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Edição 1 759 - 10 de julho de 2002
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Sérgio Abranches

Um medo real

"Uma sociedade que cometeu o grave
desvio de viver décadas sob inflação
leva décadas para se curar totalmente
e está sujeita a recaídas"


Ilustração Ale Setti


Em junho de 1994, a inflação mensal era de 47,43%. Em maio deste ano, ela foi de 0,21%. A primeira, anualizada, dava 10.444,61%, a segunda, 2,5%, embora a inflação anual, em 2002, deva ficar entre 5% e 6%. Essa é a diferença entre o último mês do Brasil pré-Real e agora. O Plano Real comemora oito anos de nascimento e três de seu fim, com 46% de aprovação, segundo o Datafolha, metido em tanta controvérsia política quanto ao nascer. Só uma coisa é certa: a hiperinflação acabou. O plano cumpriu sua missão estabilizadora. Não era programa de crescimento e distribuição de renda. Quem quiser fazer essas coisas, no meio do combate à inflação, não fará mais que populismo. Na estabilização não há dois objetivos. É combater a inflação e combater a inflação. Vencemos a guerra, mas o inimigo continua à espreita, e é preciso estar atento.

Uma sociedade que cometeu o grave desvio de viver décadas sob inflação, iludindo-se com a possibilidade de expandir o cobertor da moeda, para financiar qualquer desatino, leva décadas para se curar totalmente e ainda assim está sujeita a recaídas. Ao fim de cada ano, é necessário dizer: "nós somos inflacionistas e neste ano não cometemos nenhum ato inflacionário".

O Plano Real acabou em 13 de janeiro de 1999, com o colapso cambial. Foi substituído pelo sistema de metas de inflação, que o vice de Lula trocaria por uma inovação econômica mundial, que denomina metas de crescimento – como se desse para crescer por decreto ou marretando, talvez, a taxa de juros. Lula diz que o manteria, "flexibilizado", para torná-lo compatível com o crescimento. Significa que se inflação baixa comprometer o crescimento far-se-ia mais inflação? Método que os candidatos Ciro Gomes e Anthony Garotinho não adotariam se chegassem ao Planalto, mas a ele não oferecem alternativas. José Serra tem prometido mantê-lo, até com o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, mas vozes de sua equipe dizem que é mais para acalmar os mercados, porque entre eles existem muitas divergências.

Vejo muita gente dizer que "só" manter a inflação baixa não dá. É neoliberalismo. É preciso eliminar os entraves ao crescimento. Parece fazer sentido, mas não faz. A não ser que se esteja dizendo: "vamos financiar crescimento com mais inflação". Para crescer sem inflação, o caminho não é afrouxar a vigilância sobre o dragão. É criar meios não inflacionários para crescer. Significa escolher ciosamente o que fazer. A idéia é combater pobreza e desigualdade? Perfeito. Corta do programa econômico todos os subsídios aos ricos. Deriva o resultado para programas como o Bolsa-Escola, sem máquina burocrática, que fica com a maior parte dos recursos a pretexto de fazer política social. Dar subsídios ao rico patriciado industrial, em nome do crescimento e da distribuição, é pura hipocrisia. Aumenta a ineficiência, concentra a renda, diminui a concorrência e, ao final, colhem-se mais desigualdade e mais inflação. Combater a desigualdade significa eliminar privilégios.

Gosto mais da sinceridade irresponsável de quem diz "prefiro inflação com salário indexado". Como fez um senador do PDT, que se elegeu pelo PT, em debate no Senado, recentemente. Literalmente, afirmou: "Vou falar por mim. Prefiro os 84% de inflação ao mês do Sarney, com reposição salarial mensal, às vezes até quinzenal". Falava do funcionalismo público. A bem da verdade, poucas vezes, no período da hiperinflação indexada, o funcionalismo conseguiu indexação plena. Nem naquelas épocas de disparate dava para ser totalmente irresponsável do ponto de vista fiscal. E a reposição que era dada com uma mão era tirada com a outra. Vivia-se de pura ilusão monetária.

Não acredito que a maioria queira mais inflação. Em 1999, com a desvalorização, as expectativas eram as piores. No México, a inflação passara de 60%. Na Indonésia, fora a mais de 80%. Na Rússia, chegou a bater os 70% anuais. Aqui se falava em 20%. Em junho de 1999, ela chegou a 1,09% – 13,9% anualizados – e em outubro, a 1,19% – 15,25% anualizados. Fechou em 9%.

Antes da desvalorização, a média de pessoas com medo de mais inflação, no Datafolha, era de 39%. Depois da desvalorização, passou para 64%. Em fevereiro de 1999 bateu em 68%. Em junho de 2001, a inflação atingiu 1,31% – quase 17% anualizados – e as pessoas que temiam mais inflação no futuro chegaram a 70%. Em junho último eram 58%. Inflação não é problema, mas continua sendo um risco para a maioria sensata e sabida do povo brasileiro.


Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)



 
 
   
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