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cozinheiro do século diz que vai |
Claudio Rossi![]() |
"Não há restaurante que agrade a todos. Acidentes acontecem. Certa vez, servi uma salada de lagosta e não percebi que havia cacos de vidro na comida" |
O mundo da alta gastronomia sofreu um baque quando o francês Joël Robuchon anunciou que ia pendurar suas panelas, em 1996. Com 51 anos, ele era aclamado um dos três cozinheiros do século (junto com Paul Bocuse e Fredy Giradet). Ele realmente entregou seu restaurante instalado num dos bairros mais chiques de Paris e agraciado com as três estrelas, a pontuação máxima no prestigiado Guia Michelin, ao igualmente badalado chef Alain Ducasse. Mas, na verdade, nunca se aposentou. Há seis anos Robuchon mantém um programa de gastronomia que vai ao ar na televisão francesa de segunda a sexta, com audiência média de 2 milhões de espectadores. Também presta consultoria a outros restaurantes e escreve livros de culinária de grande sucesso. Vendeu 1 milhão de exemplares só nos Estados Unidos. Em março, ele inaugurou a TV Gourmet, um canal a cabo especializado em gastronomia. O amor ao fogão acabou falando mais alto: ele pretende em breve abrir um novo restaurante, em Paris. "Dividirei o comando com outros colegas", diz. Robuchon falou a VEJA em São Paulo.
Veja Seis anos após abandonar as panelas, o senhor
resolveu voltar atrás e abrir um novo restaurante. Ficou difícil
viver longe do fogão?
Robuchon
De certa forma, sim. Só que esse restaurante será diferente
dos anteriores. Será bem mais informal, uma espécie de Robuchon
prêt-à-porter. Outra diferença é que participarei
da concepção do menu, mas não ficarei na cozinha.
Veja Por que o senhor decidiu parar de trabalhar com restaurantes
no auge da carreira?
Robuchon
Comandar um restaurante requer bastante dedicação e é
um desgaste enorme, tanto físico quanto mental. Muitos grandes
chefs morreram de problemas cardíacos perto dos 50 anos. Achei
que o caminho seria procurar fazer outra coisa. Nunca fui tão feliz
como agora. Só sinto falta das pessoas famosas que freqüentavam
minha casa. Eram reis, artistas e celebridades. Isso é muito agradável.
Uma vez, o músico russo Mstislav Rostropovich entrou em minha cozinha
e me deu um beijo na boca, tão encantado estava com o jantar. São
coisas inesquecíveis.
Veja É complicado satisfazer as expectativas de celebridades,
gente dada a caprichos?
Robuchon
Eu não permitia que ninguém jamais entrasse na cozinha,
para não atrapalhar minha concentração. Mas o ator
Clint Eastwood nunca deixava de ir até lá e me cumprimentar
com uns tapas nas costas que me tiravam o fôlego. Por mais que eu
não quisesse, tinha de permitir. Uma vez um grupo de brasileiros
pediu minha ajuda para tirar uma foto com o ator Christopher Lambert,
que estava na mesa ao lado. Ele tirou, mas queimou com seu charuto a roupa
Chanel de uma das moças. O curioso é que ela não
se importou. Disse que ia guardar de lembrança. A cantora Celine
Dion nunca pronunciava uma palavra no restaurante, para preservar a voz.
Entrava muda e saía calada. François Mitterrand, na época
que era presidente da França, levantou para me cumprimentar depois
de um jantar. Isso me deixou pasmo. Eu é que deveria ter ido lá
cumprimentá-lo.
Veja Com certeza, algumas pessoas não gostaram do
atendimento ou da comida. Tudo sempre deu certo em seu restaurante?
Robuchon
Não
existe um restaurante no mundo que agrade a todos. E acidentes acontecem.
Uma vez servi uma salada de lagosta e não tinha percebido que um
copo havia se quebrado em cima do prato e tinha vidro por toda a comida.
Outra vez, um grupo de americanos se recusou a pagar a conta porque as
pessoas da mesa ao lado estavam fumando, e eles não tinham conseguido
apreciar a comida. Numa situação dessas, não há
o que fazer. Tive de concordar. Outra vez, um rapaz me telefonou dizendo
que adorara o restaurante, mas o garçom havia derrubado vinho em
sua gravata e ele pedia reembolso pelo prejuízo. Concordei, dei
uma bronca em todos os garçons, para depois descobrir que esse
homem fazia isso em todos os restaurantes de Paris, e não tinha
nem pisado no meu.
Veja Nestes tempos de obsessão com a saúde
e a forma física ainda é possível comer bem?
Robuchon
Hoje comemos melhor que nunca. Os ingredientes estão muito melhores
e mais saudáveis. Antes, a comida era bem mais gordurosa. Na verdade,
é preciso dosar essa questão. As pessoas têm uma falsa
idéia de calorias. Todo mundo fala em evitar comidas com creme,
por causa das calorias, mas o que poucas pessoas sabem é que o
creme é muito menos calórico que óleo ou manteiga.
