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Edição 1 759 - 10 de julho de 2002
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De onde eles vieram

De origem humilde, todos
enfrentaram dificuldades até
se tornarem estrelas milionárias

Daniel Hessel Teich

 

Arquivo pessoal
Eugenio Savio
Estado de Minas
Ronaldo ainda menino (acima, à esq.): para jogar bola e morar no alojamento do Cruzeiro (acima) precisou de um registro de trabalho numa metalúrgica


Veja também
A evolução do preparo físico
Edição Histórica É Penta!
Notícias diárias sobre a seleção

Os jogadores da seleção brasileira têm uma trajetória comum. São brasileiros excepcionais que saíram de uma infância quase sempre muito pobre e se tornaram, além de ídolos, donos de uma fortuna surpreendente. Cafu, o capitão da seleção, morava num bairro miserável da periferia de São Paulo, o Jardim Irene. De seus amigos de pelada, dois foram mortos pela polícia e um terceiro, que era vigilante, por bandidos. Quatro estão presos por roubo e um outro, motoboy de profissão, foi assassinado quando tentava evitar que roubassem sua motocicleta. Hoje no Roma, Cafu ganha 1,8 milhão de dólares por ano. Há dez anos, Rivaldo vendia doces no Recife e criava galos de rinha para ajudar no sustento da família. Como jogador do Barcelona, recebe 6,5 milhões de dólares por ano. Gilberto Silva tinha um salário mensal de 117,30 reais numa fábrica de caramelos em Lagoa da Prata, cidade mineira onde nasceu. Ganha agora 400 vezes mais no Atlético Mineiro e, com o prestígio de um pentacampeão mundial, vislumbra um rendimento de 100.000 dólares por mês no futebol europeu.


AP
O craque e a taça do penta: horas extras de treino para aprender a cabecear

RONALDO LUIZ
NAZÁRIO DE LIMA

Idade:
25 anos
Local onde nasceu:
um bairro pobre do Rio de Janeiro
Salário:
500 000 dólares por mês
A vida antes de ser jogador:
joga futebol desde os 13 anos. O pai era cartógrafo e a mãe trabalhava em uma lanchonete
O que já comprou com o dinheiro que ganhou no futebol:
dois apartamentos na Barra da Tijuca (RJ); dois BMW, uma caminhonete Pajero e outra Grand Cherokee, um Audi e uma Ferrari; um sítio em Vargem Grande (RJ)
Obras sociais que patrocina ou de que participa:
doações a instituições de caridade
Estado civil:
casado, tem um filho
Escolaridade:
não terminou o ensino médio
Onde joga e vive hoje:
Internazionale. Mora em Milão, Itália


No passado, o esporte também oferecia aos craques grande ascensão social. Mas nada que lembre os padrões financeiros de agora. As exigências da profissão são também muito maiores. O futebol se transformou num negócio global. O horizonte do esporte no Brasil se ampliou nesse período. Antes de mais nada, porque há mais dinheiro na jogada. Só a Nike gasta 1,5 milhão de dólares por ano com o patrocínio de Ronaldo Nazário. Os patrocinadores não querem apenas bons resultados dentro de campo, mas igualmente uma imagem impecável na vida pessoal. A busca de novos talentos pelos clubes é o primeiro passo para a produção do atleta que será vendido ao futebol europeu por preço de astro de Hollywood. Para vencer nos gramados estrangeiros, o brasileiro tem de estar preparado para um desgaste maior – durante uma partida européia corre-se 40% mais que no Brasil. É fundamental uma estrutura muscular robusta. Trinta anos atrás, quando Pelé, Tostão e Jairzinho conquistaram o tri, os exercícios eram basicamente coletivos. Uma coreografia única imposta a todos os jogadores, fosse qual fosse o tipo físico ou a posição em campo. O sucesso agora implica submeter-se a uma máquina de preparo físico que transforma meninos magricelas em superatletas. Além de talento e criatividade, o craque precisa ter excelente preparo físico e altas doses de obstinação e disciplina.

Na década de 70, os jogadores corriam de 3 a 5 quilômetros a cada partida. Agora, corre-se em média de 9 a 12. "Em 1962, Pelé era considerado excepcional pela musculatura que tinha. Se entrasse em campo hoje não seria sequer notado", diz o médico paulista Victor Matsudo, especialista em medicina esportiva. Desde aquela época, o treinamento de força física aumentou em 300%. O volume de treino aeróbico dos jogadores cresceu 80%. Eles dedicam pelo menos duas horas diárias aos exercícios, entre atividades aeróbicas e de musculação. Os jogadores agora são mais magros, mais altos, mais resistentes e mais fortes. Enquanto a estatura média hoje é de 1,81 metro, no início da década de 70 era de 1,74 metro. O excesso de competitividade reduz a longevidade atlética dos jogadores. Nas condições atuais, o desempenho se mantém bom por seis a oito anos. Depois desse período, o jogador acaba sendo substituído por novos talentos que o superem em vigor físico. Quando não havia essa pressão, uma carreira no futebol podia durar 25 anos, como aconteceu com Nilton Santos ou Pelé.


