BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
REVISTAS
 

Perfil
Cada vez mais Mangabeira
e menos Unger

Em fase de "autorreconstrução", o ministro perde a carranca, ameniza o sotaque e põe o pé na estrada. Seu novo projeto: candidatar-se à Presidência da República


Thaís Oyama

Manoel Marques
HARVARD VAI À FEIRA
Comerciantes de mercadoria pirata, não: "Gente morena e mestiça, esfomeada de conhecimento"


Ele continua cerimonioso a ponto de não tirar o paletó em circunstância nenhuma – o que inclui prospecções na Floresta Amazônica e visitas a áreas de garimpo no Pará. Também não desistiu de usar em seus discursos expressões como "a dialética ideária entre as ações prefiguradoras", e continua sem paciência para conversas miúdas – ou seja, toda aquela que não atingir a altitude mínima para aproximar-se de seus interesses de filósofo com mais de duas dezenas de livros publicados em onze países, professor titular de direito da Universidade Harvard e, desde outubro de 2007, ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo Lula. Mesmo assim, é visível que os ares tropicais já operaram mudanças em Roberto Mangabeira Unger – carioca, filho de mãe brasileira e pai alemão naturalizado americano. O sotaque diminuiu e, dependendo da plateia, praticamente desaparece. A carranca, antes perene, dá vez ou outra lugar a um meio sorriso e até a gargalhadas inspiradas em uma insuspeita autoironia. Como quando ele conta que, certa vez, ao entregar um artigo ao London Review of Books, recebeu dos editores do jornal político-literário o pedido para que o reescrevesse em tom mais conversacional. "Respondi que seria impossível, já que não uso o tom conversacional nem mesmo nas minhas conversas", diz, para explodir em riso. Mangabeira Unger é o primeiro a declarar: está em franco processo de "autorreconstrução" e considera isso parte da missão épica que se atribuiu: a de ajudar a transformar o Brasil.

Desde o fim do ano passado, o ministro praticamente não tira o pé da estrada. Afora a Amazônia, cuja política de desenvolvimento ele formalmente coordena, Mangabeira anda interessadíssimo no Nordeste – região que, acredita, tem tudo para ser o ponto de partida daquilo que sua grandiloquência qualifica de "ação revolucionária em direção a uma obra libertadora". Ele foi contratado para ver longe – e, nesse exercício, tem visto coisas que os brasileiros jamais cogitaram existir. Numa feira do interior de Pernambuco, onde olhares vulgares enxergam um aglomerado de comerciantes vendendo produtos piratas, Mangabeira vê uma "segunda classe média emergente, morena e mestiça, esfomeada de acesso a conhecimento, a crédito e aos mercados globais". Uma cisterna improvisada no sertão, para o filósofo, é muito mais do que uma cisterna: é "um exemplo da inventividade popular tecnológica difusa", fruto do que ele chama de "potencial de originalidade coletiva dos brasileiros". "O Nordeste está repleto de benjamins franklins", diz.

Zé Rodrigues
DE PALETÓ
O ministro em visita a garimpo no Pará: o figurino não muda em hipótese nenhuma

Mangabeira Unger foi nomeado ministro em 2007, apesar do que andou falando a respeito do governo Lula ("o mais corrupto da história") e graças a um pedido feito ao presidente por José Alencar. Ao atender à solicitação de seu vice, Lula reservou ao filósofo uma secretaria sem estrutura nem tostão cujo objetivo seria pensar o Brasil com vistas para o longínquo ano de 2022, bicentenário da Independência. Mangabeira fez que concordava, mas, assim que assumiu seu ministério do futuro, tratou logo de inseri-lo no presente, a pretexto de tratar "o longo a curto prazo". Passou a lidar com questões tão díspares quanto a sustentabilidade da Amazônia e a compra de caças russos. No caminho, criou embates e fez inimigos entre os colegas ministros, a ponto de um deles descrevê-lo como um "especialista em meter-se em disputas no governo e perder todas". Com o presidente Lula, a relação de Mangabeira é mais próxima do que admitem seus adversários e mais distante do que ele próprio gostaria. Lula, diz o ministro, pode não compartilhar de seu pensamento abstrato e sistemático de filósofo, mas isso não quer dizer que os dois não se entendam. Para falar-lhe com mais frequência do que permite a agenda presidencial e toda sorte de limitações, o ministro adotou um expediente extraprotocolar: escreve cartas a Lula. Já lhe enviou "algumas dezenas", sempre escritas "em letras que todos podem ler" – e acredita que o chefe o faça. "Às vezes, quando o encontro, ele está com elas nas mãos e menciona trechos", diz.

