
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Sérgio
Abranches
Um
medo real
"Uma
sociedade que cometeu o grave
desvio de viver décadas sob inflação
leva décadas para se curar totalmente
e
está sujeita a
recaídas"
Ilustração Ale Setti
 |
Em junho de 1994, a inflação mensal era de 47,43%. Em maio
deste ano, ela foi de 0,21%. A primeira, anualizada, dava 10.444,61%,
a segunda, 2,5%, embora a inflação anual, em 2002, deva
ficar entre 5% e 6%. Essa é a diferença entre o último
mês do Brasil pré-Real e agora. O Plano Real comemora oito
anos de nascimento e três de seu fim, com 46% de aprovação,
segundo o Datafolha, metido em tanta controvérsia política
quanto ao nascer. Só uma coisa é certa: a hiperinflação
acabou. O plano cumpriu sua missão estabilizadora. Não era
programa de crescimento e distribuição de renda. Quem quiser
fazer essas coisas, no meio do combate à inflação,
não fará mais que populismo. Na estabilização
não há dois objetivos. É combater a inflação
e combater a inflação. Vencemos a guerra, mas o inimigo
continua à espreita, e é preciso estar atento.
Uma sociedade que cometeu o grave desvio de viver décadas sob inflação,
iludindo-se com a possibilidade de expandir o cobertor da moeda, para
financiar qualquer desatino, leva décadas para se curar totalmente
e ainda assim está sujeita a recaídas. Ao fim de cada ano,
é necessário dizer: "nós somos inflacionistas e neste
ano não cometemos nenhum ato inflacionário".
O Plano Real acabou em 13 de janeiro de 1999, com o colapso cambial. Foi
substituído pelo sistema de metas de inflação, que
o vice de Lula trocaria por uma inovação econômica
mundial, que denomina metas de crescimento como se desse para crescer
por decreto ou marretando, talvez, a taxa de juros. Lula diz que o manteria,
"flexibilizado", para torná-lo compatível com o crescimento.
Significa que se inflação baixa comprometer o crescimento
far-se-ia mais inflação? Método que os candidatos
Ciro Gomes e Anthony Garotinho não adotariam se chegassem ao Planalto,
mas a ele não oferecem alternativas. José Serra tem prometido
mantê-lo, até com o presidente do Banco Central, Armínio
Fraga, mas vozes de sua equipe dizem que é mais para acalmar os
mercados, porque entre eles existem muitas divergências.
Vejo muita gente dizer que "só" manter a inflação
baixa não dá. É neoliberalismo. É preciso
eliminar os entraves ao crescimento. Parece fazer sentido, mas não
faz. A não ser que se esteja dizendo: "vamos financiar crescimento
com mais inflação". Para crescer sem inflação,
o caminho não é afrouxar a vigilância sobre o dragão.
É criar meios não inflacionários para crescer. Significa
escolher ciosamente o que fazer. A idéia é combater pobreza
e desigualdade? Perfeito. Corta do programa econômico todos os subsídios
aos ricos. Deriva o resultado para programas como o Bolsa-Escola, sem
máquina burocrática, que fica com a maior parte dos recursos
a pretexto de fazer política social. Dar subsídios ao rico
patriciado industrial, em nome do crescimento e da distribuição,
é pura hipocrisia. Aumenta a ineficiência, concentra a renda,
diminui a concorrência e, ao final, colhem-se mais desigualdade
e mais inflação. Combater a desigualdade significa eliminar
privilégios.
Gosto mais da sinceridade irresponsável de quem diz "prefiro inflação
com salário indexado". Como fez um senador do PDT, que se elegeu
pelo PT, em debate no Senado, recentemente. Literalmente, afirmou: "Vou
falar por mim. Prefiro os 84% de inflação ao mês do
Sarney, com reposição salarial mensal, às vezes até
quinzenal". Falava do funcionalismo público. A bem da verdade,
poucas vezes, no período da hiperinflação indexada,
o funcionalismo conseguiu indexação plena. Nem naquelas
épocas de disparate dava para ser totalmente irresponsável
do ponto de vista fiscal. E a reposição que era dada com
uma mão era tirada com a outra. Vivia-se de pura ilusão
monetária.
Não acredito que a maioria queira mais inflação.
Em 1999, com a desvalorização, as expectativas eram as piores.
No México, a inflação passara de 60%. Na Indonésia,
fora a mais de 80%. Na Rússia, chegou a bater os 70% anuais. Aqui
se falava em 20%. Em junho de 1999, ela chegou a 1,09% 13,9% anualizados
e em outubro, a 1,19% 15,25% anualizados. Fechou em 9%.
Antes da desvalorização, a média de pessoas com medo
de mais inflação, no Datafolha, era de 39%. Depois da desvalorização,
passou para 64%. Em fevereiro de 1999 bateu em 68%. Em junho de 2001,
a inflação atingiu 1,31% quase 17% anualizados
e as pessoas que temiam mais inflação no futuro chegaram
a 70%. Em junho último eram 58%. Inflação não
é problema, mas continua sendo um risco para a maioria sensata
e sabida do povo brasileiro.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
|
|
 |