Correios como sendo um "homem-chave" do esquema de arrecadação
de Jefferson, Roberto Salmeron deixa a presidência da Eletronorte.
7/JUN 21. Cai toda
a diretoria dos Correios e do IRB. "Não
vamos acobertar ninguém, seja lá quem estiver envolvido. Cortaremos
na própria carne, se necessário", a declaração
mais positiva de Lula sobre a crise 8/JUN
22. No Conselho de Ética do Congresso, o
presidente do PL, Valdemar Costa Neto, cava a própria e futura cova ao
pedir a cassação do mandato de Roberto Jefferson, alegando que a
denúncia do mensalão foi um ato de quebra de decoro parlamentar.
23. Marcos Vinícius Vasconcelos Ferreira, genro de Jefferson, pede
demissão do cargo de assessor da Eletronuclear.
9/JUN 24. Instala-se a CPI dos Correios. O
governo briga e leva os dois postos-chave: a presidência e a relatoria.
25. A Polícia Federal prende por
alguns dias os quatro acusados de ter gravado o vídeo da corrupção
dos Correios, feito por encomenda de um empresário contrariado. Até
hoje, foram os únicos presos de toda a crise.
12/JUN Ana
Araujo
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26.
Na segunda entrevista-bomba à Folha de S.Paulo, Roberto Jefferson
amplia o ataque. O dinheiro do mensalão, termo já consagrado, vinha
de estatais e empresas privadas e chegava a Brasília em malas. As negociações
se davam numa sala ao lado do gabinete do ministro José Dirceu, onde ficava
instalado o secretário-geral do PT, Silvio Pereira. Pela primeira vez,
cita o nome do personagem que se tornaria o símbolo da crise: o publicitário
mineiro Marcos Valério, apontado como operador do mensalão. Informa
ter negociado com o PT uma ajuda de campanha "por fora" de 20 milhões de
reais em cinco parcelas, mas só recebeu a primeira, de 4 milhões.
27. Os acusados refutam todas as acusações de Jefferson. José
Janene, líder do PP, diz que ele é "louco, canalha e maníaco-depressivo";
José Dirceu, que "quer se transformar em vítima, mas é réu";
Genoíno nega que Marcos Valério seja operador de mensalão.
Todos ameaçam processar o deputado. 13/JUN
28. A goiana Raquel Teixeira, deputada licenciada
do PSDB, afirma que recebeu oferta em dinheiro para trocar de legenda, mas não
conta de quem partiu a proposta.
14/JUN
29. Em histórica sessão
do Conselho de Ética da Câmara, Jefferson faz picadinho dos adversários.
Confirma todas as denúncias, assume que recebeu (e guardou) 4 milhões
em caixa dois, reitera que José Dirceu era o comandante do esquema do mensalão.
Como um anjo vingador de camisa lilás, profere: "Dirceu, se você
não sair daí rápido, vai fazer réu um homem inocente,
que é o presidente Lula". Cita nominalmente como beneficiários do
suborno José Janene (PP), Valdemar Costa Neto (PL), Pedro Corrêa
(PP), Sandro Mabel (PL), Bispo Rodrigues (PL) e Pedro Henry (PP). Todos negam.
30. Dirceu descarta demissão ou afastamento
do cargo. 31. Silvana Japiassu, secretária
particular de João Paulo Cunha (PT), diz ter ganho passagens aéreas
e hospedagem de Marcos Valério e que este era visto com freqüência
no gabinete do deputado. Paulo
Filgueiras/Ag. O Globo
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32.
Fernanda Karina Somaggio, ex-secretária de Marcos Valério,
diz em entrevista à revista IstoÉ Dinheiro que viu malas
de dinheiro saírem das agências do publicitário e que seu
patrão viajava para Brasília em jatinho do Banco Rural. O empresário
mantinha contatos com José Dirceu, Delúbio e Silvio Pereira. A entrevista
é maculada pela origem suspeita, mas as informações conferem
com o perfil operacional de Marcos Valério que começa a se consolidar.
33. É pedida a instauração
de mais uma CPI, a da Compra de Votos popularmente, a do Mensalão.
15/JUN 34.
Secretário-geral do PP, Benedito Domingos é o primeiro a confirmar
o mensalão. A distribuição do dinheiro, diz, era feita no
apartamento do deputado José Janene. 16/JUN
Celso
Junior/aE
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35. Cai José Dirceu.
17/JUN 36. Roberto
Jefferson se licencia da presidência do PTB.
18/JUN 37. Maria Christina Mendes Caldeira,
ex-mulher do deputado Valdemar Costa Neto, diz que ele agia em estreita sintonia
com Delúbio Soares. Menciona uma contribuição ilegal do governo
de Taiwan para a campanha de Lula. 21/JUN
"Ninguém
neste país tem mais autoridade moral e ética do que eu para fazer
o que precisa ser feito neste país", inaugura
a longa série de tautologias e auto-elogios em que embarca o presidente
22/JUN 38.
Mais uma CPI: o Supremo Tribunal Federal determina ao presidente do Senado,
Renan Calheiros (PMDB), que nomeie os senadores para compor a CPI dos Bingos,
efetivamente ordenando sua instalação. 39.
O TCU (Tribunal de Contas da União) aponta "sobrepreço" em dois
contratos da empresa Skymaster Airline, sediada em Manaus, com os Correios. Mais
uma denúncia de Jefferson ganha contornos de realidade. 40.
Em depoimento ao Conselho de Ética, a deputada licenciada Raquel Teixeira
diz que recebeu oferta de 30 000 reais mensais mais 1 milhão de luvas para
trocar o PSDB pelo PL, feita pelo líder do partido na Câmara, Sandro
Mabel. Ele nega tudo e diz que Raquel foi quem o procurou querendo mudar de partido.
23/JUN 41.
Anunciada a saída de Aldo Rebelo, ministro da Coordenação
Política, vítima da reforma ministerial com que Lula pretende recompor
o chão que lhe some sob os pés. 42.
Em seu primeiro depoimento desde o início da crise, na Corregedoria
da Câmara, José Dirceu nega todas as acusações feitas
por Roberto Jefferson e diz que conhece Marcos Valério de passagem, tendo
conversado com ele algumas vezes por telefone. 
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