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Brasil O
embaixador da corrupção Não
era só no Brasil que Marcos Valério falava em nome do Planalto.
Em Portugal, governo e empresas abriram suas portas para o "consultor"
de Lula  Marcio
Aith Rafael
Neddermeyer/AE e Ana Araujo
 | QUE
CONFUSÃO, ORA POIS! Conexão
portuguesa: segundo o deputado Jefferson (à dir.), Marcos Valério
viajou para Lisboa para obter da Portugal Telecom, a maior empresa privada daquele
país, uma contribuição financeira capaz de "colocar em dia"
as contas do PT e do PTB |
O Brasil descobriu tarde os talentos de Marcos Valério, o publicitário-lobista
responsável pelo esquema clandestino de arrecadar e repassar dinheiro ilícito
a parlamentares aliados do governo petista. Na semana passada, veio à tona
que, mesmo antes de ser revelado à opinião pública brasileira
pela verve do deputado Roberto Jefferson, Valério já tinha construído
uma reputação além-mar, em Portugal, onde era recebido como
um emissário do governo Lula. Como vem se tornando hábito nessa
crise política, que completa três meses, as operações
portuguesas de Valério começaram a ser desvendadas pelo próprio
Jefferson na terça-feira, durante seu primeiro embate cara a cara
com o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, e em seu depoimento à
CPI do Mensalão, na quinta-feira. Jefferson acusou o ex-ministro de montar
uma operação de caixa dois com a multinacional Portugal Telecom,
dona da operadora de celulares Vivo e a maior empresa privada portuguesa. Por
ordem de Dirceu, Valério e o ex-tesoureiro informal do PTB, Emerson Palmieri,
teriam sido enviados a Portugal para recolher da companhia telefônica 12
milhões de reais ao PT e outros 12 milhões de reais ao PTB, a fim
de "colocar em dia" as contas dos dois partidos.
Jefferson fez outra revelação sobre as incursões de Valério
na terra de Camões. Segundo o deputado, o publicitário-lobista lhe
propôs, em julho de 2004, uma curiosa "operação casada" para
pagar as dívidas de campanha do PT e do PTB. O deputado deveria influenciar
seu amigo Lídio Duarte, ex-presidente do Instituto de Resseguros do Brasil,
a transferir em torno de 600 milhões de dólares das reservas internacionais
do instituto para o Banco Espírito Santo, sediado em Portugal e controlador
justamente da Portugal Telecom. Em troca, o banco português utilizaria esses
recursos para financiar a Eletronorte na reestatização de algumas
de suas linhas de transmissão. Os dois partidos endividados ficariam com
uma comissão de 90 a 120 milhões de reais caso a negociação
fosse concretizada. "Tratei de todos os assuntos com vossa excelência, deputado
José Dirceu, os republicanos e os não republicanos. Vossa excelência
nos deixava à vontade para qualquer conversa na ante-sala do presidente
da República", concluiu Jefferson. Roberto
Setton
 | UM
CICERONE DE LUXO Presidente da Portugal Telecom,
Miguel Horta e Costa apresentou Valério à alta corte de Lisboa |
Assessorado por uma comitiva de advogados, Dirceu negou tudo. "Quero repelir e
negar de forma peremptória", disse o ex-ministro. Em vão. Em questão
de horas, novos fatos deram força às acusações de
Jefferson. O ex-ministro José Dirceu, que na terça-feira garantira
não ter nenhum envolvimento com a operação, foi flagrado
em contradição por sua própria agenda. Em documento enviado
à CPI dos Correios, há o registro de um encontro de Dirceu com o
representante do Banco Espírito Santo. O português Ricardo Espírito
Santo foi acompanhado na audiência pelo publicitário Marcos Valério
de Souza. Dirceu defendeu-se dizendo que quem marcou a reunião não
foi Valério, mas o banco. Novamente Dirceu foi pego na mentira. O Banco
Espírito Santo informou que tentara agendar por três vezes o encontro
com Dirceu, mas só chegou ao ex-ministro quando Valério ofereceu
uma aproximação. Para piorar a situação de Dirceu,
confirmou-se que, treze dias depois desse encontro no gabinete do ex-ministro,
os mensageiros do PTB e do PT viajaram para Portugal. Estiveram em Lisboa entre
