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Edição 1 759 - 10 de julho de 2002
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O problema é o teatro

"Se Lula for eleito, não vai dar para
agüentar a proliferação de grupos
teatrais.
Os petistas ainda acham
que o teatro deve ser usado como
instrumento de transformação social"

O maior perigo de uma eventual vitória de Lula não é a moratória da dívida externa ou o retorno da hiperinflação. Isso a gente tira de letra. O que não vai dar para agüentar será a proliferação de grupos de teatro amador. Em cada esquina haverá um ator improvisado, declamando seu monólogo. O Brasil se transformará num gigantesco palco para milhões de canastrões. Os petistas ainda cultivam a anacronística e terrificante idéia de que o teatro deve ser usado como um instrumento de transformação social. Onde quer que eles comandem, abundam os espetáculos de teatro popular. Em Ribeirão Preto, a prefeitura do PT colocou 300 adolescentes para interpretar sketches pedagógicos sobre a dengue, em locais públicos, como ônibus e shopping centers. O sindicato dos auditores fiscais, ligado ao PT, encenou peças de protesto na frente do prédio da Receita, reivindicando um aumento salarial de 63,83%. Em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial, ativistas recitaram um ato a favor da estatização da indústria farmacêutica. Em São Paulo, a prefeita Marta Suplicy organizou um psicodrama coletivo para discutir "O que você pode fazer para ter uma feliz cidade". O evento mobilizou 8.000 moradores, que puseram em cena suas angústias com a ajuda de psicodramatistas e ego-auxiliares. Entusiasmada, a Federação Brasileira de Psicodrama descreveu Marta Suplicy como uma "estrela-mãe, que irá gerar estrelas-bebês, que continuarão a iluminar a navegação dos seres humanos em crescimento".

Todos os grupos teatrais petistas seguem a cartilha do Teatro do Oprimido, criado por Augusto Boal, nos anos 70, durante a ditadura militar. A prefeitura de Santo André foi a mais ativa nesse setor. A partir de 1997, em convênio com a equipe de Boal, passou a aplicar o Teatro do Oprimido no contato com a população. Os grupos teatrais reuniam-se regularmente em diversos pontos da cidade e dramatizavam "as relações de poder, havendo um personagem oprimido que era impedido de realizar seu desejo devido ao personagem opressor". Em seguida, o espectador era incentivado a debater os problemas da cidade e a sugerir soluções. O Teatro do Oprimido de Santo André chegou até a fazer um Desfile do Orçamento Participativo, com samba-enredo, bateria e alas temáticas, representando as maiores preocupações da população. Não sei se o desfile fez alguma referência às propinas da prefeitura ou se contou com carros alegóricos em homenagem a Ronan Maria Pinto e Klinger Luiz de Souza, dois dos principais acusados de corrupção na administração petista.

De acordo com seus fautores, as técnicas do Teatro do Oprimido ajudam nos debates públicos porque favorecem a desinibição. Estranho. Se há algo de que a população brasileira não precisa é de mais desinibição. Pelo contrário: um pouco mais de freio inibitório até nos faria bem. Também acho que não necessitamos de mais teatro. Já se produzem bobagens suficientes no Brasil. Muita gente se preocupa com o avanço das igrejas evangélicas. Involuntariamente, porém, elas trouxeram o benefício de fechar uma grande quantidade de teatros inúteis, convertendo-os em templos. O risco que corremos agora é que, com a vitória de Lula, o teatro brasileiro recupere as forças e tome as ruas. Prepare-se. Ninguém estará a salvo.

 
 
   
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