Edição 1955 . 10 de maio de 2006

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O Walt Disney do século XXI

À frente do estúdio Pixar, o americano
John Lasseter é a mente criativa que
revolucionou a animação


Marcelo Marthe, de São Francisco

 
Fotos divulgação
Lasseter, com a camisa havaiana de praxe, e uma cena de Carros: o próximo desafio é levantar a Disney

EXCLUSIVO ON-LINE
Fotos dos filmes da Pixar

Em meados dos anos 80, o americano John Lasseter fez uma aposta arriscada. Animador recém-formado, ele tinha aquilo que qualquer profissional da área ambicionava: um emprego nos estúdios Disney. Mas, seduzido por uma novidade em que poucos botavam fé – a animação digital –, ele se bandeou da empresa número 1 do setor para um ateliê que dava os primeiros passos no uso do computador para produzir desenhos. Era, de fato, um negócio de visionários: logo esse estúdio incipiente se tornaria propriedade de um certo Steve Jobs, um empreendedor que fora demitido da companhia que ele próprio fundara (uma certa Apple) e tentava superar seu inferno astral. Vista em retrospectiva, a manobra de Lasseter foi uma tacada de mestre. Jobs recuperou com estrondo o controle da fabricante de computadores Apple, e a Pixar, aquele outrora pequeno estúdio cuja área criativa Lasseter dirige desde então, é hoje a principal usina de animações do mundo: já produziu seis longas-metragens que faturaram 3,2 bilhões de dólares na bilheteria mundial. A presença de Lasseter foi fundamental para a Pixar se tornar essa potência. Ninguém personifica melhor do que ele a revolução por que passou o mundo da animação nos últimos anos. Lasseter dirigiu o primeiro sucesso do estúdio, Toy Story (1995), um divisor de águas a partir do qual o formato digital passou a ditar as tendências. Mesmo quando ele se abstém de dirigir, é sua visão arrojada que norteia produções como Monstros S.A. e Os Incríveis. É por isso que ele tem sido chamado de "o Walt Disney do século XXI".

Aos 49 anos, Lasseter vive um momento especial. Ele está de volta à companhia em que começou sua trajetória – mas como chefão. Em janeiro, depois de anos assolada por uma crise criativa que a tornou perigosamente dependente das produções da parceira Pixar para fechar seus balanços, a Disney achou uma forma de resolver o problema: comprou sua galinha dos ovos de ouro, numa operação de 7,4 bilhões de dólares. Pelo acordo, Steve Jobs passou a ser seu principal acionista individual – e Lasseter assumiu o comando da área de animação da empresa, além de continuar dando as cartas na Pixar. "Há talentos excepcionais na Disney, mas eles andavam sufocados pelo jogo político da corporação. Minha prioridade será proporcionar-lhes um ambiente de liberdade criativa como o que temos aqui", disse Lasseter a VEJA na sede da Pixar em Emeryville, na Califórnia (leia entrevista).

Trata-se de um momento especial também por outro motivo: depois de sete anos supervisionando o trabalho de seus pupilos, Lasseter está de volta à direção, e o faz com seu projeto mais pessoal até hoje. Carros, que estréia nos cinemas brasileiros em 30 de junho, carrega muito da sua nostalgia dos tempos de infância, quando ele ajudava o pai numa concessionária da Chevrolet em Los Angeles. Além disso, a fábula se inspira, em boa medida, numa experiência de autodescoberta vivida por Lasseter no fim dos anos 90. Em Carros, Lightning McQueen, o carro de corridas que protagoniza a história (e homenageia, com seu nome, o astronauta Buzz Lightyear de Toy Story e o astro Steve McQueen, de filmes como Bullitt), perde-se numa viagem rumo à decisão de um campeonato e é obrigado a passar uma temporada numa cidadezinha esquecida ao longo da Rota 66. A lendária rodovia foi uma ligação importante entre o interior e a Costa Oeste dos Estados Unidos, mas, depois da construção das auto-estradas, passou a subsistir apenas como objeto de culto de aventureiros. Com os habitantes do lugarejo – que incluem um ex-campeão de velocidade e um divertido caminhão de ferro-velho –, McQueen aprende que, por mais que se lute para realizar uma ambição, não se pode deixar de viver a vida por causa dela.

