Edição 1917 . 10 de agosto de 2005

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A cronologia da crise

O ritmo da crise provocada pela exposição da mais espantosa e abrangente máquina de corrupção já montada no país é de tirar o fôlego. Muitas vezes, são tantos os desdobramentos que parecem ultrapassar a capacidade de acompanhá-los. Por isso, recapitular o desenrolar dos acontecimentos tem dois efeitos importantes. Primeiro, reativar na memória fatos que, embora tão recentes – e vitais –, parecem superados pela constante avalanche de novas revelações. Mentiras, desmentiras, acusações que se comprovam genuínas, renúncias e quantidades cada vez mais alucinantes de dinheiro formam uma massa crítica capaz de calcinar tudo o que passa em sua órbita. Segundo, lançar a luz límpida da realidade sobre os fins da roubalheira sistêmica: sustentar o PT em suas múltiplas necessidades, comprar aliados em massa, cobrir gastos de campanhas passadas e montar o caixa de eleições futuras. Tudo isso feito pelos mais importantes colaboradores do presidente – hoje conhecidos, resumidamente, como "a quadrilha". O acompanhamento da evolução das declarações de Luiz Inácio Lula da Silva sobre a crise, desde o "olha para a minha cara para ver se estou preocupado", do fim de maio, até o "eles vão ter que me engolir" da quarta-feira passada, mostra um político sem controle, sem capacidade de entender a crise nem de liderar sua gente num momento crítico, sem real compromisso com o país além do palavrório vazio, sem apoios, sem noção, sem compostura. Sem, infelizmente, vergonha.

  14/MAI   

1. O fato fundador de toda a crise vem à tona na reportagem de VEJA sobre o esquema de corrupção nos Correios. Num vídeo gravado secretamente, o chefe do departamento de contratação e administração de material dos Correios, Maurício Marinho, relata a roubalheira generalizada. "Se pode roubar de tudo nos Correios", especifica, numa frase antológica. Marinho diz que atua em nome do PTB e do deputado Roberto Jefferson: "Ele me dá cobertura, fala comigo, não manda recado". No fim da conversa, num gesto gravado na memória nacional, embolsa um maço de 3 000 reais, a título de adiantamento de propina.

 

15/MAI

2. Marinho é afastado do cargo.

 

16/MAI

3. Caem o diretor de administração dos Correios, Antonio Osório Batista, e seu assessor imediato, Fernando Godoy.

4. Em entrevista ao programa Roda Viva, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, nega ter conhecimento de qualquer esquema nos Correios e entoa um desmentido clássico: "Este é um governo que não rouba, não deixa roubar e combate a corrupção".

 

18/MAI

5. Maurício Marinho diz que fez tudo sozinho e foi vítima de armação.

6. Os Correios cancelam licitação para a compra de 61 milhões de reais em medicamentos, processo comprometido citado explicitamente por Marinho num trecho da gravação.

 

18/MAI

7. Oposição pede a criação de uma CPI dos Correios.

 

21/MAI

8. VEJA reporta a pressão de Roberto Jefferson para obter mesada de 400 000 reais para o PTB em outra estatal, o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). O pedido foi feito a Lídio Duarte, então presidente do IRB, que posteriormente se demitiu.

 

24/MAI

9. Em depoimento à Polícia Federal, Maurício Marinho diz não ter ligações com Jefferson, nega a existência de um esquema de corrupção nos Correios e afirma de novo que foi vítima de "armação". Os 3 000 reais que embolsou eram pagamento de um "trabalho de consultoria". É indiciado por crime de corrupção passiva e fraude à licitação.

 

26/MAI

10. O governo tenta impedir a criação da CPI dos Correios liberando 12 milhões de reais em emendas para parlamentares da base aliada. A CPI é aprovada.

 

28/MAI

11. VEJA publica denúncia do senador Fernando Bezerra (PTB-RN) de esquema em andamento nos Correios para favorecer a Novadata – empresa de um amigo de Lula – em licitação milionária.