Seria melhor temperar a salada com creme e vinagre do que com azeite.
Na França, a região com o maior consumo de foie gras e vinho
é onde menos ocorrem problemas cardíacos. Isso tem intrigado
os médicos. Meu conselho a todos: pelo menos um copo de vinho por
dia.
Veja O que atraiu o senhor para a televisão?
Robuchon
Não era algo que me atraía. Comecei a fazer pela amizade
que tenho com o produtor do programa. Essa brincadeira era para durar
apenas seis meses, e já estou há seis anos. Não acho
que fico bem na TV, mas o que interessa às pessoas é a didática
que uso. O site de meu programa é o mais visitado de toda a televisão
francesa.
Veja É possível aprender a cozinhar apenas
lendo seus livros de receitas ou vendo seu programa de TV?
Robuchon
Livros são para inspiração, para quem já tem
alguma familiaridade com a cozinha. É mais fácil aprender
a partir da televisão. Não quero puxar a sardinha para o
meu lado, mas meu programa é um dos mais bem explicados da TV francesa.
Repito várias vezes os passos. O livro de receitas serve muito
mais de ponto de partida, não de modelo. Nos Estados Unidos já
vendi mais de 1 milhão de exemplares. Nada me dá mais orgulho
que assinar um livro bem usado, até sujo de comida. Mostra que
as pessoas o utilizaram.
Veja O que é mais compensador financeiramente, ter
um restaurante ou vender produtos com grife?
Robuchon
Todos
os donos de restaurantes estrelados têm algum outro negócio
à parte. O restaurante é importante para fazer o nome, mas
o que dá dinheiro são a prestação de consultoria
e a venda de produtos. Eu sou exceção, por ter desistido
do meu. Normalmente os chefs mantêm o restaurante para ter a grife.
Veja Como o senhor vê o fato de chefs prestigiados
darem seu nome a vários restaurantes ao redor do mundo, apesar
de não poderem, evidentemente, estar em todos os lugares ao mesmo
tempo?
Robuchon
Quando
um prato tem o meu nome, fui eu que fiz, eu me responsabilizo por ele.
Muitos chefs colocam seu nome em coisas que nem sabem o que são.
Quando presto consultoria a um restaurante, evito me expor em demasia.
Na verdade, tento valorizar os cozinheiros que trabalham nele. De qualquer
forma, as pessoas sabem que não devem esperar que, só porque
prestei assessoria, a comida seja igual à que eu preparava em meu
restaurante.
Veja Seu purê de batata é famoso. Como dar originalidade
a um prato tão trivial?
Robuchon
É
muito difícil julgar o mérito de um chef pelos pratos rebuscados,
cheios de temperos. Não há como julgar. O mérito
está justamente em reinventar os pratos que todo mundo sabe fazer.
Meu purê não tem segredo: é batata, leite e manteiga.
A diferença está na maneira de preparar. Um dos pratos mais
populares de meu restaurante era uma salada verde, de ervas, com cebolinha,
estragão, manjericão e um molho vinagrete normal. Meu segredo
era colocar uma gotinha de caldo de assado no molho da salada.
Veja Qual o segredo do prato perfeito?
Robuchon
Não
existe perfeição. A comida sempre poderia estar melhor.
O ideal é quando o cozinheiro coloca toda sua emoção
no prato e chama os cinco sentidos. Quando isso acontece, a cozinha é
uma arte.
Veja Qual a regra para ser um bom chef?
Robuchon
Isso depende muito da personalidade de cada um. Acredito que o respeito
ao prazer do cliente e aos ingredientes é fundamental. É
importante ter técnica e método, mas já vi chefs
sem nenhuma técnica fazerem pratos extraordinários.
Veja O senhor foi um dos últimos grandes chefs que
realmente cozinhavam. Hoje, a maioria só elabora novos pratos e
deixa que outros os executem. O que o senhor acha disso?
Robuchon
É uma questão de emoção e sensibilidade, que
vai no prato. O chef tem uma ligação muito grande com seus
clientes. Você pode ter excelentes restaurantes nos quais se come
bem, mas, se o chef não está lá, você percebe
isso na comida. Dá para sentir a diferença.
Veja Como o senhor aprendeu a cozinhar?
Robuchon
É uma longa história. Eu tinha 15 anos e estava no seminário
para ser padre. Minha válvula de escape da disciplina religiosa
foi ficar na cozinha com as freiras, e então descobri que cozinhar
me dava muito prazer. Quando desisti do seminário, por causa de
problemas financeiros de minha família, e precisei trabalhar, a
primeira coisa que me ocorreu foi ser aprendiz de cozinheiro. Isso foi
muito importante. Comecei pelo básico, lavando chão, panelas,
e até cortei a grama do jardim do restaurante. Aprendi pequenas
coisas que foram essenciais em minha carreira. Por exemplo, para lavar
uma panela de cobre, o melhor é usar uma mistura de clara de ovo,
farinha e areia. Na época, eu não entendia por que isso
seria importante, mas hoje sei que a boa limpeza de uma panela é
essencial num molho. Esses detalhes fazem a diferença entre um
bom cozinheiro e o grande cozinheiro.