No fim dos anos 90, depois de emendar trabalhos em várias produções da Pixar, Lasseter se viu em situação semelhante à do personagem. "Um dia percebi que, se eu não tomasse cuidado, a infância de meus filhos passaria sem que eu a tivesse aproveitado." No verão de 2000, ele cedeu aos apelos de Nancy, sua mulher: tirou dois meses de férias e rodou os Estados Unidos de costa a costa com ela e os cinco filhos. A viagem uniu a família e mostrou a Lasseter que havia vida além dos prazos e metas de seus projetos. "Eu já vinha trabalhando no roteiro de Carros, mas foi só ali que entendi qual seria a sua mensagem."

Lasseter é uma figura que não faria feio como personagem de seus filmes. Bonachão, não abdica por nada de suas extravagantes camisas havaianas, e seus olhos brilham diante dos brinquedos inspirados em seus filmes. "Não raro, me pego conversando com eles", diz. A própria Pixar, aliás, foi moldada à imagem e semelhança de seu líder. Num ambiente de trabalho radicalmente informal, os funcionários se deslocam sobre patinetes e até o faxineiro palpita nos filmes. A idéia é que esse clima espontâneo contribua para que as pessoas expressem sua criatividade – a principal matéria-prima de uma animação. "A tecnologia é importante, mas o fundamental num filme continua sendo o ingrediente que Walt Disney tanto prezava: uma boa história", diz o animador. O entusiasmo pela criação coletiva, no entanto, tem limites. "Não sou o novo Walt Disney", declarou ele certa vez. "Sou, isso sim, o primeiro John Lasseter."

 

"Ninguém vai canibalizar a Pixar"

Divulgação
Lasseter: ele bate papo com os brinquedos

DESDE O LANÇAMENTO DE TOY STORY, A ANIMAÇÃO MUDOU MUITO. ISSO FOI EFEITO SÓ DA EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA OU O GOSTO DO PÚBLICO TAMBÉM JÁ NÃO É O MESMO?
A tecnologia virou a desculpa dos estúdios e dos maus animadores para o fracasso de suas produções. Tudo que o público quer é consumir um bom filme. Não importa como ele foi feito. Por isso, discordo de muita gente em Hollywood que acha que só vale a pena investir na animação digital. Por que desprezar as técnicas tradicionais, como as que a Disney consagrou? A chave é o roteiro.  

QUAL O SEGREDO PARA FAZER HISTÓRIAS QUE AGRADEM A CRIANÇAS E ADULTOS?
Para chegar a esse equilíbrio, seguimos dois mandamentos. O primeiro é nunca fazer um filme com o qual nós mesmos não sejamos capazes de nos divertir. O segundo é nunca menosprezar a inteligência das crianças. Elas são espertas o suficiente para fugir de tudo que seja vendido como "ideal para o público infantil". Toda boa animação precisa conter uma mensagem universal. Carros, por exemplo, fala sobre o valor da família e dos amigos. As crianças podem não compreender a mensagem na mesma profundidade que os pais, mas são tocadas por ela.  

O SENHOR COMEÇOU NA DISNEY E, GRAÇAS À COMPRA DA PIXAR PELA EMPRESA, ESTÁ DE VOLTA – AGORA NO COMANDO. O QUE FAZER PARA O ESTÚDIO RETOMAR A VELHA FORMA?
Aplicarei lá a mesma política que vigora na Pixar: estimular a liberdade criativa e enfatizar a qualidade acima de tudo. Um estúdio que se pretenda grande não pode ter como meta a quantidade nem o lucro a curto prazo, como vinha ocorrendo na Disney. No mundo dos negócios, não há estratégia melhor do que ser bom.

COMO RENOVAR A DISNEY SEM PREJUDICAR A PIXAR?
O acordo se norteou por um ponto: proteger a Pixar a todo custo. O objetivo é salvar a Disney, mas não deixaremos que a Pixar seja canibalizada. Um exemplo: eu assumirei a direção criativa da Disney, mas ninguém será tirado da Pixar para trabalhar lá.  

QUANTO HÁ DE JOHN LASSETER EM LIGHTNING MCQUEEN, O PROTAGONISTA DE CARROS?
McQueen é uma metáfora das pessoas que se programam para atingir um objetivo e relegam tudo o mais em sua vida ao segundo plano. Durante muito tempo fui assim. Mas redescobri o prazer de aproveitar o tempo livre e fazer parte de uma família.  

O SENHOR SE DIVERTE COM OS BRINQUEDOS DE SEUS FILMES?
É claro. As pessoas costumam se interessar por brinquedos até os 14 ou 15 anos e depois passam a achá-los uma bobagem. Eu nunca parei de brincar. Não tenho vergonha de dizer: amo os brinquedos e converso com eles.

 
 
 
 
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