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Edição 1 759 - 10 de julho de 2002
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O tamanho do
nó brasileiro

A economia emite sinais negativos,
as empresas falam em mais cortes
e há ainda a eleição que assusta
o investidor

Monica Weinberg

 
Claudio Rossi

Loja do McDonald's em São Paulo: sanduíches a menos de 1 real são tática da empresa para chamar clientela com pouco dinheiro no bolso


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Cingapura tinha, até meados da década de 50, vastas áreas pantanosas ocupadas por pescadores. A Coréia do Sul, em 1970, possuía uma renda per capita equivalente à metade da dos brasileiros. E a Espanha, na década de 70, freqüentava a lista dos países com renda per capita na faixa dos 1.000 dólares. As pessoas viviam nesses países em condições semelhantes às do Brasil, ou piores. O tempo inverteu a realidade. Cingapura virou uma nação de arranha-céus sofisticados com renda per capita de quase 25.000 dólares, mais alta que a do Canadá. A Coréia do Sul ostenta renda per capita de 8.900 dólares, 2,5 vezes mais alta que a brasileira. E a da Espanha atingiu o patamar de 15.000 dólares. O Brasil perdeu tempo. Passado o ciclo militar, no qual o país chegou a experimentar um período de crescimento elevado, os brasileiros foram apresentados à montanha-russa. Moratórias e cinco planos econômicos encarregaram-se de propagar a sensação de que o abismo está sempre rondando por perto. O Plano Real parecia ser a oportunidade de iniciar a arrancada. Completados oito anos de seu lançamento, o Brasil venceu a inflação, o que não é pouco. Mas chega às eleições de 2002 com uma pauta de discussão que parece velha. Seus pontos principais são dois: consolidar o processo de estabilização e fazer o Brasil crescer.


A taxa de desemprego acaba de atingir 7,7%. Os investimentos estrangeiros diretos, que já romperam a casa dos 30 bilhões de dólares, chegarão ao fim do ano, com muita sorte, a 18 bilhões. Por causa das incertezas associadas ao processo eleitoral, o risco Brasil ultrapassou o da Nigéria, situando-se na casa dos 1.700 pontos. É o segundo maior do mundo, atrás apenas do da Argentina. "O Brasil ainda enfrenta questões primárias que já foram superadas em outros países, como a insegurança sobre a solidez do Banco Central ou o medo que investidores têm de ver seus contratos desonrados", diz Octavio de Barros, economista-chefe do BBV Banco.

Nos últimos dias, a coleção de indicadores ruins foi encorpada com o anúncio do Banco Central que rebaixou o cálculo do crescimento da economia para 2002. A previsão inicial, de 2,5%, que já era ruim, foi reduzida para 2%. Para um país no estágio do Brasil, a perspectiva de continuar nesse padrão é assustadora. Se crescesse a uma taxa média anual de 3% durante 25 anos seguidos, ainda assim teria seu contingente de pobres reduzido de 34% da população para 15%. Detalhe: países com renda per capita semelhante à brasileira têm – já hoje, com um quarto de século de vantagem – entre 4% e 19% da população abaixo da linha da pobreza.

 
Almeida Rocha/Folha Imagem
Pátio lotado da Volkswagen e loja Blockbuster (abaixo): setor automobilístico vendeu em 2002 quase 20% menos que em 2001 e a rede de locadoras de vídeo procura investir em bairros de renda mais elevada
Egberto Nogueira

O ciclo de desconfiança internacional em que o Brasil mergulhou é, em parte, produto de uma ilusão de ótica. Há medo de uma vitória de Lula, há especulação e também o chamado "efeito manada". Essa constatação não remove a desconfiança. Pior: existem indicações setoriais da economia de que o país enfrenta um problema real, não apenas de percepção dos fatos. O setor automobilístico registrou queda de 17,8% nas vendas quando se compara o primeiro semestre de 2002 com igual período de 2001. Na semana passada, a Volkswagen anunciou férias coletivas por uma semana para que o estoque de carros parados no pátio possa ser comercializado. A empresa foi uma das muitas companhias que recorreram ao achatamento da jornada de trabalho. Com a retração das vendas, a Volks viu-se forçada a encolher a semana de trabalho para quatro dias. O sistema vigorou até abril e significou redução de quase um quinto da folha de pagamento. Mesmo assim, estimulou que funcionários saíssem com o auxílio de um programa de demissões voluntárias. Setecentos deles aderiram. Agora os empregados vão ficar em casa e passam a dever à companhia essas horas sem trabalho. Quando a demanda do mercado aumentar e a Volkswagen de fato precisar de sua mão-de-obra, poderá usar o crédito.

Na semana passada, a agência americana de avaliação de risco Standard & Poor's rebaixou o Brasil na classificação de risco, sob o argumento de que o país pode não honrar a dívida interna. Numa manifestação pouco comum nesses casos, a Standard & Poor's justificou a mexida no ranking. "O PT nunca esteve no poder. Se chegar lá, levará um tempo para aprender a governar", disse Helena Hessel, analista de risco da S&P, especializada em papéis brasileiros. Dias depois, a própria Standard & Poor's, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Tesouro americano disseram que a dívida brasileira é administrável e que, na origem de todo o turbilhão atual, está mesmo a expectativa política. "Os mercados e os analistas estão sofrendo de um ataque de histeria diante da possibilidade de vitória de Lula", resumiu o alemão Horst Koehler, diretor-geral do FMI. Outros analistas acrescentaram um ingrediente ao diagnóstico: o ambiente externo desfavorável.

 


Desde a revelação de fraude na contabilidade da megaempresa de energia Enron, em dezembro do ano passado, um clima de desconfiança instalou-se entre os investidores internacionais. Nos últimos dias, as bolsas de ambos os lados do Atlântico tentavam em vão digerir outros escândalos contábeis envolvendo companhias de reputação brilhante, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. "Se o investidor enxerga risco numa empresa cuja sede ele conhece e onde tem parentes trabalhando, imagine seu sentimento em relação ao mercado de um país distante", diz o brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor de economia da Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

Uma das promessas da globalização era justamente a de que os investidores ficariam tão familiarizados com os mercados estrangeiros que não teriam receios extras em despejar neles suas economias. É irônico que esteja ocorrendo justamente o contrário. O risco nos mercados centrais do capitalismo está afetando os países emergentes. Outra das promessas era que as economias nacionais acabariam sendo reguladas pelas forças globais. Essa se manteve. Um exemplo clássico é a derrota da inflação. Esse monstro foi domado em todo o mundo capitalista e hoje ninguém concebe a volta da hiperinflação num único país. A Argentina, que deve acabar o ano com 60% de inflação acumulada, não é exceção à regra, pois essa taxa não pode ser descrita como uma híper.

As estatísticas mostram que, desde o aprofundamento dos laços entre as economias em meados da década de 90, seus destinos flutuam ao sabor das mesmas forças. A variação do PIB brasileiro, por exemplo, vem seguindo mais ou menos a curva do PIB mundial. Isso vale também para as exportações brasileiras. Essa interdependência, como quase todos os fenômenos da globalização, tem seu lado bom e sua face negativa. De um lado, garante a participação, ainda que em proporções diferentes, de todos no bolo do crescimento global. De outro, dificulta que um país como o Brasil possa iniciar isoladamente um processo de recuperação econômica.

   
 

 


 

   
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