Arquivo pessoal
Claudio Rossi
O menino Cafu com a família e os pais hoje, na casa num condomínio elegante: sem esquecer o Jardim Irene

A garotada brasileira chega aos clubes com bom domínio de bola, mas com deficiências alimentares, dentes cariados e baixíssima escolaridade. Os clubes cuidam de melhorar a alimentação, providenciam tratamento dentário e até insistem para que estudem. Existem coisas, porém, que são inteiramente pessoais: talento com a bola, o que é relativamente fácil de encontrar no Brasil, e determinação e disciplina, que só os melhores têm. "Os jogadores de hoje aposentaram a imagem do craque indisciplinado, do gênio incontrolável, pouco profissional e cheio de regalias", diz o fisiologista Turibio Leite de Barros, professor da Universidade Federal de São Paulo. O vício do fumo, as escapadas da concentração e as noitadas em boates são liberdades impensáveis na atual geração de craques.


Reuters
O capitão da seleção na chegada: consagração e mansão na praia

MARCOS EVANGELISTA
DE MORAES (CAFU)

Idade:
32 anos
Local onde nasceu:
Jardim Irene, periferia de São Paulo
Salário:
150 000 dólares por mês
Vida antes de ser jogador:
joga futebol desde os 13 anos. O pai era pintor e a mãe, empregada doméstica
O que já comprou com o dinheiro que ganhou:
duas casas no condomínio Alphaville, em São Paulo, uma Ferrari e uma casa em um condomínio de Bertioga
Obras sociais que patrocina:
criou a Fundação Cafu para ajudar crianças carentes
Estado civil: casado, tem três filhos
Escolaridade:
ensino fundamental completo
Onde joga e vive hoje:
Roma. Mora na capital italiana

Há um conceito comum na sociologia brasileira segundo o qual os únicos meios fortes de ascensão social dos pobres, sobretudo os de pele mais escura, são o futebol, a música e o narcotráfico. A chance de um brasileiro com idade entre 20 e 32 anos chegar ao cargo de capitão da seleção brasileira é de 1 para 17 milhões. É bem mais fácil, por exemplo, ganhar no concurso da Supersena, cuja probabilidade de vitória é de 1 para 12 milhões. A carreira de um jogador de futebol começa pelas peneiras, o processo de seleção de jovens talentos dos grandes clubes. No Corinthians, de cada 5.000 adolescentes são selecionados quarenta, dos quais apenas três se tornarão profissionais. No Flamengo, dos 25.000 que tentam a cada ano, 250 passam para a fase de treinos e dez viram de fato jogadores. O processo depende bastante de persistência. Cafu foi recusado doze vezes nas peneiras dos grandes clubes paulistas. Ronaldo, o Fenômeno, foi barrado no Flamengo. Rivaldo foi dispensado pelo técnico de juniores do Santa Cruz, do Recife.


Arquivo pessoal
Antonio Milena
Chuteira era um luxo na infância rural do futuro goleiro. Na foto à direita, os pais em frente à casa da família

 

Reuters
Marcos aprendeu a jogar no gol por imposição dos irmãos: eles temiam que ele se machucasse nas divididas

MARCOS ROBERTO SILVEIRA REIS
Idade:
28 anos
Local onde nasceu:
Oriente, interior de São Paulo
Salário:
60 000 reais
Vida antes de ser jogador:
trabalhou em uma usina de açúcar. O pai é lavrador e a mãe, dona-de-casa
O que já comprou com o dinheiro que ganhou:
um apartamento de 500 metros quadrados em São Paulo, um BMW, duas caminhonetes, uma fazenda
Obras sociais de que participa:
Faz doações a instituições de caridade
Estado civil:
solteiro
Escolaridade:
não terminou o ensino médio
Onde joga e vive hoje:
Palmeiras. Mora em São Paulo