os dias 24 e 26 de janeiro deste ano, como indicara Jefferson. Marcos Valério
garantiu que não viajou para buscar propina, e sim para tratar da venda
da Telemig Celular, operadora de celular à qual presta serviços
publicitários, para a Portugal Telecom. Disse ainda que o "amigo" Palmieri
o acompanhou por estar "estressado". De acordo com Valério, ele queria
garantir que a conta de publicidade da companhia de celular de Minas Gerais continuasse
nas mãos de uma de suas agências, a DNA, caso a empresa fosse vendida
aos portugueses. Fernando
VIvas
 | CHANTAGEM
Convencer o banco português a salvar o Econômico,
de Calmon de Sá (à esq.), garantiria a Valério um
silêncio de 200 milhões de reais. VEJA antecipou a chantagem |
As acusações de Jefferson ganharam ainda mais força quando
se descobriu que Valério também esteve em Portugal em outubro de
2004, ocasião em que se encontrou com o presidente da Portugal Telecom,
Miguel Horta e Costa. Logo depois, Valério e Costa foram recebidos em audiência
pelo então ministro de Obras Públicas, Transportes e Comunicações
de Portugal, António Mexia. Coincidência ou não, Mexia foi
durante oito anos um alto executivo do Banco Espírito Santo. Para piorar,
em uma reportagem publicada no mês passado pelo semanário português
Expresso, o ex-ministro Mexia disse ter recebido Valério na qualidade
de "consultor do presidente do Brasil, a pedido de Miguel Horta e Costa". Ou seja,
enquanto vivia de forma obscura no submundo da corrupção no Brasil,
Valério era tratado como o homem de Lula em Portugal, um embaixador (como
diria Jefferson) para negócios "não-republicanos". O ex-ministro
português procurou logo contornar a crise com um curioso jogo de lógica.
Disse não se recordar das palavras exatas de Miguel Horta e Costa quando
este lhe apresentou Marcos Valério. Apenas ficou com a idéia de
que ele era "uma pessoa importante no Brasil, com influência e cuja opinião
importa". Informalmente, o antigo ministro admite que teve a impressão
de tratar-se de um consultor ou representante do governo brasileiro ou do presidente
Lula da Silva. Ou seja, Valério foi recebido como consultor de Lula. Só
não se apresentou como tal. Sobre o que conversaram? "A conversa foi de
circunstância, não houve nenhum tópico específico,
muito menos algo que não tinha nada a ver com a minha função
de ministro. Nunca o tinha visto, nem o voltei a ver", diz Mexia. O embaixador
do Brasil em Portugal, Paes de Andrade, negou ter oferecido qualquer tipo de assistência
a Valério durante sua viagem a Lisboa. Pois é, ministro em Portugal
recebe qualquer um para tratar de qualquer coisa "Você acredita nisso?",
perguntaria Jefferson. Ainda em outubro de 2004, Marcos Valério também
se encontrou em Lisboa com o vice-presidente do Banco Espírito Santo, Ricardo
Salgado. Segundo o banco, Valério foi recebido para oferecer em Portugal
os serviços de sua agência de publicidade. Salgado teria respondido
a Valério que ele deveria se dirigir à filial do Banco Espírito
Santo no Brasil. Mas nada se compara ao grande projeto de Marcos Valério.
 | Renata
Jubran/divulgação
 | A
AGENDA PRECIOSA DE DIRCEU Treze dias antes de
uma de suas viagens a Portugal, Valério e Ricardo Espírito Santo, representante
do Banco Espírito Santo, trataram de negócios com o ex-ministro José Dirceu. O
"pinóquio" disse não se lembrar |
VEJA descobriu qual era seu maior interesse no mundo empresarial português.
Há três semanas, a revista revelara que o publicitário-lobista
ameaçava o governo de contar tudo o que sabe sobre o esquema de corrupção.
Exigiu, para silenciar-se, 200 milhões de reais, que, segundo ele, viriam
da intermediação do fim da liquidação do Banco Econômico.
Esse valor equivale a 20% do que o ex-controlador da instituição,
Ângelo Calmon de Sá, pretende levar se o Banco Central autorizar
o fim do processo nos moldes propostos pelo ex-banqueiro. O que não se
sabia naquela ocasião é que Calmon de Sá não era o
único interessado no fim da liquidação do Econômico.
Cerca de 30% do controle do banco está hoje nas mãos do Millennium
Banco Comercial Português, uma das maiores instituições financeiras
de Portugal curiosamente, a maior concorrente do Banco Espírito
Santo, com o qual Valério também andou namorando, numa espécie
de adultério. Desde 1995, o banco português tem 36 milhões
de dólares enterrados no Econômico. Quase desistiu desse crédito
até conhecer um plano arquitetado por Valério e Calmon de Sá
para tirar o Econômico do buraco. Segundo a proposta, o Millennium injetaria
5 bilhões de reais no Econômico, levantando a liquidação
e assumindo o patrimônio do banco, estimado em 10 bilhões de reais.
Nessa eventualidade, Calmon de Sá e Valério sairiam com comissões
que lhes proporcionariam malas e malas de dinheiro. Animado, o banco português
pediu à embaixada de seu país em Brasília que conferisse
a viabilidade do negócio no Banco Central brasileiro. Os portugueses concluíram
que uma injeção de 5 bilhões de reais realmente encerraria
a liquidação do Econômico. Mas que, pelos cálculos
do BC, o Millennium não sairia desse negócio com os 10 bilhões
de reais mencionados por Valério. Ao contrário, jogaria 5 bilhões
de reais no lixo. Por um motivo simples: como o Econômico foi liquidado
pelo Proer, o que envolveu injeção de recursos públicos,
o BC proíbe que os liquidados saiam com dinheiro no bolso. Valério
tentou pressionar o BC a mudar de posição. Para isso, fez visitas
a diretores da instituição e mandou ameaças veladas a vários
deles. Considerava o assunto "em andamento" até estourar o escândalo
do mensalão. A VEJA, o Millennium confirmou o interesse no desfecho da
liquidação do Econômico, mas negou qualquer negociação
com Valério. "Temos como exclusivo interesse a recuperação
do crédito junto ao Econômico", diz Paulo Fidalgo, diretor de comunicação
do banco. "Mas desconhecemos qualquer história em que o senhor Marcos Valério
seja parte ou protagonista."
Dida
Sampaio/AE
 | INSTINTOS
PRIMITIVOS Dirceu (ao fundo), observa
seu algoz: "Tratamos de assuntos republicanos e não-republicanos", afirmou
Jefferson |
O
interesse de Valério pelas empresas portuguesas explica-se nem tanto pelo
montante que elas já têm investido no país, mas pela perspectiva
de novas frentes. No ano passado, Portugal injetou 570 milhões de dólares
no Brasil, o que representa a oitava posição no ranking de investidores
estrangeiros. O valor é nada menos do que 200% acima dos investimentos
feitos em 2003. As principais empresas portuguesas no Brasil são Portugal
Telecom, Energias do Brasil e Sonae Supermercados. O Grupo Espírito Santo,
o terceiro maior conglomerado empresarial português, já teve presença
mais forte no Brasil. Segundo maior acionista da Portugal Telecom, protagonizou
uma grande negociação em 1997, quando comprou o Banco Boa Vista,
do Rio de Janeiro. Seus sócios na empreitada foram o Grupo Monteiro Aranha
e os franceses do Crédit Agricole. Dois anos mais tarde, o negócio
naufragou, causando prejuízo de 270 milhões de dólares para
cada um dos sócios. A solução foi revender o Boa Vista ao
Bradesco. Mas isso não desanimou os banqueiros portugueses, dispostos a
fincar bandeira no Brasil. O segundo movimento foi procurar um parceiro mais forte:
estreitaram laços com o próprio Bradesco. Hoje, o banco brasileiro
possui 6,5% do Espírito Santo em Portugal e aproximadamente 20% da subsidiária
brasileira. Os portugueses, por sua vez, detêm em torno de 3,5% do capital
total do Bradesco e 16% da Bradespar, o braço de participações
do banco. Desde 2001, o braço brasileiro do Espírito Santo não
parou de crescer e hoje é o sexto maior banco de investimentos do país.
Especializou-se no rentável mercado de fusões e aquisições.
Em apenas dois negócios, mostrou sua força: foi quem intermediou
a compra da operação brasileira do Banco Bilbao Vizcaya pelo Bradesco
(800 milhões de dólares) e a aquisição da Tele Centro-Oeste
Celular pela joint venture Telefónica-Portugal Telecom (1 bilhão
de dólares). Outro ramo em que o grupo operou fortemente foi na colocação
de papéis da dívida privada brasileira no mercado internacional,
principalmente na Europa. Hoje, além das atividades bancárias, o
Grupo Espírito Santo tem participação acionária no
grupo Accor de hotéis e no Shopping Villa-Lobos, em São Paulo, entre
outros investimentos.
AE
 | O
TURISMO DO STRESS Emerson Palmieri, tesoureiro
informal do PTB: diz ter ido a Portugal com Valério somente para "aliviar o stress"
|
Mas está
certamente na telefonia o maior interesse empresarial português no país.
O setor deverá entrar em breve numa nova fase. Barreiras legais que impedem
a atuação nacional de empresas de telefonia fixa deverão
cair em breve, o que aumentará a disputa pelo controle do setor. Além
disso, várias companhias de telefonia celular deverão ser vendidas
em breve. A Telemig, uma delas, é estratégica para a Vivo
e, portanto, também para a Portugal Telecom, que divide com a espanhola
Telefónica o controle da empresa no Brasil. Forneceria à companhia
a última peça que falta no Sudeste para lhe dar cobertura nacional.
A Vivo tentou obter licença junto à Anatel para operar uma nova
empresa de telefonia móvel em Minas Gerais, mas o pedido foi negado. A
única saída foi partir para a aquisição. Os dois caminhos
para comprar a Telemig são a Previ, fundo de pensão do Banco do
Brasil, e o Opportunity de Daniel Dantas. A Portugal Telecom optou por negociar
com Dantas, e as conversas se estenderam de setembro de 2004 até o fim
do ano. Chegou-se a fechar um acordo, mas na última hora ocorreu um problema
decorrente da longa queda-de-braço de Dantas com seus sócios. O
Citibank, já convencido pelos fundos de pensão a destituir o Opportunity
da gestão de seus recursos, freou a operação. Dantas ainda
tentou leiloar sua participação na Telemig no fim de março,
mas acabou impedido pela Justiça de Nova York, cidade que sedia o Citibank.
A Portugal Telecom admite ter fracassado em todas as frentes. E diz que seu interesse
pela Telemig está reduzido devido à opção tecnológica
da empresa (que escolheu a tecnologia GSM, que Daniel Dantas queria, em vez da
CAMA, adotada pela Vivo). Em meio a essas dificuldades, as empresas decidiram
abrir as portas ao embaixador Marcos Valério. Roberto
Stuckert Filho
 | REPRESENTANTE
OFICIAL Segundo o embaixador Paes de Andrade,
Valério não recebeu nem pediu apoio dos diplomatas em Lisboa |
Tem dinheiro voando por aí Luiz
Carlos Murauskas/Folha Imagem
 | DE
MALUF A LULA Zilmar, responsável por "repaginar"
o presidente e a primeira-dama: 15 milhões no ar |
O publicitário Duda Mendonça, em nota divulgada na sexta-feira,
negou que tivesse recebido 15 milhões de reais das contas de Marcos Valério
por intermédio de sua sócia, Zilmar Fernandes, como havia afirmado
a diretora financeira da SMPB, Simone Vasconcelos, à Polícia Federal.
Em seu depoimento, Simone disse que o dinheiro era entregue a Zilmar pelo policial
civil David Alves. Ouvido na quinta-feira pela CPI dos Correios, Alves desmentiu
Simone. Disse que o dinheiro que sacava era entregue à própria diretora
financeira da SMPB e a Cristiano Paz, sócio de Valério na empresa.
Zilmar Fernandes, que trabalhou com Duda na campanha de Paulo Maluf em 1992, atuou
também na que elegeu Lula. Era responsável, entre outras coisas,
pela "repaginação visual" do casal Lula e Marisa Letícia.
Assim como Zilmar e Duda, diversos deputados que confirmaram ter sacado dinheiro
das contas de Valério vêm reclamando que o empresário e sua
diretora financeira têm atribuído a eles valores superiores aos que
efetivamente receberam. Se for verdade, alguém está tentando empurrar
dinheiro a mais no colo de alguns. Seria para poupar outros? Deputados como Sandro
Mabel (líder do PL) e Pedro Henry (PP), por exemplo, acusados nominalmente
por Roberto Jefferson de ser recebedores do mensalão, até agora
não apareceram em lista nenhuma. | |
Com reportagem de
Lucila Soares e Antonio Ribeiro, de Paris |