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Televisão Silvio
que se cuide... ...porque a Record
está perto de se tornar a vice-líder absoluta. Ela tem o
que falta ao SBT: um plano de vôo
 Marcelo
Marthe
Na
segunda-feira passada, Silvio Santos promoveu, pela enésima vez, uma dança
das cadeiras na programação de sua emissora. A novelinha mexicana
Rebelde passou das 8 da noite para as 7. O telejornal SBT Brasil sofreu
sua terceira mudança desde a estréia, há nove meses. Agora
ou até o próximo arroubo vai ao ar às 8. Em
tempo: semanas antes, Silvio chegou a manifestar seu desejo de colocá-lo
mais cedo, mas desistiu quando a apresentadora Ana Paula Padrão teve um
chilique. Para completar (ou não), o empresário fez a quarta alteração
de horário, em pouco mais de um mês de existência, da vetusta
gincana musical Rei Majestade: ao contrário do que ocorreu na outra
semana, ela não foi exibida na segunda-feira. A inconstância de Silvio
faz parte do folclore da televisão e, por muito tempo, foi a arma com a
qual ele se aproveitou das brechas na programação da Rede Globo
para ampliar sua audiência. Mas essas flutuações ganharam
jeito de desespero. A Rede Record caminha para arrancar do SBT o segundo lugar
na audiência do horário nobre. Essa é a faixa que concentra
a massa dos espectadores e também do faturamento publicitário. Na
medição nacional do Ibope, a Record ampliou sua média nesse
horário de 6 para 8 pontos entre janeiro e abril de 2005 e no mesmo período
deste ano. Já o SBT caiu de 10 para 8 pontos o que garantiu à
Record um empate inédito. Na Grande São Paulo, o panorama para a
TV dos bispos é ainda mais favorável: já virou rotina ela
ganhar do SBT de segunda a sábado.
Os trunfos da Record são aquilo que falta ao SBT: ambição
e disciplina. Em vez de mirar no curto prazo, como faz Silvio, a emissora usa
de paciência e pensa grande. A ordem é ser uma cópia da líder
Globo mas dentro dos parâmetros da Igreja Universal do Reino de Deus,
sua proprietária. Avalia-se no mercado que a entidade aplicou pelo menos
240 milhões de reais na rede nos últimos doze meses, por meio da
compra de horários durante a madrugada. Tanta boa vontade, entretanto,
não serviria para muita coisa se a Record não tivesse um plano de
vôo. A rota que ela busca seguir é a mesma que, nos anos 70, fez
da Globo um gigante: criar uma grade de programação integrada, em
que cada atração alimenta o ibope da outra. A Record também
não descuida do marketing. Quando nem sequer chegava perto da vice-liderança,
já vendia a imagem de que brigava pelo primeiro lugar com a Globo. O SBT
pode até ser eficiente nas táticas de guerrilha, mas carece de uma
estratégia. Mesmo quando emplaca um sucesso como o atual Ídolos,
não dá continuidade ao fenômeno. "A Record está
decolando, enquanto o SBT dá a impressão de que está perdido
e pode aterrissar a qualquer momento", avalia um publicitário.
Dos cinco pilares da programação de uma rede de TV aberta
a teledramaturgia, o jornalismo, os esportes, os filmes e os programas de variedades
, a Record já leva vantagem em três (veja
o quadro). Os esforços se concentram na teledramaturgia,
que recebeu 200 milhões de reais em investimentos e se tornou seu cartão
de visita. O SBT ativou e desativou várias vezes seu núcleo de novelas
e hoje praticamente se limita a retransmitir folhetins mexicanos. É verdade
que colhe sucessos esporádicos, como Rebelde, mas o problema é
que o público brasileiro se acostumou ao padrão das novelas da Globo,
agora copiadas pela Record. Em apuros no horário nobre, o SBT apostará
suas fichas numa refilmagem da venezuelana Cristal. À sua moda,
como sempre: o projeto foi reformulado às pressas, e o diretor Herval Rossano
(que, por ironia, montou a área de dramaturgia da concorrente) mudou boa
parte do elenco, jogando fora muito do que já havia sido filmado. A estréia
de Cristal, antes prevista para maio, poderá ficar só para
depois da Copa do Mundo, e o clima nos bastidores não é dos melhores.
Reclama-se na equipe que a atriz Mayara Magri, mulher e assistente de Rossano,
está botando as manguinhas de fora com mais desinibição do
que seria recomendável para uma primeira-dama.
A parte mais vistosa do investimento da Record em suas novelas é a contratação
de rostos conhecidos. Seu time de 130 artistas inclui nomes como Lavínia
Vlasak e Paloma Duarte. E, assim como a Globo, ela procura explorá-los
em outras atrações da casa. O SBT conquistou atores como Dado Dolabella
para seu novo folhetim, mas seu elenco hoje tem gente que é mais problema
do que solução. É o caso do apresentador Ratinho, que ganha
18 milhões de reais por ano e teve seu programa mudado de horário
e formato várias vezes por causa do ibope pífio. (Ele deveria estrear
um novo nesta segunda-feira à noite. Deveria. Se vai estreá-lo ou
não é outra história.) Diante do assédio da concorrente,
os únicos bastiões do SBT são hoje as manhãs e as
tardes, que não enchem o bolso de ninguém, e os domingos, graças
a Gugu Liberato (que, é bom lembrar, apanha todas as semanas do Domingão
do Faustão). O sucesso recente de Ídolos sugere que a
emissora de Silvio Santos ainda tem fôlego para reagir. Mas, se não
passar a usá-lo com algum critério, vai morrer antes de chegar à
praia. |