Na família de Denilson há casos de gente que não passou pela peneira. Dois primos, que a parentela jura serem tão bons de bola quanto o atacante do Real Betis, são hoje motoristas de lotação. Se não tivesse sido descoberto por um olheiro do São Paulo aos 13 anos, Denilson provavelmente estaria na mesma situação. Ele passou a morar no clube de segunda a sexta-feira. Treinava seis horas por dia. Quando os outros iam para o chuveiro, ficava sozinho no campo por mais meia hora, ensaiando dribles e embaixadas. Com 16 anos, assinou seu primeiro contrato, com um salário de 700 reais. Era quase a soma dos vencimentos do pai operário e da mãe empregada doméstica. Com o dinheiro ajudou a reformar a casa em que a família vivia em Diadema, na Grande São Paulo. Logo que começou a ganhar dinheiro de verdade, realizou um sonho da mãe: revestiu a casa toda de mármore – pisos e paredes. "Eu sempre limpava o mármore da casa das patroas e só imaginava o dia em que ia ter isso na minha", diz a mãe, Amélia de Oliveira, que atualmente mora com o filho em Sevilha, na Espanha. O salário mensal de Denilson é hoje 910 vezes maior que a renda per capita de Diadema, cidade onde nasceu.


Arquivo pessoal
Rivaldo no Santa Cruz: para almoçar, foi morar no clube

Milionários e morando, a maioria, no exterior, os astros brasileiros continuam ligados aos antigos vizinhos nos bairros pobres onde começaram a vida. Filho de um pintor da prefeitura, Cafu é o quarto de seis irmãos. Apesar do salário apertado, a família morava num sobrado de quatro quartos cuja qualidade se destacava no Jardim Irene, como é chamado o conjunto de quatro ruas e algumas vielas encravado no Capão Redondo, o segundo distrito mais violento da capital paulista. O campinho onde o craque treinou seus primeiros dribles fica encostado no Córrego Pirajussara, que recebe o esgoto clandestino das casas da região. Por esse motivo, a via em frente ao campo foi batizada de "Rua da Bosta". A família deixou o bairro em 1991, quando Cafu começou a ganhar dinheiro, e hoje vive em mansão num condomínio elegante. Mas ele patrocina no Jardim Irene a construção da Fundação Cafu, cujo objetivo é dar reforço escolar e aulas de esportes a 250 crianças por dia.

AFP
Rivaldo com a taça: famoso, mandou asfaltar o caminho para a casa dos pais

RIVALDO VÍTOR
BORBA FERREIRA

Idade:
30 anos
Local onde nasceu:
Paulista, na Grande Recife (PE)
Salário:
541 000 dólares por mês
Vida antes de ser jogador:
filho de um contínuo da prefeitura do Recife e de uma dona-de-casa. Vendeu doces e treinou galos de briga
O que já comprou com o dinheiro que ganhou:
tem uma casa em Moji Mirim (SP), um apartamento de 2,8 milhões de reais na Praia de Boa Viagem (PE). Anda de Mercedes, depois de ter vendido uma Ferrari
Obras sociais que patrocina ou de que participa:
construiu uma escola dirigida pela irmã, na periferia de Paulista, que atende 300 crianças por preços subsidiados
Estado civil:
casado, tem um casal de filhos
Escolaridade:
ensino médio
Onde joga e vive hoje:
Barcelona, Espanha


Rivaldo mandou asfaltar com dinheiro do próprio bolso seis ruas no acesso à casa dos pais, num conjunto de residências populares construído pela Cohab, na década de 70, em Paulista, no Grande Recife. A infância de Ronaldo, o artilheiro da Copa, não foi miserável. Mas a pobreza esteve sempre presente na casa de sua família em Bento Ribeiro, um subúrbio do Rio de Janeiro. Seu pai, atualmente separado da mulher, viveu uma fase difícil, enfrentando problemas com álcool, hoje superados. Tinha 13 anos quando um olheiro notou seus dribles e levou-o para o São Cristóvão. Dois anos depois foi para o Cruzeiro, em Belo Horizonte. A pouca idade criou um problema legal, pois só poderia jogar se estivesse estudando ou trabalhando. A solução foi um registro fajuto na carteira de trabalho como auxiliar de torneiro mecânico na empresa de um cartola. Incomodado com a imagem daquele garoto tão dentuço, um dentista se dispôs a corrigir de graça seus dentes. O resultado é o sorriso impecável do atleta. O jogador de 500.000 dólares por mês dormia em beliche na concentração do Cruzeiro. Rivaldo também tinha uma cama na concentração do Santa Cruz, junto com os atletas de fora da cidade, com isso poupava o dinheiro da passagem de ônibus e comia melhor. Deitado no beliche, ele escrevia no teto, com insistência, que seria o melhor jogador do mundo. Foi mesmo escolhido o melhor da Fifa, em 1999.