Escrever cartas para presidentes da República é um hábito que Mangabeira começou a cultivar cedo – mais precisamente aos 9 anos de idade. Ele conta que, em 1957, enquanto jantava com os pais na casa onde a família morava, em Nova York, ouviu um discurso de Dwight Eisenhower na TV sobre as implicações do crescimento do poderio da indústria bélica americana. "Discordei de alguns pontos e enviei-lhe algumas críticas. Para minha surpresa, Eisenhower respondeu." A partir de então, Mangabeira não parou mais. Os destinatários preferenciais de suas ideias, se não necessariamente detêm o título de presidente da República, são ao menos pretendentes ao cargo. Desde a década de 70, quando passou a combinar a vida acadêmica em Harvard com incursões à política na terra natal (além de uma bem remunerada consultoria jurídica entre 2002 e 2005 para a Brasil Telecom, então controlada pelo banqueiro Daniel Dantas), vem se esforçando para influenciar pensamentos e ações de conterrâneos ilustres. Na década de 70, ofereceu-se para assessorar o MDB de Ulysses Guimarães; nas campanhas presidenciais de 1989 e 1994, atuou como colaborador do candidato Leonel Brizola; e nos dois pleitos seguintes, de 1998 e 2002, tal qual uma Cibele soprando instruções nos ouvidos de Dionísio, "adotou" o candidato Ciro Gomes. Agora, perto de completar 62 anos, está decidido a passar ao plano hílico e tornar-se ele mesmo o porta-voz de suas convicções. Em outras palavras, quer ser candidato à Presidência da República. E já comunicou a pretensão ao chefe. Como reagiu Lula? A resposta vem ao estilo Unger: "O presidente está acostumado a adivinhar as motivações dos que o cercam. Como destoo dos que o cercam em alguns aspectos, não sei se ele compreendeu as minhas" (tradução livre: Lula achou que a ideia não tem cabimento).

A candidatura à Presidência é um sonho antigo – Mangabeira chegou a lançar-se pré-candidato ao cargo em 2005, pelo nanico Partido Humanista da Solidariedade. Atualmente, está no Partido Republicano Brasileiro e pode procurar outra agremiação que encampe o seu projeto pessoal. Embora evite falar dele abertamente, está convencido de que, da mesma forma que Mangabeira Unger está preparado para o Brasil, o Brasil está pronto para Mangabeira. "O povo brasileiro tem suficiente maturidade para aceitar meu sotaque estranho e minhas roupas de presbítero, como elas já foram classificadas." De resto, o filósofo diz estar habituado a críticas. A humanidade é cética quando encontra uma mensagem transformadora, gosta de repetir. E costuma submeter à desconfiança e ao ridículo seus porta-vozes. Mangabeira Unger vem a público se oferecer para o sacrifício.

Olhe o Mangabeira lá

Como assessor, colaborador ou guru, ele aproximou-se
de três presidenciáveis, antes de virar ministro

Amilton Vieira

ULYSSES GUIMARÃES
Em 1977, Mangabeira licenciou-se de Harvard e ajudou Ulysses a fundar o PMDB



LEONEL BRIZOLA
Já no PDT, colaborou em duas campanhas de Brizola para a Presidência, em 1989 e 1994

Adolfo Gerchmann


Sergio Dutti

CIRO GOMES
Em 1998 e 2002, foi conselheiro de campanha do eterno candidato à Presidência, com quem hoje está rompido



Alan Marques/Folha Imagem
CARTAS PARA LULA
Para driblar as dificuldades de comunicação, ele escreve cartas ao presidente. Já enviou "algumas dezenas"



Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |