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Roberto
Pompeu de Toledo
Não
invocar o
santo nome...
Ou
invocar? Os
Estados laicos
de hoje
ainda recorrem
ao
expediente
de
misturar Deus
a seus interesses
O
juramento à bandeira é uma das mais eloqüentes e populares
manifestações do patriotismo americano. As crianças
aprendem a fazê-lo nas escolas. Ele é repetido em cerimônias
cívicas, em certas festas, na abertura das sessões do Senado
e da Câmara. O juramento consiste num curto recitativo, chamado
Pledge of Allegiance, ou Pleito de Lealdade. Em coro, como numa
prece, as pessoas asseguram sua lealdade "à bandeira dos Estados
Unidos da América" e aos princípios que norteiam a República,
constituída por "uma nação, sob Deus, indivisível,
com liberdade e justiça para todos". Nos últimos dias, a
controvérsia rondou essas palavras, em seguida a uma decisão
judicial que considerou inconstitucional a invocação que
nelas se faz a Deus, por ferir o princípio da separação
entre religião e Estado.
A decisão, proferida pela Corte Federal de Apelos de São
Francisco, atendendo a ação movida por um cidadão
ateu, mereceu repúdio da grande maioria. Numa sondagem da revista
Newsweek, 85% dos entrevistados manifestaram-se contra, e apenas
9% a favor. É quase certo que a sentença acabe revogada.
Mesmo porque não é uma religião específica,
mas apenas "Deus", que é invocada no juramento. A controvérsia
alerta, no entanto, para as ambigüidades que ainda cercam a questão
religião-Estado e não só nos EUA , mais
de 200 anos depois que os filósofos do iluminismo e as revoluções
francesa e americana lançaram as bases do Estado moderno, um de
cujos pilares é seu caráter laico.
Excetuado o caso dos países muçulmanos, perturbados pela
fúria dos movimentos fundamentalistas, pode-se dizer que o princípio
da separação entre as duas esferas impôs-se, mundo
afora, sem contestação de peso. Isso como princípio
geral. Um olhar mais atento revela, porém, que tal princípio
convive com resquícios de um passado em que a lei do rei se confundia
com a de Deus, e a sentença do bispo equivalia à do magistrado
e isso mesmo na evoluída Europa. Pense-se na Espanha de
Franco. Não que, nela, ainda se condenassem os hereges à
fogueira. Mas ainda vigia um aparato que, no fundo, igualava a oposição
ao pecado. O.k., a Espanha de Franco não existe mais mas
e a Inglaterra? A Inglaterra, apesar da condição de uma
das campeãs mundiais da liberdade e da tolerância, tem uma
religião oficial, a anglicana, da qual a rainha é a chefe
suprema.
Os três maiores países latino-americanos apresentam, neste
assunto, diferentes posturas. A Argentina é o Estado mais religioso.
Sua Constituição estabelece que "o governo federal sustenta
o culto católico apostólico romano". Até 1994, exigia-se
que o presidente fosse católico. O muçulmano Carlos Menem
submeteu-se a uma cerimônia de conversão para poder concorrer.
Na posição oposta, o México, não contente
com o laicismo, abraçou o anticlericalismo militante, vigente desde
os dias heróicos da revolução de 1910. O atual presidente,
Vicente Fox, vitorioso na eleição que interrompeu a hegemonia
quase secular do Partido Revolucionário Institucional, adotou como
uma de suas tarefas o degelo com a Igreja.
O terceiro grande, o Brasil, ostenta posição intermediária.
Claro: o Estado por aqui não tem religião. Mas tanto a Câmara
quanto o Senado expõem um crucifixo na parede atrás das
respectivas mesas. Um candidato a presidente, por mais ateu que seja,
acaba rezando na campanha e comungando no exercício do cargo, como
se comprovou ainda há pouco. E característica não
só brasileira decreta-se aqui feriado em dias de festas
católicas. É verdade que ficamos todos satisfeitos e corremos
para a praia. Mas que têm a ver judeus e muçulmanos, umbandistas,
budistas e membros de outras comunidades religiosas que convivem sob a
jurisdição do Estado laico brasileiro com a Sexta-Feira
Santa ou o dia de Corpus Christi?
Este rápido giro foi para dizer que os EUA não estão
sós. Não é só ali que a religião ainda
se insinua nas ações do Estado e de seus representantes.
Mas nesse país, sem dúvida porque ali o povo é dotado
de religiosidade mais profunda e praticante que nos demais países
ocidentais, o fenômeno tem se mostrado especialmente agudo. Nas
moedas e notas de dólar lê-se "In God we trust" ("Em Deus
confiamos"). A invocação a Deus no juramento à bandeira
não existia no texto original, de 1892. Foi introduzida em 1955.
Vigia a Guerra Fria e, em resposta ao império do ateísmo
e do Anticristo que era a União Soviética, os EUA erigiam-se
em pátria de Deus.
Nestes últimos meses, depois dos atentados terroristas em Nova
York e Washington, a invocação a Deus tem sido uma constante
no discurso oficial. O presidente George W. Bush usa e abusa do recurso.
Seria um exagero afirmar que assim procedendo fere a democracia americana.
Mas o fato é que, com isso, deixa os EUA um pouco mais parecidos
com (ou um pouco menos diferentes de) seus maiores inimigos do momento
os loucos dos Talibãs e Al Qaedas, Hamas e Hezbollahs da
vida, mestres por excelência na mistura malsã entre religião
e Estado, Deus e política.
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