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Um caso em 200
milhões
de vôos
Dois aviões
se chocam à altitude
de 11 500 metros sobre a Alemanha

Eduardo Salgado
AFP
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| Os
estudantes que estavam no avião russo: viagem era prêmio
para bons alunos |

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O choque
entre um Tupolev russo e um Boeing 757 a 11.500
metros de altitude sobre a Alemanha, na segunda-feira passada, foi um
tipo raríssimo de acidente aéreo. De acordo com dados da
Airsafe.com, empresa americana especializada em segurança aérea,
os aviões comerciais realizaram 400 milhões de decolagens
desde 1960. Nesse período foram registrados apenas quinze choques
em vôo, a maior parte deles no trânsito congestionado perto
dos aeroportos. Apenas dois ocorreram quando as aeronaves estavam em nível
de cruzeiro, acima de 9.000 metros de altitude,
o que dá a média de um caso a cada 200 milhões de
vôos. O acidente aéreo com maior número de mortos,
578 pessoas, nas Ilhas Canárias em 1977, foi uma trombada entre
duas grandes aeronaves, mas ocorreu no solo, em meio a forte nevoeiro.
Os aviões trafegam por rotas, chamadas de aerovias, que são
como estradas no céu. Em vez de pistas paralelas, como ocorre no
solo, as aerovias têm faixas em altitudes diferentes. Normalmente,
os aviões transitam em corredores que estão distribuídos
entre 9.000 e 12.200
metros de altitude e a distância mínima recomendada entre
eles é de 600 metros. Na Europa, a distância foi reduzida
para 300 metros por causa do aumento do tráfego. "Vamos esperar
o relatório final para examinar se devemos modificar alguma regra",
disse a VEJA Denis Chagnon, porta-voz da Organização de
Aviação Civil Internacional.
Como isso
pode ter acontecido? "Há momentos em que uma série de erros
acaba com todos os sistemas de precaução", disse a VEJA
Todd Curtis, o diretor da Airsafe.com. Os primeiros indícios são
de que a torre de controle de Zurique falhou. Foi uma incrível
questão de má sorte. Os dois aparelhos decolaram de pontos
distantes do planeta Moscou e Manama, em Barein, no Golfo Pérsico.
Um viajou aproximadamente 4.200 quilômetros
e o outro cerca de 2.000 até o local
do acidente. Uma diferença de segundos no roteiro de cada um e
o choque não teria ocorrido. O mais dramático é que
a bordo do avião russo havia um grupo de 52 crianças e adolescentes
do Bashkortostão, uma das repúblicas autônomas da
Federação Russa, que iriam passar férias na Espanha.
Eles deveriam ter deixado Moscou no sábado. Mas se confundiram
sobre o aeroporto de embarque e foi preciso esperar outro aparelho.
O Tupolev
da empresa aérea do Bashkortostão finalmente saiu de Moscou
quando o relógio marcava 18h48 de segunda-feira pelo horário
de Greenwich, o usado pelos pilotos. A maioria dos passageiros do vôo
BTC 2937 tinha 12 anos. Eram todos alunos de uma escola em Ufa, capital
do Bashkortostão. A viagem era um prêmio pelo bom desempenho
escolar. Junto com acompanhantes, passariam as férias no hotel
Estival Park, um complexo com 980 quartos, 90 quilômetros ao sul
de Barcelona. Desde o fim da era soviética, a Espanha tornou-se
um dos locais de férias favoritos dos russos em busca de opções
baratas de lazer no exterior. No avião, o clima era de festa. Cinco
horas e dezoito minutos antes, o Boeing 757 da DHL, uma grande empresa
de transporte de encomendas, decolou de Barein. O destino do avião
era Bruxelas, na Bélgica, com escala em Bérgamo, no norte
da Itália. Os dois tripulantes do vôo DHX 611 aterrissaram
às 19h10 em Bérgamo e voltaram a decolar às 21h11.
Um minuto de atraso talvez tivesse evitado o pior.
Quando percebeu
que os dois aviões estavam prestes a colidir, o controlador de
tráfego aéreo de Zurique, que supervisiona a região
sul da Alemanha, pediu desesperadamente ao piloto russo que desviasse
para baixo. Faltavam apenas 44 segundos para o choque, tempo muito curto
para evitar uma catástrofe. É preciso, pelo menos, 90 segundos
para manobrar com eficiência e segurança. Por 14 segundos
não houve resposta, e o controlador voltou a contatar o Tupolev
154. Quando o piloto russo finalmente fez a manobra para perder altitude,
o equipamento do Boeing 757 da DHL que avisa sobre a iminência de
um choque já havia sido acionado. Imediatamente, o Boeing também
começou a descer. O choque ocorreu às 21h43, com os aparelhos
voando à velocidade de cruzeiro, em torno de 900 quilômetros
por hora, sobre a fronteira entre a Suíça e a Alemanha.
A explosão
gerou bolas de fogo de vários tons de laranja-escuro e espalhou
destroços das aeronaves e corpos despedaçados por um raio
de 52 quilômetros quadrados de terras agrícolas e florestas.
Quase por milagre, ninguém foi ferido em solo. A investigação
está centrada no comportamento dos controladores de vôo suíços.
O sistema que alerta a torre em caso de perigo de colisão se encontrava
em manutenção. Um dos dois controladores achou que o tráfego
estava tranqüilo e decidiu sair da torre para descansar. A análise
das caixas-pretas e a investigação deverão esclarecer
de quem é a culpa pela tragédia. As investigações
determinarão as ações dos procuradores de Zurique,
que já mostraram disposição de processar os controladores
de vôo por homicídio.
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