Filho de um lavrador muito pobre do interior de Minas Gerais, Gilberto Silva alternou tentativas de vencer no futebol com trabalhos de servente de pedreiro e operário em fábrica. Só em 1996, aos 20 anos, conseguiu se firmar no América. O goleiro Marcos também tem origem rural. É filho de um agricultor e se criou num sítio nos arredores de Oriente, cidade de 5.800 habitantes a 472 quilômetros de São Paulo. Era o caçula de seis filhos e desde pequeno jogava futebol descalço com os irmãos no sítio. Queria atuar no meio de campo, mas os irmãos não deixavam, com medo de que se machucasse. Nasceu ali um goleirão. Aos 17 anos, passou no teste de seleção para os juniores do Palmeiras. Tornou-se titular há quatro anos. Seu salário inicial de aproximadamente 2.000 reais saltou para os atuais 60.000 reais. Há dois anos, comprou todas as terras em torno do sítio do pai, formando uma fazenda de 86 hectares e 300 cabeças de gado.

Arquivo pessoal
Antonio Milena
Denilson com a mãe e a família hoje, na casa nova: descoberto aos 13 anos


AFP
Denilson na Copa: treino duro na adolescência


DENILSON DE OLIVEIRA

Idade:
24 anos
Local onde nasceu:
Diadema, Grande São Paulo
Salário:
250 000 dólares por mês
Vida antes de ser jogador:
treina desde os 13 anos. Morava no alojamento do São Paulo FC. A mãe era empregada doméstica e o pai, operário
O que já comprou com o dinheiro que ganhou:
construiu uma casa em Diadema e outra em São Bernardo do Campo, tem cerca de vinte apartamentos
Obras sociais de que participa:
Orfanato Lar-Escola Pequeno Leão
Estado civil:
solteiro
Escolaridade:
estudou até a 6ª série do ensino fundamental
Onde joga e vive hoje:
Real Betis, de Sevilha. Mora na mesma cidade


O dinheiro do futebol fez diferença na infância de Ronaldo de Assis Moreira, o Ronaldinho Gaúcho, que hoje joga no Paris Saint-Germain e ganha 300.000 dólares por mês. Mas foi o irmão Assis, onze anos mais velho e hoje atleta na França, o primeiro a fazer sucesso. Ele tirou a família da Vila Nova, um dos bairros mais pobres de Porto Alegre, e ajudou Ronaldinho a entrar para a escolinha do Grêmio, aos 7 anos. Por ironia, o pai de Ronaldinho morreu num acidente na piscina da casa que Assis ganhou como parte do pagamento de seu contrato com o Grêmio. Quando escolhia os jogadores que levaria para a Ásia, o técnico Luiz Felipe Scolari deu atenção especial à capacidade de esforço, perseverança e lealdade de cada um dos convocados. São traços que, se acompanhados de talento, levam, na opinião do técnico, ao sucesso. Como jogador, Scolari sempre foi ruim de bola. Foi zagueiro do Caxias, entre 1973 e 1979. Mas um traço de sua personalidade já se impunha. "Ele era capaz de impor respeito aos companheiros e medo entre os atacantes adversários", relembra Carlos Froner, técnico de Scolari no Caxias. "Os jogadores habilidosos gritavam 'lá vem o caminhão', toda vez que ele aparecia para dar combate." Um técnico perfeito para aglutinar e pôr ordem num time de atletas que jogam em clubes de vários países. Não foi sem razão que esses brasileiros, tendo superado tantos maus prognósticos na infância, demonstraram em campo a disposição de campeões.

 
Zero Hora
Jefferson Bernandes
O zagueiro Scolari, no Caxias: ruim de bola e apelidado de "caminhão" O técnico campeão: um aglutinador de talentos


LUIZ FELIPE SCOLARI

Idade:
53 anos
Local onde nasceu:
Passo Fundo (RS)
Salário:
330 000 reais por mês
Vida antes de ser treinador:
foi jogador de futebol, professor de educação física e bedel de escola. O pai era dono de um pequeno armazém no interior do Rio Grande do Sul
O que já comprou com o dinheiro que ganhou:
tem uma empresa de construção, casa de veraneio em Gramado e um patrimônio de 3 milhões de reais em apartamentos, terrenos e salas comerciais em Canoas
Obras sociais de que participa: distribui cestas básicas e ajuda entidades gaúchas
Estado civil:
casado, tem dois filhos
Escolaridade:
é formado em educação física
Onde trabalha e vive hoje:
técnico da seleção brasileira, mora em Canoas (RS)

 

Com reportagem de Dimas Lopes, José Edward (Belo Horizonte),
Gabriela Carelli, Valéria França, Luís Henrique Amaral,
Raul Juste Lores, Rosana Zakabi (São Paulo),
Marcelo Carneiro, Silvia Rogar,
Ronaldo França (Rio de Janeiro), Sérgio Martins,
Arlete Lorini (Porto Alegre),
Silvia Elmor (Curitiba) e Leonardo Coutinho (Recife)