Veja O que o senhor levou do seminário para sua cozinha?
Robuchon
Levei, não só do seminário, mas de meus mestres,
o rigor, o amor pela atividade, satisfação no trabalho bem-feito
e, principalmente, o respeito. Logo aprendi que, para alimentar uma pessoa,
é necessário eliminar uma vida, seja um peixe, uma carne
ou um legume. Fazer um bom prato, respeitando o sabor e as qualidades
originais, é uma forma de respeitar essa vida.
Veja O que o senhor conhece da cozinha brasileira?
Robuchon
Não
muito, sinceramente. Todo mundo ri quando eu digo isso, mas adoro churrasco.
É uma cozinha moderna, que não sai de moda nunca. Uma churrascaria
poderia funcionar em qualquer lugar do mundo, e ainda assim daria certo.
Também gosto muito de abacaxi.
Veja Quem cozinha em sua casa?
Robuchon
Minha mulher, que cozinha muito bem. Ela aprendeu a escolher os ingredientes
comigo.
Veja Qual seu prato preferido?
Robuchon
Sinceramente, não tenho preferências. Depende muito de onde
estou, com quem estou. Uma vez dividi uma garrafa de vinho, uma fondue
de queijo e um salame com um amigo, que nunca mais vou esquecer, por causa
da companhia e da qualidade da comida. Não entendia como alguém
podia fazer uma reserva em meu restaurante com seis meses, um ano de antecedência.
Hoje tenho vontade de comer um bife com fritas; amanhã, outra coisa.
Como vou prever o que quero comer daqui a seis meses? Mas posso dizer
que gosto muito de trufas. Para mim, comer trufas tem algo de místico.
Veja Existe algo que o senhor não come de jeito nenhum?
Robuchon
Detesto tapioca. É muito grudenta. Parece que a daqui é
mais sequinha, mas a que os asiáticos comem parece uma papa.
Veja Qual sua comida preferida quando o senhor está
com pressa?
Robuchon
Queijo e um salame bem seco.
Veja O senhor já comeu no McDonald's?
Robuchon
Já comi coisas inacreditáveis. Já levei minha netinha
ao McDonald's. Sim, aquela comida cheia de ketchup...
Veja Qual o melhor elogio que um chef pode ter?
Robuchon
O
melhor elogio que já tive foi quando um cliente de meu restaurante
jantou, pagou a refeição e imediatamente fez uma reserva
para a próxima vez. Elogio melhor que isso não existe.
Veja A qualidade dos bistrôs parisienses parece ter
caído nos últimos tempos. O senhor saberia dizer por quê?
Robuchon
Os bistrôs tradicionais de Paris, com seus pratos tradicionais,
praticamente não existem mais. Foram substituídos por locais
que fazem uma cozinha chamada fusion, que mistura vários elementos.
Veja Um jantar em seu restaurante não saía
por menos de 200 dólares por pessoa. O que justifica um custo tão
alto?
Robuchon
Os
ingredientes são muito caros, como a trufa e o caviar de qualidade.
Mesmo ingredientes banais, como frango, que normalmente são baratos,
custam bem mais quando são de qualidade superior. Um peixe pescado
com rede é diferente daquele pescado com vara, e isso faz a diferença
no preço do prato. Há também a questão do
trabalho colocado na comida. Veja o caso do L'Arpège, um restaurante
vegetariano de Paris. Só usa vegetais, que não são
caros. Mas o trabalho de preparo dos pratos é tanto que justifica
o preço mais alto.
Veja Qual seu prato mais popular? E o mais comentado?
Robuchon
Foi
o purê de batata. Vinham pessoas do mundo inteiro a meu restaurante
para comer o purê; várias repetiam a dose; algumas pediam
até como sobremesa. Minha geléia de caviar com creme de
couve-flor foi o prato que mais me rendeu elogios e o que mais
me dava trabalho também.
Veja Se o senhor tivesse apenas dois ingredientes na cozinha,
quais seriam?
Robuchon
Batata
e manteiga. E um pouco de sal.
Veja Qual a bebida ideal para acompanhar uma boa refeição?
Robuchon
Champanhe,
que sempre tem um ar de festa. Atualmente há tantos tipos que sempre
é possível achar um que combine com a comida.
Veja Se o senhor fosse escolher uma refeição
para ser a última antes de morrer, qual seria?
Robuchon
Trufas, sem dúvida! Ou 500 gramas de caviar.
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