 

30/MAI

12. Técnicos da Controladoria-Geral da União (CGU) encontram "indícios de irregularidades generalizadas" em licitações dos Correios. Todos os contratos viram objeto de escrutínio – o resultado desse trabalho ainda não foi divulgado.

"Olha para a minha cara para ver se estou preocupado", o presidente, a respeito da criação da CPI dos Correios, que o governo tentava sabotar

 

31/MAI

13. Tropa de choque desfecha "operação abafa" para torpedear a CPI. Expoentes: os deputados petistas João Paulo Cunha e Paulo Rocha e José Janene, do PP, cujos nomes voltarão a aparecer em contexto mais comprometedor. Eles fracassam.

 

2/JUN

14. Lídio Duarte, ex-presidente do Instituto de Resseguros do Brasil, depõe na Polícia Federal e qualifica de "fantasiosa" a reportagem de VEJA que dizia que o IRB arrecadava 400 000 reais por mês para o deputado Roberto Jefferson.

 

4/JUN

15. VEJA divulga fita com entrevista na qual Duarte conta detalhes sobre a arrecadação mensal ilícita feita a instâncias de Jefferson.

 

6/JUN

16. É o dia D do mensalão. Considerando que as denúncias que o envolvem são parte de uma conspiração para desestabilizá-lo, o deputado Roberto Jefferson dá a entrevista explosiva ao jornal Folha de S.Paulo na qual lança as acusações que crescerão como bola de neve. Fala pela primeira vez sobre a existência do suborno mensal de 30 000 reais feito a deputados da base aliada, em especial do PP e do PL. Nomeia seu principal operador: Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Diz que relatou o fato ao presidente Lula e a ministros.

17. Por intermédio de terceiros, Lula confirma que de fato teve a reunião com Jefferson na qual o deputado falou sobre o mensalão.

18. O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), revela que também havia denunciado o mensalão, acrescido de um bônus por troca de partido, a Lula.

19. Os líderes do PT, PP e PL negam tudo. O petista José Genoíno: "O relacionamento do PT com outros partidos da base aliada se assenta em pressupostos políticos e programáticos"; Valdemar Costa Neto, do PL: tudo não passa "de invenção"; Pedro Corrêa, do PP: "Nunca soube" de deputados de seu partido recebendo o mensalão.

20. Citado por Maurício Marinho no vídeo da corrupção dos Correios como sendo um "homem-chave" do esquema de arrecadação de Jefferson, Roberto Salmeron deixa a presidência da Eletronorte.

 

7/JUN

21. Cai toda a diretoria dos Correios e do IRB.

"Não vamos acobertar ninguém, seja lá quem estiver envolvido. Cortaremos na própria carne, se necessário", a declaração mais positiva de Lula sobre a crise

 

8/JUN

22. No Conselho de Ética do Congresso, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, cava a própria e futura cova ao pedir a cassação do mandato de Roberto Jefferson, alegando que a denúncia do mensalão foi um ato de quebra de decoro parlamentar.

23. Marcos Vinícius Vasconcelos Ferreira, genro de Jefferson, pede demissão do cargo de assessor da Eletronuclear.

 

9/JUN

24. Instala-se a CPI dos Correios. O governo briga e leva os dois postos-chave: a presidência e a relatoria.

25. A Polícia Federal prende por alguns dias os quatro acusados de ter gravado o vídeo da corrupção dos Correios, feito por encomenda de um empresário contrariado. Até hoje, foram os únicos presos de toda a crise.

 

12/JUN

Ana Araujo

26. Na segunda entrevista-bomba à Folha de S.Paulo, Roberto Jefferson amplia o ataque. O dinheiro do mensalão, termo já consagrado, vinha de estatais e empresas privadas e chegava a Brasília em malas. As negociações se davam numa sala ao lado do gabinete do ministro José Dirceu, onde ficava instalado o secretário-geral do PT, Silvio Pereira. Pela primeira vez, cita o nome do personagem que se tornaria o símbolo da crise: o publicitário mineiro Marcos Valério, apontado como operador do mensalão. Informa ter negociado com o PT uma ajuda de campanha "por fora" de 20 milhões de reais em cinco parcelas, mas só recebeu a primeira, de 4 milhões.

27. Os acusados refutam todas as acusações de Jefferson. José Janene, líder do PP, diz que ele é "louco, canalha e maníaco-depressivo"; José Dirceu, que "quer se transformar em vítima, mas é réu"; Genoíno nega que Marcos Valério seja operador de mensalão. Todos ameaçam processar o deputado.

 

13/JUN

28. A goiana Raquel Teixeira, deputada licenciada do PSDB, afirma que recebeu oferta em dinheiro para trocar de legenda, mas não conta de quem partiu a proposta.

 

14/JUN

29. Em histórica sessão do Conselho de Ética da Câmara, Jefferson faz picadinho dos adversários. Confirma todas as denúncias, assume que recebeu (e guardou) 4 milhões em caixa dois, reitera que José Dirceu era o comandante do esquema do mensalão. Como um anjo vingador de camisa lilás, profere: "Dirceu, se você não sair daí rápido, vai fazer réu um homem inocente, que é o presidente Lula". Cita nominalmente como beneficiários do suborno José Janene (PP), Valdemar Costa Neto (PL), Pedro Corrêa (PP), Sandro Mabel (PL), Bispo Rodrigues (PL) e Pedro Henry (PP). Todos negam.

30. Dirceu descarta demissão ou afastamento do cargo.

31. Silvana Japiassu, secretária particular de João Paulo Cunha (PT), diz ter ganho passagens aéreas e hospedagem de Marcos Valério e que este era visto com freqüência no gabinete do deputado.

 
Paulo Filgueiras/Ag. O Globo

32. Fernanda Karina Somaggio, ex-secretária de Marcos Valério, diz em entrevista à revista IstoÉ Dinheiro que viu malas de dinheiro saírem das agências do publicitário e que seu patrão viajava para Brasília em jatinho do Banco Rural. O empresário mantinha contatos com José Dirceu, Delúbio e Silvio Pereira. A entrevista é maculada pela origem suspeita, mas as informações conferem com o perfil operacional de Marcos Valério que começa a se consolidar.

33. É pedida a instauração de mais uma CPI, a da Compra de Votos – popularmente, a do Mensalão.

 

15/JUN

34. Secretário-geral do PP, Benedito Domingos é o primeiro a confirmar o mensalão. A distribuição do dinheiro, diz, era feita no apartamento do deputado José Janene.

 

16/JUN

Celso Junior/aE


35. Cai José Dirceu.

 

17/JUN

36. Roberto Jefferson se licencia da presidência do PTB.

 

18/JUN

37. Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher do deputado Valdemar Costa Neto, diz que ele agia em estreita sintonia com Delúbio Soares. Menciona uma contribuição ilegal do governo de Taiwan para a campanha de Lula.

 

21/JUN

"Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que eu para fazer o que precisa ser feito neste país", inaugura a longa série de tautologias e auto-elogios em que embarca o presidente

 

22/JUN

38. Mais uma CPI: o Supremo Tribunal Federal determina ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), que nomeie os senadores para compor a CPI dos Bingos, efetivamente ordenando sua instalação.

39. O TCU (Tribunal de Contas da União) aponta "sobrepreço" em dois contratos da empresa Skymaster Airline, sediada em Manaus, com os Correios. Mais uma denúncia de Jefferson ganha contornos de realidade.

40. Em depoimento ao Conselho de Ética, a deputada licenciada Raquel Teixeira diz que recebeu oferta de 30 000 reais mensais mais 1 milhão de luvas para trocar o PSDB pelo PL, feita pelo líder do partido na Câmara, Sandro Mabel. Ele nega tudo e diz que Raquel foi quem o procurou querendo mudar de partido.

 

23/JUN

41. Anunciada a saída de Aldo Rebelo, ministro da Coordenação Política, vítima da reforma ministerial com que Lula pretende recompor o chão que lhe some sob os pés.

42. Em seu primeiro depoimento desde o início da crise, na Corregedoria da Câmara, José Dirceu nega todas as acusações feitas por Roberto Jefferson e diz que conhece Marcos Valério de passagem, tendo conversado com ele algumas vezes por telefone.

 

 
 
 
 
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